Sauna
Depois de 47 dias consecutivos de chuva torrencial, São Pedro parece ter feito as pazes com São Paulo e o saldo disso é o calor. Muito calor.
Como o meu quarto fica a sete andares do chão, imaginei que as altas temperaturas não me abraçariam.
Na noite passada (9/2), cheguei tão moído do trabalho que adormecer não foi problema. No entanto, lá pelas 3h já me via acordado de um salto. Heroicamente voltei a dormir. E digo heroico pois que não tenho ventilador, nem há vento passando pelo meu quarto há dias.
Às 5h20h a desgraça da insônia tanto fez que conseguiu sua presa. E cá estou, de banho recém tomado e já suando, tecendo esse texto.
Se troco todo esse transtorno pelo inverno? Nunca. Mesmo que dormir na sauna diária não me faça perder peso algum e sim ganhar generosos quilos de um mau humor dos infernos.
Anderson Passos
2 comments 09/02/2010
Malabares
Como sabem, em São Paulo, o único jeito de sair do lugar quando não se tem um carro ou uma moto – isso quando o trânsito deixa – é apanhar um ônibus.
Mas vamos ao título: não apenas em São Paulo, como em muitas cidades brasileiras, em meio ao trânsito o que se vê são aqueles malabares que, sem picadeiro para mostrar suas habilidades, se confundem com carros, motos, ônibus e o asfalto.
O que São Paulo traz de diferente nesse aspecto é que, se o sujeito estiver atento, vai perceber que os malabares também estão no interior dos coletivos, sejam eles trens, metrô ou ônibus mesmo.
Exemplo clássico: outro dia eu estava num ônibus que trafegava pela Avenida Paulista quando flagrei uma moça pendurada no corredor. O incrível é que numa mão ela trazia um livro e na outra um cachorro quente que, vez em quando, era vítima de dentadas de fera. Além das duas mãos ocupadas, carregava ainda o que parecia ser uma pesada bolsa a surrar-lhe o braço.
E eis o malabarismo: o motorista do ônibus dava bruscas freadas e arrancadas e ela jamais saiu do seu prumo. E essa equilibrista é apenas um exemplo.
No infeliz período de festas, vê-se com mais frequência a invasão dos malabaristas do asfalto no transporte coletivo da pauliceia. Um dia ainda lhes renderei palmas efusivas
Anderson Passos
2 comments 08/02/2010
Sobre milicos e gays
Ontem (4/02) o general Raimundo Nonato Filho, após ser sabatinado no Senado Federal visando uma vaga como ministro do Supremo Tribunal Militar (STM), disse o inconfessável: que homossexuais não tinham capacidade para comandar a tropa.
Para uma instituição que preza a hierarquia e, mais ainda, vamos dizer a retidão de seus integrantes, a ideia até parece ter lógica à primeira vista.
Ainda que tenha registrado não ter nada contra os gays, tal gesto transpareceu, ao menos para o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que órgãos federais, qualquer que sejam, não podem discriminar o sujeito que tenha interesse em ingressar em seus quadros seja por cor, condição física ou opção sexual.
- Está na Constituição – argumenta.
Daí que Suplicy propôs, e os colegas senadores aprovaram, uma nova convocação para o general Raimundo Nonato Filho confirmar o que disse ou tergiversar e explicar que foi mal-interpretado.
Agora levemos a coisa ao pé da prática: sinceramente, um homossexual poderia comandar uma tropa militar brasileira? Se revermos a trajetória de cada comandante das Forças Armadas é seguro dizer que não encontraremos nenhuma histórico de homossexualismo?
Pintado o quadro, é de se perguntar que, por mais que tenha ferido a honra dos homossexuais, que sanção a ser imposta ao general? Vão, por acaso, expulsá-lo do Exército? Decisão radical demais, em tese.
Acho que o resultado, se muito, será este: o general será advertido e execrado pela imprensa e estaremos conversados. Evidente que o lógico é que o general, depois dessa bola fora, fique distante da pretensão de se tornar minnistro do STM.
No entanto, como a decisão final cabe aos homens, no caso, aos senadores, não é de se surpreender que ele seja acolhido na Corte Militar. Com pompa e circunstância.
Anderson Passos
2 comments 05/02/2010
Tyson
No final de semana que passou fui conferir o documentário Tyson, do diretor James Toback que, lamentavelmente, está em cartaz num único cinema da pauliceia.
Entremeado por longos depoimentos intercalados por imagens de arquivos – muitas delas raras – a película apresenta o ex-campeão mundial de boxe, Mike Tyson, ainda perturbado pelas chances que jogou fora, seja na carreira, seja em sua vida privada.
No filme, o próprio relata a promuscuidade da mãe e uma infância recheada de agressões, que mais tarde lhe abriram as portas para o mundo da delinquência juvenil, que o levaram à cadeia.
A mudança de rumo se revela com o comovente depoimento do ex-campeão mundial dos pesos pesados a respeito de seu descobridor e mestre Cus D’ Amato. A respiração ofegante de Tyson parece que vai parar para sempre com o embargo da voz ao falar do amigo.
Sobre as lutas, é surpreendente é ouvir que Mike Tyson se borrava de medo antes de cada luta e que só se sentia mobilizar para o combate à medida em que chegava perto do ringue.
Também é incrível conferir, seja nas até então inéditas imagens de arquivo, seja nas que ficaram para a posteridade, a agilidade e o poder destruidor de seus golpes. Murros que, não raro, dizimimavam os adversários já no primeiro round. O que enfurecia aqueles que pagavam centenas ou milhares de dólares para assistir às lutas ao vivo, seja os que, como eu, invadiam madrugadas à frente da TV para assistir um minuto e meio de embate.
O final da carreira de Tyson é tão melancólico que nem merece menção. Basta dizer que é revoltante assistir uma carreira tão espetacular se esvaindo.
Em meio a tantas reviravoltas em sua trajetória, não se pode dizer com segurança se Mike Tyson ainda terá forças para mais um golpe genial ou se, uma vez mais, se permitirá ser sparring de si mesmo. Tomara que este gênio do esporte se encontre.
Anderson Passos
1 comment 04/02/2010
A calamidade
Depois de levar pancada por todos os póros por conta de sua inércia administrativa ante os alagamentos e outros mil problemas da cidade de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), depois de 45 dias de chuva torrencial diárias na pauliceia, finalmente teve uma ideia feliz ao decretar calamidade pública na zona leste da Capital, a mais atingida pelas enchentes.
Me parece que a medida poderia ter sido tomada há mais tempo já que, desde o dia 8 de dezembro do ano passado, a área do Jardim Romano, por exemplo, teve um único dia livre das enchentes. E antes que o povo pudesse comemorar, choveu novamente.
Na prática, a medida fará com que o governo federal entre em campo e envie dinheiro para as obras necessárias para evitar a repetição dessa tragédia diária, assim como pode contribuir para a remoção das famílias que, sem opção, lá se instalaram.
Por aqui, este humilde observador continua a ver aflito à dor impublicável daquela gente pelo rádio e pela televisão, na esperança de que o dilúvio seja piedoso com quem pouco ou nada tem. Mas que siga rigoroso com quem, de seus gabinetes suspensos, segue mergulhado nas águas termais da indiferença.
Anderson Passos
Add comment 03/02/2010
Da série: o inferno é aqui… mesmo
Exceção à gostosura da Ivete Sangalo, a quem aprecio assistir e adorar seu bole bole, todos sabemos que a axé music – ainda não compreendo a adição desse music – é uma desgraça musical cujo conhecimento abrange não apenas os minerais, como até o petróleo embutido na cama pré-sal.
Mas quando a desgraça parecer mínima, desconfie: tudo pode ficar pior. Exemplo clássico disso vem logo ali dobrando a esquina.
Ocorre que a Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, soltou uma notinha ontem dando conta de que a mulher do meia atacante Kaká, do Real Madrid, da Espanha, vai protagonizar um dueto com a tal de Claudia Leitte, a tentativa de versão loura – e bem fraquinha – da dona Ivete.
Eu não sei se os poucos leitores desse espaço já tiveram a chance de ver a dona Kaká – cujo nome me escapa e pouco importa nessa hora – pregando. Ah, eu não disse antes? Ela é pastora da igreja Renascer, aquela cujo teto da sede desabou na cabeça de uns quantos coitados há pouco mais de um ano e, cujas famílias dos mortos, ainda esperam pela restituição do seu dízimo suado.
Voltando à dona kaka – é assim que passarei a chamá-la: honestamente espero que não, mas se a curiosidade for demais, procure pelo universo da internet e confira você mesmo a pregação da criatura. A meu modesto ver, um espetáculo triste e constrangedor.
É por essas e outras que me pego perguntando por que o Homem das Sandálias, aquele que sempre volta e perdoa e tals, não dá as caras só dessa vez e metralha esses neo milagreiros e seus templos suntuosos construídos em nome do dinheiro da fraqueza alheia.
Anderson Passos
Add comment 02/02/2010
Malandragem dá um tempo
Transcrevo, não sem alegria, matéria veiculada na versão on line do jornal O Globo.
STF rejeita pedido de arquivamento de investigação contra Igreja Universal
O Globo
RIO – O Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou pedido de arquivamento da investigação criminal contra a Igreja Universal que tramita na 9ª Vara Criminal de São Paulo. No dia 14 de dezembro, o ministro Ricardo Lewandowski negou recurso apresentado por Alba Maria Silva da Costa, ligada à Universal, e denunciada junto com o bispo Edir Macedo e outras oito pessoas, por crime de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. No pedido, Alba Maria pedia a suspensão da ação, alegando que o caso já fora julgado pelo STF em outra ocasião.
Os advogados de Alba Maria sustentaram que, em 2006, ao julgar um inquérito que envolvia o senador Marcelo Crivella, o STF determinara o arquivamento das investigações, seguindo parecer do Ministério Público. Na época, o STF não teria encontrado indícios contra os acusados e mandou que o caso fosse encerrado.
Para a defesa de Alba Maria, a denúncia feita em 2009 contra ela, Edir Macedo e oito dirigentes da Universal tratava dos mesmos fatos já arquivados.
Lewandowski negou: “Examinados os autos, vê-se que a pretensão não merece acolhida, pois o pedido formulado pela reclamante não se enquadra em nenhuma das duas hipóteses, seja para preservar a competência desta Corte, seja para garantir a autoridade de suas decisões”.
O ministro sustentou que a decisão da Justiça de São Paulo de receber a denúncia por lavagem de dinheiro não feria o julgamento anterior do STF: “Os fundamentos que dão base à nova denúncia são distintos dos analisados naquele inquérito”.
Para fundamentar a decisão, Lewandowski fez referência ao que determinou o arquivamento do inquérito em 2006. Lembrou que naquele caso o Ministério Público Federal sustentara que não havia provas documentais ou testemunhais de que os acusados tivessem remetido ou recebido US$ 18 milhões. Na ocasião, o MP argumentou que os crimes estariam prescritos. “Na nova denúncia, as ações criminosas investigadas se deram entre os anos de 1999 a 2009″, completou Lewandowski.
Na denúncia de agosto de 2009, os promotores de São Paulo citaram relatórios do Coaf, que monitora operações financeiras atípicas em todo o país. O documento foi mencionado na decisão do relator do caso no STF. Segundo o ministro, o relatório lista um volume financeiro movimentado pela Igreja Universal de R$ 8 bilhões entre março de 2001 e março de 2008.
Na denúncia dos promotores Roberto Porto, Everton Zanella, Luiz Henrique Cardoso Dal Poz e Fernanda Narezi Pimentel Rosa, Edir Macedo foi acusado de ser o chefe de uma quadrilha. O Ministério Público apontou que ele e os demais denunciados usavam empresas de fachada para desviar recursos provenientes de doações dos fiéis da Universal e praticar inúmeras fraudes.
Entre 2004 e 2005, segundo levantamento do MP de São Paulo, as empresas Unimetro Empreendimentos e Cremo Empreendimentos teriam recebido R$ 71,3 milhões da Igreja Universal. O dinheiro seria usado em benefício dos denunciados, desviando a finalidade das doações dos fiéis da Iurd, que tem direito de isenção fiscal por ser uma igreja.
Anderson Passos
Add comment 01/02/2010
Da lavagem cerebral
Outro dia minha mãe telefonou-me de Porto Alegre e relatou que meu padrasto, que é um evangélico xiita da Assembleia de Deus (por evangélicos xiitas entenda-se: cegos, loucos, doentes, iludidos, uns coitados. Parei), chegou em casa e sacramentou.
- Sandra (é o nome da minha mama), viu só o terremoto? Essas enchentes? O mundo tá acabando. O pastor pediu pra eu te salvar.
A velha, que assistia sua novelinha inocentemente, mexeu os olhos e esperou o intervalo. Ante a insistência do outro, baixou o volume da TV. O outro repetiu a cantilena.
- A gente precisa se salvar. O pastor avisou que o mundo tá acabando. Não tem volta. Jesus vai passar lá no templo e guiar a gente rumo ao paraíso do senhor.
A mama repeliu:
- Pede pra ele passar aqui e eu te entrego para ele e vocês dois vão para o paraíso em paz. Sai pra lá, homem!!!
O coitado enfim, soltou mais essa.
- Quer dizer que tu não vem? Eu vou tomar uma água e ler a bíblia. – saiu batendo o pé.
A mama – que orgulho que tenho dela – não titubeou.
- Hum, mas tá um calor. Eu vou tomar uma cerveja.
O outro mergulhou o rosto nas mãos e foi rezar com seu copinho abençoado de água da bica.
Anderson Passos
2 comments 28/01/2010
Crônica da vida em pausa
Que mundo perfeito o do congestionamento se comigo houvesse um livro. Que drama senil a moça sentada no banco à minha esquerda, do alto do seu intelecto aguçado, despeja teses cinematográficas, literárias e que, na sua incansável fala, me rouba o sono e a paciência.
Ufa, ônibus avançou meio metro. Nesse ritmo, chegar em casa deve tomar umas três horas ao invés dos 40 minutos habituais. Agora a sábia falante fala de relacionamentos. Que abençoado o sujeito que a deixou. E pobre dos ouvidos daquele que a possuir desavisadamente.
Alguma esperança: o arranca e para do coletivo o fazem ganhar generosos metros. Até quando? A tese agora se refere ao “vício jurídico da paternidade”. São Pedro, seu canalha! Onde estão os tantos raios que emanaste na 35ª tempestade em 35 dias? O desespero me vem de forma tamanha que eu não hesitaria em queimar. Afinal, que mal pode haver em ficar carbonizado se os meus tímpanos já estão escorrendo pelas minhas orelhas abaixo?
O ônibus parou de avançar como antes e a tristeza e o desencanto sufocam. A “doutora” agora vai falar da banca. Me sinto morrer. Só a tentação de pedir para o motorista abrir a porta e sair correndo me salva. Tento sonhar com isso, mas uma insistente voz “em off” narra não minhas braçadas no esgoto e sim o pânico que toma minha vizinha de coletivo ao apresentar sua tese. “O professor falou, falou, falou…” suspira a outra.
E eu me pergunto como essa moça não sente sede. Já são duas horas de trânsito e ela não parou de falar um só minuto. Queria que ela me pedisse água. Como um herói de uma chanchada psicodélica eu atiraria meu cantil mágico à água podre que, seguro por um barbante, lhe daria o que beber. Justo essa água que, num redemoinho estranho, grita para mim.
- Vem nadar, vem?
“Com que sereia?”, ouso perguntar. Acordo do devaneio com os solavancos do ônibus. A voz continua sua cantilena. Penso comigo se tirar o calçado, enrolar a meia e enfiá-la goela abaixo da minha teórica maldita não seria solução.
Tento marcar a cara da dona falante para, ao revê-la, desaparecer. Ela tem os cabelos louros, mas virada para o lado oposto ao meu e com o rosto coberto pelas madeixas, não consigo fitá-la. Aliás, será que a Nossa Senhora das Teorias Mirabolantes tem uma ideia de como solucionar essa metrópole cheia de água e carros? Não ousarei perguntar.
Anderson Passos
4 comments 27/01/2010
