Ficção (1) Final
29/05/2009
Quem está seguro? – Parte X
Queiroz não respondeu imediatamente ao que ouvira. Apenas prendeu a respiração e desligou. Já não tinha mais pressa e foi ao bar de seu apartamento, onde apanhou uma garrafa de whisky e serviu uma dose.
Em poucos minutos, o fone de Queiroz voltou a tocar e ele atendeu. Dessa vez o interlocutor confirmava que o plano havia sido um sucesso.
— Balestre já era. A sobrinha do homem ficou bem machucada, mas falei com o hospital e estou monitorando.
— Você acha que ela corre riscos?
— Ela estava com o cinto. E o bonitão ficou em cima dela e amorteceu. Esse sim se quebrou bonito.
— Posso dizer para o chefe que ela vai ficar bem?
— Pode, pode tranquilizar o homem.
— Não vai me ferrar de novo, hein ô Barata?
— Relaxa, Queiroz. Tou marcando de cima. Fica tranquilo.
Desligaram. Queiroz molhou a garganta com o whisky e, ainda com o fone nas mãos, fez outra ligação. Respirou fundo antes de falar, até que ouviu o retorno do outro lado.
— Alô, Dr. Tenório? Tenho uma boa e uma má notícia…
Com tato, Queiroz contou com cuidado do acidente que ocorrera. Mas foi gravemente interrompido.
— Minha sobrinha! — exclamou o Dr. Tenório alarmado.
— Não se preocupe, ela vai ficar bem. Estou cuidando de tudo.
— Mas e o “bonitão”?
— Não escapou.
— Mas me fala. E a menina?
— Machucada, chefe. Mas me informei com o nosso pessoal no hospital e ela não sofreu mais danos porque o pilantra estava abraçado nela na hora do impacto.
— Posso ficar tranquilo, Queiroz?
— Deve patrão.
— Amanhã cuido do seu depósito. E você desapareça, já sabe.
— Desaparecer é comigo mesmo, Dr. Tenório. — admitiu Queiroz sem modéstia.
Com a morte de Balestre, Dr. Tenório livrou-se de um peso e tanto. Há poucos meses o sujeito procurou o renomado corretor dizendo ter imagens e documentos comprometedores sugerindo que Dolores não era sua sobrinha, e sim sua amante.
Acuado, Dr. Tenório, considerado um modelo de empresário e líder de uma influente família da sociedade local, esboçou fazer uma contra-proposta para comprar o silêncio do impostor.
Mas Balestre caiu numa célebre armadilha ou pecado: a cobiça. Ao invés de pedir dinheiro e desaparecer do mapa, Balestre optou por trabalhar numa das corretoras de propriedade do Dr. Tenório. O objetivo do sacripanta era, quem sabe, descortinar mais podres e dispensar seu colega de empreitada, o ex-policial Queiroz.
Não muito mais tarde, no passo que seria decisivo, Balestre então pediria sua grana alta e, já tendo conquistado Dolores, conforme acreditava que conseguiria, seu plano era fugir com a amante do corretor.
No entanto, numa jogada de contra-espionagem, Dr. Tenório pediu tempo e tratou de empregar Balestre numa de suas empresas mais diminutas. A velha raposa ainda pediu especial atenção de Melchíades ante o novo funcionário. Em outra frente, através de um detetive particular, descobriu quem fizera as imagens e obtivera documentos que o ligavam à jovem amante.
Assim, chegou a Queiroz e a ele ofereceu uma boa quantidade de dinheiro para eliminar Balestre, fosse como fosse. Dinheiro suficiente para Queiroz deixar o país e esquecer por um tempo seu ofício de espionagem.
Anderson Passos
Entry Filed under: Ficção, Histórias. Tags: Balestre, Dolores, Dr. Tenório, espionagem, impostor, Melchíades.

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