Ando, ando, ando na São Paulo quase vazia, passado o feriado. Ora chove fino, ora mais forte.
A minha passada se alinha às músicas que tocam no I Pod. Assim, ora ela é mais rápida, ora mais lenta e reflexiva.
Higienópolis soa tão estranha com a calmaria de trânsito inacreditavelmente ordeiro e pedestres mais ainda.
Meia hora se vai e chego à Consolação esquina com a Paulista. Preciso seguir enquanto espocam flashes de uma máquina fotográfica digital, que flagra três jovens afeminados no local. Me esquivo do flash. Apresso o passo.
Sem demora me deparo com luzes falsas vindas de uma falsa casa de deus. Arranco na passada.
Logo estou em frente ao cemitério da Consolação. Meu passo parece enlutado. Mas não. É reflexivo. Prefiro as luzes que iluminam os anjos que vigiam as tumbas dali. Invejo a paz daqueles mortos. Invejo aquele silêncio.
Preciso seguir. Ando pelo meio da rua. Ando, ando e ando. Poucos minutos se vão, a noite definitivamente cai, as luzes artificiais ganham robustez e entro em casa. Não quero me ver ofuscado. Não quero que a memória das luzes me arranque o sono que me ronda agora. Entro no apartamento. O telefone não toca. Não há sequer mensagem. Não tocará nunca mais, imagino.
Que venha o silêncio. Que venham os anjos da Consolação me levar daqui.
Anderson Passos