War of brothers

Desde sempre, a minha criação rivalizou com a do meu irmão mais velho. Afinal, se ele era o primeiro da safra, eu tinha a “primazia” de ser o caçula e daí que, estranhamente, iniciou-se uma rivalidade.

A concorrência foi iniciada nos gramados fictícios do futebol de mesa, onde ele me iniciou. No entanto, enquanto os botões dele eram o dream team, com times formados por mágicos jogadores de acrílico, os meus eram de estirpe mais fajuta, de plástico, o que tornava as goleadas inevitáveis.

Quando mais tarde, finalmente, aderi aos botões de acrílico, com restos do time de ouro dele, meu irmão manteve-se à frente nas contendas já que, nos nossos confrontos, o goleiro dele era infinitamente maior do que o meu, cobrindo praticamente toda a goleira. O meu arqueiro, sem exageros, era um anão e os gols eram empilhados sem reservas. Até que um dia, com goleiro menor e tudo, ganhei dele pelo placar mínimo de 1×0. E, não fosse pelo meu pai, teria apanhado dele, que estava inconformado com a minha façanha.

Depois dessa vitória, tal como um cartola de rara estirpe, adotei estratégias para vencer mais alguns jogos e arrancar empates heróicos. Como narrávamos os jogos, com cada uma das emissoras de rádio fictícias puxando a brasa para seu assado, eu me abastecia de saladas de cebola temperadas apenas com sal, feitas pelos meus saudosos avós maternos, o que me dava um bafo troglodita e desconcentrava meu adversário. Quando, depois de fingida resistência, finalmente escovava os dentes, as vitórias ou, no mínimo um bom resultado, já estavam assegurados.

Corta para abril de 2008. Ao telefone, falei ao meu irmão dos meus planos de vir trabalhar em São Paulo, onde ele já estava residindo há 15 anos, e dele ouvi a recomendação de que não me aventurasse.

Insisti na viabilidade do plano e, quando pedi para ficar um mês na casa dele, ouvi uma negativa que me arrancou lágrimas de esguicho, diria o Nelson Rodrigues. Meu irmão argumentou que não podia me receber haja vista que a cachorra dele era ferocíssima e ia me devorar ao colocar o pé na casa dele. Me refiz daquela bobagem e vim para a cidade mesmo assim, graças à internet, onde encontrei a Camila Gaya e o resto é história, já conhecida dos meus leitores.

Como sabem, aportei aqui em maio de 2008, mas apenas em 21 de junho daquele ano, finalmente revi meu irmão, que me recebeu entre gélido e incrédulo. Logo percebi que a ilha de concreto talvez lhe gelara o coração. O saldo daquele encontro nada mais foi do que “pena”. Fui embora e não procurei mais, senão em esparsos e espaçados telefonemas.

Veio o ano de 2009 e a crise que debelou vagas no mercado de Jornalismo, nos reaproximou novamente. Mas o fato que parece ter, definitivamente, nos reunido foi a recente cirurgia que, valentemente, nossa mãe enfrentou e venceu a duríssimas penas.

Nessa oportunidade, meu irmão flagrou-se finalmente de que era mais do que imperioso voltar seu olhar para a família que, posso dizer, deixara em plano secundário, numa gaveta esquecida do caminho. Tanto assim que ele viajou para o sul e ficou com ela o quanto pude, enquanto, aqui de São Paulo, sem o mesmo desempenho financeiro de outros tempos, me restou apenas torcer pela véchia mamita, como a chamo.

E o despertar do meu irmão foi tanto que o mês de junho reserva um novo feriado e ele prepara-se para enfrentar o frio e voltar a estar com a mama, desejo que ele já me confessou, quer tornar definitivo. Em nosso mais recente encontro, apenas o segundo no meu recém completado primeiro ano de São Paulo, meu irmão se disse cansado da cidade e de sua nova certeza: fixar-se no RS e, quem sabe, ser um filho mais presente.

Me sinto humildemente responsável por essa guinada já que, em nossos raros encontros, sempre disse a ele da importância de olhar com mais zelo para o nosso povo do pólo sul. E que bom que não foi preciso usar de outros estratagemas menos nobres, como comer cebola com sal, para construir essa importante vitória.

Anderson Passos

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Um comentário sobre “War of brothers

  1. Acredito que com a sensibilidade que tu tens conseguiste mostrar para ele a importância da família. Às vezes sabemos que estamos errados e só precisamos de um empurrãozinho, alguém que nos indique um caminho. Eu sou a prova de que tu sabes fazer muito bem isso.

    Lindo texto.

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