As vitrines

Quando ainda trabalhava quase que formalmente, isto é, saindo de casa e enfrentando trânsito para chegar ao local de trabalho, um de meus prazeres era regressar a pé para casa, independentemente da distância. E assim, enquanto trabalhei na Brigadeiro Luiz Antônio, cometia a aventura de voltar a pé de lá até a Vila Madalena, o que dava uma hora e pouco de andança.

Houve dias em que fazia a aventura tanto na ida quanto na volta. Isto porque já ocorreu de eu apanhar um ônibus na avenida Rebouças, e ficar com uma das pernas para fora do coletivo de um ponto a outro. A perseguir-me, a sensação de que ela poderia ser decepada a qualquer momento.

Volto às caminhadas. Ocorre que, mais seguro do caminho, comecei a descortinar novas ruas e daí que inclui na minha rota o logradouro das boutiques, das dondocas, das grifes, talvez o endereço mais fashion da cidade, a Oscar Freire.

Era fim de tarde quando ingressei nela pela primeira vez, vindo da direção do centro. Nas vitrines via-se de tudo e este tudo não tinha preço estipulado, salvo raríssimas exceções. E, quando o preço se mostrava, era altamente proibitivo. Logo, adentrar numa loja dessas era um desafio e tanto.

Em seguida, a luz do dia daquela minha primeira passada por lá se fora. Nisso, estava em frente a uma relojoaria e não havia nenhum produto na vitrine. Soube pelos jornais que, dias antes, ela fora roubada por homens bem vestidos, que fugiram a pé.

Em seguida, cruzei por uma loja de uma dessas grifes espetaculares, marca que o sujeito não acha fácil em qualquer lugar. Lembro que eu levava comigo meu inseparável IPod e este tocava, justa e brilhantemente, As Vitrines, do Chico Buarque.

Cheguei mais perto da vidraça, senti o cheiro de perfume importado que ela exalava e arrisquei, apenas arrisquei, olhar para dentro da loja. Como eu não tinha um rosto bonito ou não estava vestido nos padrões, fui olhado pelos vendedores de alto a baixo, com extremado desdém. E eu achando que meu IPod poderia me salvar… O olhar daqueles jovens e esbeltos vendedores indicava a porta de saída daquele mundo. Parecia dizer “vai saindo que você não é chique. E eu vou chamar a segurança”. Saí, como indicado.

Ainda voltei à Oscar Freire por algumas vezes em minhas caminhadas. Nunca para comprar. E, com algum esforço, talvez até conseguisse, se o termo “parcelamento” não fosse uma palavra ofensiva naquele lugar.

O fato é que indo até lá, repetidas vezes, talvez eu estivesse mesmo procurando a magia tão falada do endereço. Mas não encontrei. E acho até que desisti de procurar.

A Oscar Freire, com suas lojas nababescas, vitrines perfumadas, vendedores saídos das passarelas é só uma rua como as outras, mas que pensa carregar consigo um pedaço da Europa, quem sabe um rei na barriga, uma nobreza estranha de espírito. Esquecendo talvez que está encravada em pleno terceiro mundo.

Anderson Passos

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