Tragédia paulistana

Fulana apareceu do nada aqui em casa. Fulana é namorada — mais uma — da Paloma. Fulana não tem mais de 24 anos, mas tem intimidade com cocaína e tenta aplacá-la desde o começo do relacionamento. Está longe do pó há pouco mais de um mês. Mas, de repente, seu rosto se enrijece, a boca parece mastigar algo imaginário. Breve a abstinência vai cobrar seu preço.

Fulana contou, sem muito cuidado e senso de preservação, que quando criança, por anos que não sei precisar — tamanho o impacto da revelação — foi abusada pelo padrasto.

Um belo dia e Fulana revoltou-se. Fugiu da casa materna e foi morar com o pai numa favela do Morumbi. A vida continuou severa. Mas ela parece acrobata de circo. Daquelas que faz perigosas manobras nas alturas, sem uma rede para lhe segurar lá embaixo. A rede é ela mesma.

Prova disso é que, há uns quatro anos, um amigo homossexual chegou nela confessando que tinha muita vontade de ter um filho. Ela, lésbica nessas alturas, achou a ideia apetecível. A criança nasceu. E Fulana, de peito aberto e toda orgulhosa, diz que sua filha é uma “produção independente planejada”.

Outro dia, Fulana, depois de muitos anos distante, reencontrou a mãe na rua e foi direta ao ponto.

— Tenho algumas coisas para contar: sou lésbica, tenho uma filha e ****** (o padrasto) me estuprou durante anos.

Virou as costas e partiu enquanto a mãe, desconcertada por certo, quase teve um mal súbito na rua.

Fulana, não raro, parece encarnar a idade mental da filha. Num sábado recente, para minha revolta, a menina estava completando mais um ano de vida. Fulana, havia quatro dias, não saía aqui de casa. No mesmo sábado, ela, Paloma e amigas em comum saíram aqui de casa e foram para um bar encharcar a cara de cerveja. A filha da Fulana, que merecia bolo, amiguinhos em casa, festinha, música, estava só com o avô. Talvez à espera da mãe que bebia.

No bar, precisou que Paloma, uma criatura que de madura está ainda distante, se revoltasse ao saber do aniversário da filha da namorada e ordenasse que, enfim, Fulana partisse. Foi-se embora emburrada. Logo Paloma brincando de adulta. Vida louca.

Fulana quer porque quer saber o endereço deste blog. E eu estou me empenhando para descobrir em que beco do Morumbi ela se esconde, quando não está aqui em casa.

Enquanto ela se preocupa com minhas palavras, estou preocupado com o comportamento de Fulana ante a filha. Um caso digno para o Conselho Tutelar, quiçá para as câmeras de TV.

Breve Fulana vai reaparecer aqui em casa e não sei com quem cara — senão a de asco — vou olhar para ela. Essa história eu bem que gostaria que pertencesse a um dos meus arroubos de criatividade mórbida. Mas, infelizmente, não é o caso.

Anderson Passos

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Um comentário sobre “Tragédia paulistana

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