Inverno: uma mazela infernal

Familiarizado, e ainda horrorizado com o inverno do sul, dei graças quando cheguei a São Paulo. Afinal, ano após ano, o script do inverno pampeiro não admitia que eu não ficasse à beira da morte pelo menos uma vez a cada inverno, por conta de gripes cavalares.

Daí que, chegando a São Paulo, pude experimentar a sensação de, apesar do ar poluído, não precisar andar na rua ou dentro de casa com pesados agasalhos. No passeio público, a cena era até engraçada. Embora o povo se encasacasse dos pés à cabeça, eu andava faceira e ordeiramente com calção, chinelos e camiseta, enquanto a coletividade me via entre espantada e se beliscando. E, se em algum momento eu já era atração pelo sotaque gaudério que tinha – hoje não tenho mais –, passei a ser visto quase como um ET inexpugnável ao frio.

A sensação que experimentei foi equivalente a que me foi emprestada pelo meu colega jornalista Gabriel Izidoro, que uma vez me recebeu em Caxias do Sul de shorts e camiseta, quando fazia na cidade em torno de 0º, se muito. Para ele, que a partir de então ganhou o justo apelido de Vicking, nada anormal. Para mim, um escândalo.

No entanto, tudo o que festejei no ano passado em relação ao inverno me vejo em vias de retirar este ano. Afinal, o inverno 2009 deu as caras na Paulicéia com temperaturas em torno de 7º C à noite e tão somente 10º C ao dia, o que, para um friorento como eu, trata-se de uma hecatombe descomunal.

E claro que, com tudo isso, já fui apanhado pela gripe – doença para a qual em 2008 não fui apresentado – e assim ainda me encontro. Só em 2009, o maledeto espirra-espirra me passou a perna em três oportunidades. E tudo isso me põe os nervos em frangalhos.

Sou da opinião que gostar de frio é uma tremenda e dantesca estupidez. Tenho para mim que passar frio talvez não supere apenas dores maiores como a falta do que comer ou beber.

É no rigor do inverno que me sinto um cadáver. A diferença reside no fato eu poder respirar. E mal. No mais, tudo é trágico: mãos e pés congelam automaticamente, vírus de gripe trocam farpas, socos e pontapés a disputar meu já detonado organismo.

Definitivamente, o inverno e seus dissabores todos não deveriam sequer existir. E me admira que possa haver gente que pega um avião ou horas de estrada ou fazem o diabo a quatro para, devidamente empacotados por toucas, grossos casacos e cachecóis, fazer guerrinha de neve – isso quando há de fato neve – nos picos gelados brasileiros.

Anderson Passos

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