Ciumeira graúda

Já contei aqui neste blog que as crises de ciúme da namorada da Camila Gaya são titânicas, de fazer inveja a muito sujeito homem, já diria o Darlan Cunha em Cidade de Deus. Mas devo ser justo. Por enquanto, a paz é reinante, mas comemorar o fato não me atrevo.

Falemos do título ou de como experimentei os ciúmes da já referida moça, que aqui já figurou com a cabeça mergulhada num balde após um porre causado por um mísero copo com batida de frutas e vodka.

Num sábado desses, Camila chegou do trabalho deprimida, sem dar boa noite e foi direto pro banho. Por óbvio, notei que minhas faculdades de terapeuta teriam de ser utilizadas uma vez mais. Daí que, na saída do banho, ainda se penteando e já com um cigarro aceso e uma lata de cerveja à mão, Camila disse-me que estava solteira e que tínhamos de sair.

Expliquei que estava mal de grana e, depois de muito “vai não vai”, combinamos de ir na Padroga, na esquina de casa. O lugar é chamado carinhosamente assim pelo óbvio. Traficantes fazem ponto ali para fazer o seu comércio.

Chegando à padaria, ficamos à uma mesa na rua onde Camila bebia sua cervejinha e fumava seu cigarro enquanto eu bebericava calmamente uma latinha de refrigerante. Lá estávamos havia uns dez minutos quando a então ex chegou, com cara de psicótica, dando socos na mesa e enfiando o dedo no rosto da minha colega de mesa.

E, dado que a outra gritava, e Camila ria graciosamente de toda a cena, enquanto eu tentava me refazer, o povo começou a juntar em torno de nós para conferir a barracofest. Minha primeira reação foi tentar parecer impassível. Afinal, eu não era pivô de coisa nenhuma. Estava acompanhando uma amiga, como sempre fizera. No entanto, os socos e a atitude masculina da outra progressivamente começaram a me deixar nervoso.

Como o legítimo homem à mesa era este seu criado, me preparei para agir, caso a cena continuasse. De repente, ainda com uma calma exemplar, Camila pediu para a outra se controlar. Era a deixa que eu precisava e aproveitei o ensejo e puxei uma cadeira e disse para cidadã sentar nela ou, se quisesse, que fosse para o apartamento e nos esperasse.

A ciumenta em questão sentou em prantos, xingou Camila de “falsa” e otras cositas más e cobrou que Camila tinha que “assumir” alguma coisa, mas não disse o que era. E eu imaginei que a criaturinha queria selar a retomada do relacionamento ali mesmo, na padoca, com uma garçonete e eu de testemunhas e o povo ali presente de platéia.

Mas este seu amigo, tal como um diplomata da ONU em plena guerra entre palestinos e judeus, me virei nos 30 e pedi para a Camila se apressar com a cerveja e que fôssemos para casa de pronto. Ela atendeu a meu pedido e detonou sua brejinha e fomos embora dali. Na rua, Camila permaneceu ao meu lado assustadíssima, donde, antes de atravessarmos a via e voltarmos para o nosso prédio, deixei avisos.

— Ficarei junto à gaveta da cozinha para preservar as facas, enquanto as duas se entendem ou se xingam, combinado? Podem virar a casa de perna pro ar. Mas, lembrem de que eu passei o sábado arrumando aquela zona. Aviso dois: se entrarem no meu quarto, eu entro na briga valendo e bato nas duas.

Passadas as regras do combate, subimos no mesmo elevador sob um clima de tensão bacaninha. Como tinha um restinho de louça, fiquei ali fazendo sala e ambas entraram no quarto e começou um homérico bate-boca.

A seguir, terminei a louça e liguei a TV e, após uma hora do embate, o clima pareceu ter ficado ameno. Fiquei mais um pouco com TV ligada, onde acompanhei uma reportagem da Band sobre o sanduíche de pernil do Bar do Estadão e fui para a cama, já sob silêncio absoluto no quarto vizinho.

Já na manhã seguinte, tudo em paz. A ciumenta bateu à minha porta, me pediu desculpas pela cena dantesca da noite anterior e eu fiquei com cara de “bah, tchê, que mina louca” e almoçamos juntos como se nada de anormal tivesse acontecido.

Depois desses episódios espetaculares, o saldo é de duas certezas cristalinas na cabeça: não meto mais o bedelho em briga de mulher com mulher, Marisaaaaaaaaaaaaaa. E dois. vou dar um tempo da padoca.

Anderson Passos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s