Ainda o diploma: muito barulho por nada

Agora que o diploma de Jornalismo nada mais é do que um papel esquecido na gaveta ou uma folha com moldura que remete – a quem estudou – à época das aulas e de alguma farra das carteiras universitárias, ecoam aqui e acolá protestos contra a decisão do Supremo Tribunal Federal, que cassou, por ampla maioria de votos (8×1), a obrigatoriedade do diploma para o exercício da função.

Penso que o protesto pode ter lá sua validade em termos de mobilização, mas como registram bem alguns menos belicosos dirigentes sindicais, ele vem tardiamente. Afinal, vamos e venhamos, nossa categoria não é unida e, em tempos de crise, o caldo entornou ainda mais. O mercado encolheu e a quem seja obrigado a aceitar reduções de salário para permanecer empregado.  E o “pega pra capar”, ao contrário do que sugere aquele quadro do Faustão, é iminente a cada 15 segundos.

Por outro lado, a manifestação me parece improdutiva, pois, além de tardia, se volta contra uma decisão do STF que, como deveria se saber, não é passível de reversão. Ok, talvez o popular ministro Joaquim Barbosa – que deveria estar ouvindo as ruas ou tomando um cafezinho ou se tratando da coluna e que não se fez presente à sessão – fosse mais um voto favorável aos jornalistas. Afinal, está comprovado, dito por ele mesmo, que o eco das ruas sim deve ser considerado nos julgamentos superiores. É um modo de pensar, mas se essa perspectiva fosse seguida à risca, teríamos facilmente a pena de morte instaurada no Brasil, não?!

Mas não tergiversemos. Volto ao Jornalismo, que cursei por dez anos e, embora tenha ferrenhas críticas à universidade onde estudei – tenho orgulho de tê-lo feito. O que parece não estar claro na cabeça dos novos e tardios “caras pintadas” é que a decisão do Supremo não invalida o diploma. Ela tão somente ratifica uma realidade hoje já existente no mercado, isto é, que jornalistas não formados, mas com alguma intimidade com a escrita e a gramática, possam exercê-lo sem prejuízos.

Eu preferiria não usar fantoches, mas façamos o uso, ao menos para ficar ainda mais claro: alguém em sã consciência admite que o médico Dráuzio Varela, por exemplo, não tem capacidade para fazer uma série de reportagens sobre transplantes de órgãos com o mesmo brilho ou até com mais propriedade do que um jornalista com formação? Sendo otimista, pode até haver jornalistas capacitados, mas duvido que eles recém tenham saído de uma faculdade de Jornalismo, por exemplo. Porque aí é que está um dos grandes problemas: as faculdades de Jornalismo estão longe, muito longe da realidade das redações.

O que profissionais, estudantes, universidades e sindicatos devem atentar não é por fazer do ministro Gilmar Mendes uma “persona non grata” ao Jornalismo ou aos jornalistas. Além desse estratagema ser de um maniqueísmo simplista, cumpre lembrar que, com Mendes, outros sete ministros da Corte apoiaram o fim da obrigatoriedade do diploma pelas razões já expostas.

Assim, a luta – se existe – é pontualmente esta: fiscalizar e qualificar o ensino universitário de Jornalismo e pressionar parlamentares na Câmara e no Senado com vistas a elaborar um projeto de lei que estipule ou resgate, entre outros termos, o valor (não a obrigatoriedade) do diploma para o exercício da profissão.

Anderson Passos

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