Elvis Negro

Michael Jackson e um de seus bichos de estimação

Michael Jackson e um de seus bichos de "estimação"

Em 16 de agosto de 1977, eu estava no táxi que meu pai dirigia e lembro dele parar numa avenida movimentada, próxima à nossa casa, para perguntar o que tinha sido do homem que ele socorrera antes de me apanhar para uma carona, o que ele sempre fazia. Lembro que uma mulher informou que nada sabia, mas que o sujeito estava em maus bocados.

Levemente aliviado, meu pai ligou o rádio e uma música de Elvis Presley, cujo título é Silvia, nos embalava. Até que o locutor deu a notícia de que o Rei havia morrido em sua casa. Meu velho chorava como criança ao volante. Como me assustei, ele me levou para casa. E toda vez que ouço Silvia, me remeto automaticamente àquele dia.

Salto agora para o começo dos anos 80. Eu devia estar então com pouco mais de dez anos e era invejado certamente pelo meu irmão mais velho, Everson Passos, já entrado na adolescência. Invejado por ser o caçula e porque ganhava os melhores brinquedos.

Mas me feriu de morte o fato de o meu irmão ter ampla liberdade para tomar para si a velha eletrola do meu avô. E nela, ele executava, dia e noite, um disco de um tal Michael Jackson. Como havia o fato de eu ter, ao menos, um rádio de pilha, o meu contragolpe se dava nessa esfera. No entanto, o preocupante é que só tocava um disco, um único astro: o mesmo Michael Jackson.

Daí que, lembrando de uns anos antes, quando Elvis tocou sem parar no rádio, questionei meu irmão sobre aquele cara dizendo enfaticamente.

— Esse cara só tá tocando tanto no rádio porque tá morto.

Impaciente, meu irmão me xingou e depois mostrou-me, todo orgulhoso, o disco Thrilher, o álbum mais vendido da história, e me surpreendeu um encarte do LP, onde o astro posava para uma foto ao lado de um tigre, que meu irmão, prazerosamente, dizia pertencer ao músico.

Veio a seguir a era do hino We Are The Word, composto pelo cantor e registrado no álbum USA For Africa, cujos lucros das vendas foram, ou teriam sido, destinados às vítimas da fome na Etiópia. Mesmo na escola, a professora de religião, traduziu a letra da referida canção e fez com que a entoássemos em aula.

Lembro que nessa época, uma grande amiga de infância, a Ana Paula, que morava ao lado da minha casa e que me acompanhava todo dia no trajeto de ida e volta do colégio, invadiu minha casa, foi ao guia telefônico e de lá catou o contato de rádio Continental AM, mas que executava músicas à la FM. E ela discava sem parar para a rádio pedindo o hino.

É assim que prefiro lembrar do Michael Jackson, que morreu nesta quinta (25/6). Do menino que saiu dos desenhos dos Jackson Five para brilhar com o disco Off The Wall e depois, com o megasucesso Thrilher. Do Michael Jackson negro, com nariz de batata e cabelo black power, capaz de entoar números como I’ll be there, Ben, Don’t Stop ‘Till You Get Enough e, novamente, Thriller e todos os seus clássicos.

Com sua morte, Michael Jackson passa à história com o status de Rei, mas talvez com a majestade um tanto manchada pelos últimos anos de endividamento, processos judiciais e transformações. Bem, com Elvis não foi muito diferente. Daí que não é exagero chamá-lo de Elvis Negro.

Anderson Passos

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2 comentários sobre “Elvis Negro

  1. Melhor é acreditar que, parafraseando o destino de Elvis bem ensaiado em Homens de Preto, o Jacko não morreu. Ele só foi para casa.

    Mas muitos de seus clones paraguaios continuam abrilhantando os karaokês desta dimensão.

    Que assim seja para sempre.

  2. Também prefiro lembrar do Michael Jackson negro, com nariz de batata e cabelo black power. Um garoto com olhos de tristeza e uma voz maravilhosa. Antes dele morrer, li algo sobre o século XXI se resumir em “Michael Jackson”. O texto dizia que quando ele é ridicularizado, rimos da nossa geração e de nós mesmos… É bem isso.

    A foto é maravilhosa.
    Parabéns pelo texto.

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