Censurado

Reproduzo abaixo um texto oferecido — e rejeitado — em uma de minhas frentes de trabalho dada, talvez, a minha ênfase no politicamente incorreto.

Mercado de trabalho

Telemarketing: a alternativa em meio ao caos que exige paciência e sorte

Uma tarde numa dinâmica de grupo de uma empresa de telemarketing paulista expõe as agruras de quem está fora do mercado de trabalho na maior cidade da América Latina

Em meio a um mercado de trabalho rodeado pela tormenta da crise mundial, que tem colocado milhares de pessoas na dura concorrência por uma ocupação, em escala nunca antes vista no Brasil e no mundo, uma esperança em verde e amarelo surge no caminho de milhares de desempregados da Capital paulista e proximidades: o telemarketing.

O trabalho, aparentemente, é simples: ficar seis horas e vinte minutos ao telefone ouvindo as mais ásperas queixas de clientes de operadoras de celular, serviços bancários e afins. “Basta ter jogo de cintura”, simplifica uma candidata na enorme fila dentro de um escritório localizado nas imediações da Avenida Paulista. O local da seleção é um sobrado de dois pisos e está tomado por mais de uma centena de pessoas desesperadas para conseguir um trabalho.

A reportagem enfrentou essa fila. Mas antes de desembarcar nela, ingressou em duas outras para se informar sobre onde ocorria a seleção. Perdemos meia hora nesse interim. Ao chegar ao local, com 50 minutos de antecedência, ouvimos da menina que passa uma ficha de cadastro que as vagas são inúmeras. Apenas quatro pessoas estavam à nossa frente quando chegamos. No entanto, os corredores estavam apinhados e o ar-condicionado desligado.

A seleção dos profissionais é tarefa titânica. Prova cabal disso foi o processo seletivo a que nos candidatamos. A vaga era para atendente de telemarketing numa empresa terceirizada, que tinha como cliente uma das gigantes da telefonia celular. No local da seletiva, muito calor, copos plásticos e galões de água de menos. E gente demais.

Depois de nosso ingresso ali, a fila multiplica-se espantosamente. Enquanto este repórter tenta se distrair lendo um livro, aos gritos, a menina que recepciona a turba berra que não é preciso preencher as fichas entregues por ela imediatamente. Mesmo assim, me adianto e, com a papelada apoiada na mão, saio a escrever.

Depois dos dados pessoais, vem o teste de língua portuguesa pouco exigente: “Assinale a palavra escrita incorretamente: rezistro, pobrema, solução” é uma das perguntas. A seguir, o teste de matemática com as quatro operações de praxe. Logo após, vem uma prova de noções muito básicas de informática. Por fim, o teste propõe que o candidato faça uma redação de dez linhas sobre como solucionar conflitos numa era de intolerância.

De repente, alguém da empresa selecionadora, em altos brados, pergunta quem dentre a turba já adiantou o preenchimento do formulário. É quando todos nos flagramos de que ele precisa ser preenchido antes de sermos chamados à etapa seguinte. Eu e alguns outros estávamos adiantados. Uma senhora, ao meu lado, mais ainda: tinha em mãos uma calculadora com a qual fazia o teste aritmético. Achei um ultraje, confesso. Mesmo assim fiz as operações rascunhando as fórmulas no verso de uma das folhas do teste.

A seguir, com a papelada preenchida à mão, eu e mais 25 ou 30 pessoas, calculo, nos preparamos para ingressar em outra sala menor – também sem ar-condicionado – para a “dinâmica de grupo”. É aí que o Big Brother da vida real toma contornos dramáticos e hilários.

Antes que o psicólogo que vai conduzir os trabalhos, uma jovem de 22 anos, negra, cabelo alisado forçosamente, tem consigo dois filhos pequenos. Não precisa a idade deles. Lembro que um deles se chamava Reginaldo. “Trouxe eles para mostrar pra empresa que eles são saudáveis e que eu não vou faltar serviço por causa de tiricotico deles”, explica.

Ela mora em Guarulhos. São dois ônibus e uma baldeação de metrô para chegar ao trabalho. Pergunto mais da vida dela que, sem rodeios, me diz ter sido trocada por “uma de 16” e que precisa alimentar
as crianças.

Em seguida, ela se despede das crianças e pede que elas a aguardem na sala principal, junto a dezenas de estranhos, enquanto sua mãe ia tentar a sorte. Depois de meia hora, a dinâmica começa conduzida por um estudante de Psicologia.

A jovem mãe repete sua história. O calor e agora o constrangimento com as necessidades da mulher contaminam o ar. Eu me pergunto como, com tanta informação, uma jovem bota dois meninos no mundo como essa moça.

Mais tarde, uma outra mulher, claramente homossexual, dispara para o estudante de Psicologia. “Cara, tou aqui porque fiz uma cagada na minha vida. Fui inventar de abrir uma locadora de vídeos e a pirataria me f*#%¨”, exatamente nesses termos, para espanto de todos.

As horas avançam. Todos os presentes têm de se vender nesse momento. Um outro sujeito, com tiques homossexuais, conta sua experiência e mostra o que viveu em trabalhos anteriores, similares à vaga a qual está se candidatando. Penso comigo que ele já está dentro. É, seguramente, o mais preparado da sala.

Um outro sujeito, obeso, afirma que não tem experiência na área. Diz que trabalha numa padaria e que sua relação com o cliente é “olho no olho”. Ele reconhece, para meu desespero, que com ele não tem conversa. Confessa que se irrita sem fazer força. O selecionador ainda o questiona para se certificar de que ouviu bem. O outro confirma.

Chega a minha vez e digo que sou jornalista. Um rumor digno de espectadores de tênis numa jogada de mestre se estabelece. Digo que quero mudar de ramo e mais nada. Todos me olham com clara censura.

Vem a etapa final da dinâmica: o estagiário em Psicologia propõe que o convençamos de que Deus existe. Uma evangélica de longas e fedidas madeixas fala que “Jeová nos ensinou…”. Todos ponderam que o homem está por aí. Eu não abro a boca para nada, senão no final e para dizer justamente isso: que estou com a tese do estagiário ou que, como ele. não acredito no “criador”. O outro se espanta. E, terminada a dinâmica, faz-se uma pausa de dez minutos.

Todos deixamos a sala. A mulher que deixara os filhos na sala maior os abraça. Outros, a maioria talvez, enviam torpedos e telefonam aos familiares contando de sua performance e da sua expectativa para a espera final. Em dez minutos, um a um é chamado para o veredicto.

O estudante de Psicologia me chama primeiro. Me comunica que fui eliminado porque não soube me “vender”. Respondi a ele que se falasse de jornalismo naquela sala, provavelmente seria assassinado a cadeiradas. Nos despedimos.

Apenas dois daquele grupo imenso passaram adiante, mas ainda sujeitos a testes práticos de informática e treinamentos intensivos. A mãe de dois filhos trocada por uma jovem de 16 anos e a senhora com calculadora ficaram pelo caminho.

Anderson Passos

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