O drama de Pascoal

Dada a indiferença dos psicólogos que adotam a metodologia freudiana, onde despejam o paciente num divã e ouve o sujeito em minutos contados, o brasileiro, com a crise mundial, faz do limão uma limonada. Assim, na ausência do qualificado psicólogo, o brasileiro surra o ouvido do taxista ou do barbeiro. Eu sou um brasileiro. Logo… Quem sofre é o Ivan, o sujeito que me apara as “crinas”.

O Ivan vive de cara fechada, mas é um boa praça inconteste. Na época em que eu trabalhava na Brigadeiro Luiz Antônio, perto do centro da cidade, eu lhe contava de minhas vindas a pé para casa, o que o deixava admirado pela minha resistência.

Sobre as minhas andanças, eu argumentava para o Ivan que a humilhação era tamanha nos ônibus e no metrô dessa cidade, que optei corajosamente pelas caminhadas. Com a minha era de falta de lavoro, as minhas visitas e confissões ao Ivan ficaram mais espaçadas.

Voltei lá nesta terça-feira (14/7). Adentrei o salão onde trabalha o Ivan, mas, sem antes ter ligado para agendar o corte de cabelo, tive que esperar. E aí chegamos ao título deste escrito.
Acontece que entrou ali o Pascoal, um senhor entrado nos 60 anos. Fumava cachimbo e minha identificação com ele foi instantânea, pois remeteu-me ao meu padrinho, este com 80 anos bem vividos e que dava suas cachimbadas elegantes por aí.

De repente, o animado colega do Ivan, a quem chamo de Araken, perguntou ao recém chegado:

— Gosta de mulher, Pascoal?

Resposta dele.

— Gosto da mulher dos outros.

E o Araken passou às mãos do bom senhor a Playboy da Garota Melancia. Ao que o outro soltou a pérola sobre as nádegas da moça.

— Pra entrar aqui, só com retroescavadeira.

Caímos todos no riso. De repente, uma mulher que passava à rua chamou o Araken. Este ficou fora uns minutos e voltou a seguir, dizendo que ia passear com ela. Detalhe: Araken e seu par são casados. E ele ainda brincou.

— É isso que salva a relação.

De repente, Pascoal mergulhou numa expressão cava, diria o meu cronista favorito, Nelson Rodrigues. E pediu licença para contar o drama de sua esposa. A mulher passara um ano se tratando de um câncer com pesada quimioterapia. Há alguns meses, a esperança: conseguiram um doador de medula óssea e fez-se o procedimento.

Para visitá-la, o velho Pascoal e a filha do casal tinham que se proteger com roupas cirúrgicas, máscaras, toucas e um grande aparato para evitar contaminação pelos fármacos pesados. A mulher do Pascoal acabou não resistindo, vitimada por um derrame cerebral que a fez agonizar por mais cinco dias.
Todos, inclusive eu, fechamos o cenho ao ouvir a história, como a demonstrar luto pela tragédia contada pelo Pascoal. Mas a confissão que mais doeu foi quando o bom senhor contou que conhecera a mulher há 44 anos. Mas que a insistente lembrança que trazia dela era a do sofrimento causado pela doença que a dizimou.

— O pior é chegar em casa e ela não está lá. Você tem que segurar a si mesmo e à filha. E o mais terrível é que eu conheci ela quando tinha 22 anos. E eu simplesmente não consigo lembrar daquele tempo. – crispou-se.

Encerramos a conversa com uma estranha sensação: primeiro, uma maravilhosa provocada pelo “bate pronto” do Pascoal sobre os atributos da mulher fruta. Depois, imperou o peso da tristeza vencendo qualquer rastro de otimismo. Peso este aqui impresso em homenagem ao bom Pascoal e à senhora dele.

Anderson Passos

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Um comentário sobre “O drama de Pascoal

  1. ‘retroescavadeira pra entrar’..
    como homem pode ser tão nojento qdo tem outro ao lado pra papear. Esse nao deve pegar nem gripe…qdo menos mulher…quiçá a dos outros..e melancia? nem em sonho

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