Quase Bukowski

Quando mais jovem, nos sábados à tarde, eu liderava um grupo de amigos para beberragens de chopp no Shopping Praia de Belas. Era assim: o relógio batia 16h e já nos movimentávamos para apanhar um ônibus que nos levasse ao nosso destino e iniciar a bebedeira.

O objetivo era abastecer o fígado com pelos menos dois litros do produto, fazer a cabeça e planejar o que viria a ser a noite. Muitas vezes, ficava pronto já neste turno, dada a velocidade alucinada com que devorava os copos de 500ml.

Mas houve dias em que sobrevivi e encarei a estica noturna. Numa dessas célebres noites, fomos eu e uns amigos (se bem lembro eram Márcio Barbosa, o Jequinha e o Guima, com sua beca de empresário chileno) a uma espelunca chamada Best Bier. Do local, basta dizer que de “best” pouco tinha.

Ocorre que, como tínhamos convites, conseguíamos com eles descontos especiais na consumação.

Nessa noite, sem enxergar quase nada, ao menos da minha parte, entramos no lugar. Percebendo que o mesmo não enchia, o Márcio Barbosa ordenou.

– Vamos para o Lei Cueca.

Assim chamávamos o Lei Seca, pelo óbvio: tinha muito mais sujeito peludo do que mulher. Mesmo assim, resolvemos seguir a pé até o lugar.

Então o Barbosa pediu uma pausa e, atrás de um arbusto, pôs o dedo na garganta e expeliu (ele diria ‘esbeliu’) o monte de chopp que lhe ameaçava as passadas e a consciência.

Impactado com a cena, tentei seguir em frente. De repente, senti que meus pés ficaram presos ao chão e suspeitei que o porre tinha me abraçado.

– Iupi, chegou meu derrame cerebral! – eu pensava comigo.

Enquanto meu espírito comemorava, mas meus amigos riam atropeladamente. Ocorre que eu passara num trecho de calçada em obras e mergulhara os dois pés na lama.

E, como eu estava bem baleado, mal tive forças para sair dali enquanto eles seguiam adelante. Ainda ousei entrar na birosca com os sapatos cheios de lama, para desespero dos seguranças e vergonha dos meus amigos que não cansavam de me apontar os pés enlameados.

Não fiquei 20 minutos dentro do Lei Cueca. Saí do lugar, subi a Coronel Bordini, passei embaixo de um prédio. Numa janela baixa, lindas meninas e outros malucos pareciam fazer uma festinha muito mais atraente.

Fui convidado a subir e não hesitei. Flagrei ali bandeijas de prata, quantidades nababescas de “maizena proibidona”, e fiquei numa dose de whisky.

Deixei o lugar com um copo plástico cheio de whisky e gelo. Com o combustível tornei a andar e fui parar apenas em casa, no então distante Partenon.

Essa foi apenas uma das minhas epopéias. Termo que fazia o olhar do Nêgo Márcio brilhar. Tanto é que, das outras festas que fizemos, a primeira pergunta dele passou a ser.

– E aí “homizinho”? Epopéia?

Sim, eu sempre tinha “epopéias” para contar.

Anderson Passos

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Um comentário sobre “Quase Bukowski

  1. Essa foi espetacular…mas era eu que estava junto…
    Foi uma epopéia e tanto…mas nada comparada a outras que adelante tu deve contar…
    Grande abraço

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