Não me faz te pegar ódio

Quando você não depende de ônibus, a cidade de São Paulo ainda pode ser considerada um lugar viável para viver. No entanto, há quase dois meses, passei a lavorar na zona sul da cidade e a depender de tal meio de transporte. E, de pouco em pouco, tudo foi ficando infernal.

Primeiro é aquela luta para o sujeito se informar e conseguir acessar o ônibus certo para chegar e voltar do trabalho. Já contei aqui mesmo do dia em que embarquei num coletivo e fui parar no estádio do Morumbi, léguas mil de distância do meu plano inicial.

De dois meses para cá já houve noites em que me prolonguei no jornal e fiquei mais de uma hora esperando o maldito buzão.

– Ok, relevemos… – ponderei comigo mesmo – Nem é horário de pico. Esse espaçamento de horário é normal.

Mas sempre vem a gota d’água e a minha veio na última sexta-feira (25/9). Saí pouco antes das 18h do trabalho, na já referida zona sul, para ir ao dentista na zona oeste, bem perto da minha morada.

E, uma vez mais, em pleno horário de pico desta feita, amarguei 62 minutos de espera no ponto do ônibus. Passado todo esse tempo, o meu sonho terno de infância passou a ser apanhar o coletivo, tomar a direção e arrastar amarrados a uma corda o dono da empresa, o secretário municipal de transportes e o prefeito dessa cidade e suas famílias, tamanho era o ódio de que fui tomado.

Bem, tenho formação superior – embora hoje em dia meu diploma valha ainda menos do que já valeu. O que quero dizer é que não sou nenhum ignorante, boçal, selvagem, etc, ainda que meu discurso seja, no mínimo, ferrenho.

Agora imagine o cidadão comum que é tão vilipendiado no transporte público dessa cidade quanto eu. Lembremos do sujeito que amarga longas esperas em pontos que, muitas vezes, nada mais são do que um poste de madeira sem cobertura. Imagine adormecer prensado às portas e janelas, como a própria TV Globo paulista flagrou dia desses.
E aquela gente toda que é esmagada nos corredores. Esmagamento erroneamente comparado ao das sardinhas, que tem generoso espaço em suas latas se comparado a um coletivo. Imagine que “sonhos” essas pessoas guardam para os governantes?

Nessas horas a democracia se transforma numa novela quixotesca porque só em 2012, nas eleições municipais, o recado poderá advir das ruas, isso se a memória permitir.

Anderson Passos

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