Testando todos os limites

São Paulo é uma cidade que é capaz de testar e zombar da sua cara sem nenhum pudor. Ontem (17/11) vivi a situação na carne.

Ocorre que um trabalho que eu faria nas proximidades aqui de casa acabou adiado e me vi, perto do meio dia, num ponto de ônibus para ir ao jornal. Atenção para o horário: 11h50min.

Como o ônibus demorasse uns 20 minutos iniciais, me perguntei se era feriado na cidade com certa ironia. Percebam, era terça-feira, dia útil. Ou útil para mim mesmo, não para aqueles que se dizem administradores do sistema de Transportes dessa cidade.

A prova disso é que, passados 30 minutos, liguei no atendimento da prefeitura disposto a queixar-me e a amaldiçoar o prefeito e o secretário em particular. Se eles cruzassem à minha frente naquele minuto, eu utilizaria um lança-chamas sem nenhum pejo.

O atendimento telefônico inicial até que não demorou. Mas o resultado da conversa só me deixou mais frustrado.

– Telefone e nome para registrarmos, senhor.

Passei os dados com paciência e depois atalhei.

– Cadê o ônibus? Tou a 30 minutos refém do maldito. O sol está expondo meus miolos.

– Qual o nome da linha, senhor?

– Berrini!

– Qual o número da linha, senhor?

– Aí você forçou. E eu lá vou saber o número da linha? Faz a busca no sistema. BER RI NI!, repeti pausadamente.

– Senhor, não tem como.

– Moça, é o seguinte: estou a 40 minutos aqui e o maldito não vem. Eu vou me atrasar e vou ser demitido. Se isso acontecer eu vou reclamar pro bispo?

– Er…

– Me diz o horário que ele[o ônibus] saiu do ponto, por favor.

– Senhor, o sistema só me dá o primeiro e o último horário das linhas, senhor.

Bufando, asseverei.

– Então eu sou refém do horário do almoço do motorista, é isso? Quer dizer, agora ele tá almoçando. E se ele pedir sobremesa, como eu fico? E se na saída da birosca, ele flertar com uma moça e convidá-la para passear? Como é que faz? Quem fiscaliza? Que sistema de merda é esse?

– Se…

– Moça, se eu me atrasar e for demitido, eu vou acionar o município, você não me dá outra alternativa. Tá gravando essa conversa?

– Sssim…

Passada 1h me bronzeando forçosamente, apanhei um coletivo qualquer e fiz uma odiosa baldeação. Por sorte, o atraso não foi expressivo.

Ao chegar no trabalho relatei minha epopéia e minha editora ficou escandalizada com minha demora e confortou-me. Para sorte do prefeito e do secretário de Transportes dessa ilha de concreto.

Voltei para casa agorinha, utilizando a linha que me faltou no sol inclemente das 13h. E, tragicamente, ao tecer esse texto, não anotei o número da linha para voltar a conversar com a ouvidoria de transporte.

Por mais essa vez, São Paulo e seu transporte inviável rolam de rir da minha cara. Mal sabem o quanto alimentam o meu dia de fúria que está por chegar.

Anderson Passos

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