Olho de vampiro (2)

A cirurgia a que me submeti na vista direita fora adiada aos 46 minutos do segundo tempo em dezembro passado por razões tantas que faltaria espaço e paciência para explicar. Mas ela veio com o novo ano.

Quem me acompanhou na missão foi meu irmão que, milagrosamente, conseguiu se livrar do lavoro. O hospital era um misto de clínica com hotel. Não conheci luxo maior antes na minha parca vida. Tudo isso pelo meu raquítico e, ao menos dessa vez, imponente plano de saúde.

Feita a burocracia dos papéis, que incrivelmente não tomou o tempo esperado, fui escoltado até o quarto onde aguardei a “hora fatal”, ciente apenas de que seria feita uma anestesia geral, dada a fragilidade da região a ser tratada.

Internei-me às 11h30min, faminto e sedento como nunca – exigência médica para a anestesia não causar incidentes – e, pontualmente às 12h30min eu começava a ser sedado. Tudo absolutamente dentro do horário. Não parecia que eu estava no Brasil. Nesse momento tive uma dolorosa nostalgia dos tempos de SUS.

Claro que fiquei tenso, mas tão logo cheguei ao bloco cirúrgico, o anestesista, um japonês gente fina, me tranquilizou indicando que eu acordaria do procedimento notando apenas o curativo na vista e nada mais. Meu horror era de sentir enjôos na hora de tornar a me alimentar, uma consequência natural da anestesia em alguns casos.

Feita a punção da veia por um enfermeiro, o caro anestesista trocava uma ideia comigo para verificar meu nível de consciência. Recomendava para eu respirar fundo para que o efeito viesse logo. Não demorou muito e falei pra ele que de muito mesmo não bebia e que tinha uma certa nostalgia do “estado aéreo” que a bebida me emprestava. Enquanto isso, a minha oftalmologista lia concentrada meus exames.

Lembro de dizer, já com o efeito da anestesia pegando, que “isso aqui tá melhor que Jack Daniels”. E, como o anestesista previu, apaguei. Só despertei muito grogue quando a maca me levava de volta ao quarto. Já com o curativo, como prevera o japonês.

Acordei de fato apenas às 19h, na hora da alta. Tempo de entrar num táxi e adormecer de novo sob um temporal de quinto ato do Rigoletto, diria o Nelson Rodrigues.

Mas, quando tirei o curativo na manhã seguinte, me assustei. Essa parte conto amanhã.

Anderson Passos

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2 comentários sobre “Olho de vampiro (2)

  1. Eu me lembro quando quebrei o dedo e tive que colocar pino…a anestesia era local, mas me deixou beem feliz..srrs
    O olho é um orgão tão delicado que eu morro de medo de qualquer intervenção nessa região, abençoados sejam esses médicos.
    Imagino que a cicatrização não seja das mais bonitas, ne?

    Bom, espero que voce se recupere logo, tem muita coisa boa pra se ver por ai…rs

    Bjs

    • Oi Fran

      Se a anestesia local te deixou contente, o que seria de você com uma “geralzona”, hein? Não quero nem ver. Quer dizer, até quero. Daí publico aqui mesmo as suas reações, he he he. A recuperação vai bem, grazzie. Essa semana voltei ao lavoro. A droga é que depois de uma semana em casa às escuras, dá uma preguiça danada, he he he. Besos. Breve chegarei no seu blog.

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