Crônica da vida em pausa

Que mundo perfeito o do congestionamento se comigo houvesse um livro. Que drama senil a moça sentada no banco à minha esquerda, do alto do seu intelecto aguçado, despeja teses cinematográficas, literárias e que, na sua incansável fala, me rouba o sono e a paciência.

Ufa, ônibus avançou meio metro. Nesse ritmo, chegar em casa deve tomar umas três horas ao invés dos 40 minutos habituais. Agora a sábia falante fala de relacionamentos. Que abençoado o sujeito que a deixou. E pobre dos ouvidos daquele que a possuir desavisadamente.

Alguma esperança: o arranca e para do coletivo o fazem ganhar generosos metros. Até quando? A tese agora se refere ao “vício jurídico da paternidade”. São Pedro, seu canalha! Onde estão os tantos raios que emanaste na 35ª tempestade em 35 dias? O desespero me vem de forma tamanha que eu não hesitaria em queimar. Afinal, que mal pode haver em ficar carbonizado se os meus tímpanos já estão escorrendo pelas minhas orelhas abaixo?

O ônibus parou de avançar como antes e a tristeza e o desencanto sufocam. A “doutora” agora vai falar da banca. Me sinto morrer. Só a tentação de pedir para o motorista abrir a porta e sair correndo me salva. Tento sonhar com isso, mas uma insistente voz “em off” narra não minhas braçadas no esgoto e sim o pânico que toma minha vizinha de coletivo ao apresentar sua tese. “O professor falou, falou, falou…” suspira a outra.

E eu me pergunto como essa moça não sente sede. Já são duas horas de trânsito e ela não parou de falar um só minuto. Queria que ela me pedisse água. Como um herói de uma chanchada psicodélica eu atiraria meu cantil mágico à água podre que, seguro por um barbante, lhe daria o que beber. Justo essa água que, num redemoinho estranho, grita para mim.

– Vem nadar, vem?

“Com que sereia?”, ouso perguntar. Acordo do devaneio com os solavancos do ônibus. A voz continua sua cantilena. Penso comigo se tirar o calçado, enrolar a meia e enfiá-la goela abaixo da minha teórica maldita não seria solução.

Tento marcar a cara da dona falante para, ao revê-la, desaparecer. Ela tem os cabelos louros, mas virada para o lado oposto ao meu e com o rosto coberto pelas madeixas, não consigo fitá-la. Aliás, será que a Nossa Senhora das Teorias Mirabolantes tem uma ideia de como solucionar essa metrópole cheia de água e carros? Não ousarei perguntar.

Anderson Passos

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4 comentários sobre “Crônica da vida em pausa

  1. Olha And…
    Dê-se por satisfeito que voce não pegou o onibus seguinte, que trazia dentro duas senhoras discutindo ardentemente sobre Geová e a salvação (ou o apocalipse) dos “escolhidos”, um jovem-aprendiz-office-boy com o celular no modo viva voz fazendo a trilha sonora com o melhor (??) do funk carioca, uma turma de adolescentes com roupas coloridas, franjas e maquiagens bizarras voltando do shopping e o cobrador com a mão pra fora pra pedir passagem pros carros (enquanto o motorista já fechou o carro de tras).

    Viu….podia ser bem pior… srrs

    bjs

    • Oi Fran:

      Não gosto de pensar na possibilidade de um neo-pentecostal de alcance cerebral zero ousar a pregação perto de mim dentro de um ônibus. Tomara que você não esteja me praguejando. Meu sonho de consumo agora é um carro anfíbio, he he he. Besos

      • Jamais praguejaria isso nem pro meu pior inimigo, mas se bem que é uma tortura considerável….

        Enfim, estou só te mostrando que nem tudo está perdido, podia ser bem pior…srsrs

        Do jeito que anda a função “carro” não vai mais ser necessária, então estou pensando em um jet-sky e um colete salva-vidas-à-prova-de-balas afinal, numa “waterland” o que não vão faltar são piratas…srrsrs

        Bjaos

      • Oi Fran:

        Breve posto aqui uma passagem do meu padrasto evangélico e de como nós, meros mortais, somos fraquinhos em matéria de fazer dinheiro. Aguarde. Se eu não encontrar a Madre Tereza das Teorias Dantescas logo mais. Jet Sky é bom negócio. Vou dispensar o colete pois não pretendo passear nos grotões, como insiste nosso prefeito sem resultado. Besos alagados, he he he

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