Madalena acidentada

Esse texto talvez soe como uma espécie de mea culpa ou justificativa. Como sabem, saí da casa da Camila Gaya há poucos dias, depois de dois anos de convivência. Se ainda não sabem, foi por obra dela que tive um lar em São Paulo ante a inexplicável recusa do meu irmão, aqui residente há 15 anos.

Dia desses, quando liguei nela, senti um tom grave e de reprovação por partir do jeito que deixei o lugar, qual seja de forma apressada e na surdina. Saída quiçá ingrata na visão dela.

Ao fone, ela demonstrou mágoa ao dizer que eu devia ter avisado antes não só a ela, mas também à sua namorada, já que elas mesmas anunciaram igualmente que iriam deixar o apartamento.

Reconheci o erro, pedi desculpas. Não vi perdão. Talvez tudo tenha se dado tão repentinamente que as ideias ficaram fora do lugar e pouco pude dizer mais. Passados alguns dias de minha mudança, sou o primeiro a reconhecer que minha postura pode ter sido sim errada, mal agradecida até.

Mas não posso nem devo me condenar de todo porque a saída tem justificativas plenas e, se pensarmos bem, dignas de ponderação. E isso não pude dizer para não causar mais atrito.

O fato é que há meses eu me via deslocado em casa, desmotivado, irritado com o acúmulo de sujeira que se via e contra o qual pouco se agia. A depressão era tanta que eu não conseguia colocar o nariz para fora de casa, preocupado que estava em alternativas para fugir daquilo.

Desde muito tempo eu tinha que levar minha roupa fora de casa para que o cheiro de cigarro das minhas acompanhantes não encarnasse nelas. Ademais, rareavam os momentos em que eu e Camila conversávamos, quanto mais dividir a mesa, as alegrias e as tristezas, como se fez tantas vezes.

Havia uma muralha entre nós. Não só a ciumenta namorada. De fato, nos isolávamos em nossos respectivos quartos a espera da mudança. Donde, classifico minha saída como a perseguição de um novo momento e das novas circunstâncias.

Era preciso um novo salto, um novo ar, um outro contexto. Um panorama definitivamente melhor do que aquele que eu vivenciava. Eu clamava já de muito por um espaço meu. Nada de egoísmo nisso. Eu apenas, e modestamente, queria um pouco de descanso em casa, o que eu tinha no trabalho. E, quando as coisas evoluem assim, algo está errado e bem errado.

Hoje chego em casa e ela está tinindo. Hoje posso tomar café da manhã sem receio de encontrar a pia entupida de louça da semana anterior. Estou até dormindo melhor porque agora tenho planos, motivação e muito mais a me fazer relaxar a cabeça.

Sábio é o tempo que vai dizer como o quadro vai ficar. Camila se disse magoada mais não ao ponto de nunca mais falar comigo. Vejo nisso um progresso. Além do efeito de minhas desculpas, essencial agora é esperar que o tempo trate de colocar no lugar as ideias e os fatos, sobretudo no lado de lá.

Eu posso dizer que estou em paz, vivendo um momento novo e desafiador. Espero que do lado de lá esse estalo de que a vida vai ficar melhor se efetive também.

Anderson Passos

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