Caputz

Num diálogo pela web, sem jamais termos nos visto até então – o ano era 2006 – eu me queixava para Marina Diana do frio glacial de Porto Alegre e dos tremores que os baldes de café que eu bebia para me aquecer causavam.

Donde a Ruivinha saiu-se com uma receita para fazer capuccino caseiro. Produzi a mesma à risca com a ajuda da minha mama e eis que o resultado foi espetacular. Mas, o tempo passou e esqueci a receita.

Corta para 2010: recentemente, fez o menor friozinho aqui em Sampa e, como de muito não punha a receita caseira de capuccino em prática, pedi para a Ruiva me relembrar passo a passo a mesma.

E ela escreveu mais ou menos assim: misturar café, leite em pó, achocolatado e uma colher de bicarbonato de sódio e boa sorte.

Fiz a mistura e, confesso, estranhei a facilidade e simplicidade da mesma. A seguir aqueci o leite no fogão e, ao misturar o pó ao leite, vi que o pó de café insistia em boiar na caneca em generosa quantidade. E lembrei que das outras vezes que fiz o capuccis caseiro, ainda no sul, isso não acontecera.

Fechei os olhos e tomei o resto da primeira caneca e constatei, para piorar, que outro tanto expressivo do pó do café ficara concentrado ainda no fundo da xícara. Então eu disse comigo:

– Deu merda graúda aqui.

A confirmação veio quando liguei na Ruivinha e ela repetiu-me a receita. No entanto, como a mãe dela – a dona Wal – a ladeava, pedi para ela passar o fone. E dona Wal perguntou do café e, conforme eu ia relatando, ela logo me interrompeu:

– Só vai dar certo com Nescafé. Com pó de café normal nada feito. Lembra que tem que coar o pó de café.

Disso – coar os grãos numa peneira – a Marina não lembrara de dizer. E minha memória menos ainda. Quando dona Wal falou isso me veio à mente a trabalheira que deu fazer o capuccis.

A seguir, eu disse para dona Wal que eu produzira tanto capuccis caseiro com pó de café comum que dois invernos serão insuficientes para a mistura errada acabar. Não me perguntem como, mas percebi a dona Wal levar às mãos à cabeça como que horrorizada com mais uma merda graúda deste escriba.

Marina, por sua vez, prometeu indenizar-me. Estou aguardando o que ela vai aprontar, flertando com aquele pote lotado do caputz – eis o nome ideal para o produto – tirando sarro da minha cara.

Anderson Passos

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