Carta aos meus pais

Tive a sorte de ter dois pais: o primeiro é o biológico, que conheci em duas fases distintas: a da tenra infância, quando aos nove anos ele saiu de casa – e eu sempre consciente de que se tratava de uma separação – e que reapareceu mais recentemente na vida adulta.

O segundo pai, sem dúvida o mais importante, foi meu avô materno, pelo óbvio: quando o titular do cargo foi embora, ele assumiu a bronca com paixão que eu não assistirei jamais. Perdi meu avô e os referenciais paternos aos 15 anos.

Meu padrasto entrou na família logo no ano seguinte à separação da minha mãe. E lembro de que, no afã de agradá-lo, mais confuso do que nunca, eu o chamei de pai algumas vezes. Numa dessas o homem chorou abraçado a mim. Injustiça com meu avô e com meu pai também, reconheço hoje.

Na minha infância distante e feliz, meu pai me ajudava a fugir do banho, me dava o privilégio de um abraço toda a noite, dançava louco ao som de Village People e clássicos dos anos 70 que o Fernando Vieira punha na televisão. E, ousado, eu tentava acompanhá-lo.

Naquele tempo, meu pai, que era motorista de ônibus, ia em casa meio dia para o almoço e eu e meus irmãos brincávamos no coletivo vazio simulando corridas irreais pela cidade. E lembro do meu pânico de sentar no banco do motorista enquanto meus irmãos me tranquilizavam dizendo.

– Dirige aí.

Até hoje não dirijo. Será por isso?

Mas aqui mesmo eu disse que meu pai se foi e me lembro do dia seguinte à discussão final com minha mãe: a televisão e alguns móveis estavam do lado de fora de casa. Seria a parte dele naquele casamento marcado pela conflituosa relação que meu pai e o álcool mantiveram em paralelo ao casamento, com claro privilégio para a bebida.

E nisso meu avô assumiu tudo. E não admitia que meu pai nos procurasse. Ele manteria a mim e a meus irmãos. Ele não deixaria nada faltar. Ele nos disciplinaria, nos daria caráter, nos surraria, às vezes. Mas não nos faltaria. Alguns anos depois veio o câncer, a agonia e a escuridão que a falta daquele homem ainda faz. Sempre que aqueles anos me vem à mente, os meus olhos me traem e me cegam pois que banhados.

Meu padrasto é um pobre evangélico xiita temente a um deus vingativo. Eu não acredito nem nesse nem em outros deuses, deixo claro. Mas devo dizer do meu pai: já na minha vida adulta ele reapareceu refeito do vício do álcool mas refém do vício do cigarro que já lhe levou um dos pulmões e terminará por levá-lo de vez.

Meu avô ainda trago comigo. Sempre. Lembro dele sentado à sua cadeira, olhar perdido nas reflexões que fazia, ouvindo seus discos numa pequena vitrola. Lembrança que, num ato inconsciente – ou consciente até – reproduzo quando a música toma a sala do meu pequeno apartamento nessa vasta São Paulo e me apanho repassando a vida, revendo erros, acertos, mulheres, amores perdidos.

Saudades dos meus pais. Se eu pudesse eu queria ter a grandeza de espírito do meu avô. Persigo isso todo dia e me vejo longe, longe. E por que? Nossa maior diferença é que aquele homem tinha uma fé inabalável, que eu não tenho nem nunca terei.

Quer dizer, a minha fé é no ser humano, antes de ser católica, evangélica ou o que seja. Meu avô era um religioso que orava antes de dormir, fosse como fosse. E por que sou assim? Ocorre que se alguém justo como meu avô, ferrenho como ele, abnegado como ele, guerreiro como ele, religioso como ele teve o final que teve, de que vale a vida? Será a vida uma colcha de saudades? Para mim tem sido assim.

Mas a minha colcha traz ornada o honroso nome do meu avô. Na parte amarrotada, ela cita meu pai in passant. E eu vou passando. Sem querer. Esperando o fim.

Anderson Passos

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