Nova geração da Alcindo

A rua Alcindo Guanabara, em Porto Alegre, onde vivi por 36 anos, está muito diferente da que contemplo hoje, após quase três anos fora da cidade.

Na minha época jogávamos bola desviando das poucas linhas de ônibus que cruzavam a rua ou fazíamos das casas com muros mais altos goleiras imaginárias onde treinávamos aqueles que iriam defender o time da nossa rua contra os adversários da Rocha Pitta, que ficava logo abaixo da nossa, por exemplo.

Evidente que esses “treinos” redundavam em paredes de madeira bombardeadas por nossas boladas. Mesmo assim, a relação com os vizinhos quase sempre foi cordial. O palavrão, por exemplo, era artigo raro entre eu e meus amigos quando nos dirigíamos à vizinhança.

Admito que fui o primeiro a romper com isso de não falar palavrões aos vizinhos, mas não era um instrumento corriqueiro ou usual de comunicação. Era a última instância, quando as coisas não tinham mais jeito mesmo.

De repente, a geração seguinte ocupou nosso lugar. Primeiro esbravejando os palavrões mais cabeludos a quem quer que fosse, desconhecido, vizinho ou familiar. A ponto de um vizinho das antigas me dizer corado.

– Pra esses aí, respeito não existe.

Esses aí eram Emanuel, Armando, Caio e Gordo. Os três últimos eram irmãos, se bem lembro. Todos eles mais do que endiabrados. Xingavam e ainda pequenos, amendrontavam os vizinhos mais antigos com seus gestos nada casuais. E claro que uma turma com essa conduta acaba virando presa fácil de traficantes que, de uns anos para cá, passaram a desfilar pela rua como se dela fossem donos. Coisa que no meu tempo não era tão evidente.

Mas eu falava dos garotos. Numa de minhas visitas recentes ao sul, flagrei o Gordo, que era o mais novo deles, mendigando num farol de uma grande avenida da cidade. Nisso descobri, amargamente, que ele morava na rua. Hoje o Gordo está preso por ter tentado invadir uma casa pelo telhado. Percebendo a tentativa, a dona da casa saiu correndo, fechou a casa inteira e chamou a polícia.

Emanuel, que eu soube viver de pequenos roubos quando de visitas anteriores, era o mais velho do grupo. Aquele dali sempre dirigia um olhar desafiador a quem quer que seja. Morreu num acerto de contas com traficantes, soube muito recentemente.

Do Caio pouco ouvi falar. Da última vez que o vi vestia roupa social, donde presumi que ou estava trabalhando ou tinha virado evangélico. O que, para um demônio como ele, mais soava como uma alucinação.

Mas a ironia maior vem do relato que um vizinho me fez do Armando. Esse tinha tudo para ser um tremendo bandido, até que foi adotado por um cabelereiro de uma rua próxima da minha casa em Porto Alegre. Deles é o único de quem ouvi boas referências pois que trabalha e tem até mulher e filho.

Triste constatar que a minha geração, com muito menos recursos e muita criatividade, teve mais sorte que a seguinte, que tinha tudo para fazer ainda mais do que nós.

Anderson Passos

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