Um cavalo a cavalo

Entre as coisas mais marcantes da minha infância estava um irmão da minha avó materna, o tio Edson. Quando eu morava em Porto Alegre, há zilhões de anos, o sujeito apanhava seu cavalo e vinha de Tapes – mais de 100 quilômetros distante – para a capital no lombo de um cavalo. Virava atração da rua.

Não bastasse isso, tio Edson, embora amoroso com crianças, não fazia muita questão de ser educado com adultos e despachava as mais burlescas grosserias. Admito que, às vezes, me inspiro nele ainda hoje quando o caso é esse.

Volto ao tio Edson: ofensa maior para ele era o sujeito ser convidado à casa dele – ou vice-versa – e ele não ser presenteado. E não podia ser qualquer presente. Gaudério de faca na bota, cavalão pra mais de metro – como se orgulhava de dizer – um dia fez uma cena lá em casa.

Era 87, minha avó recém enviuvara, a grana estava curta e ela quis lhe dar os vinis do meu falecido avô, para compensar o presente não comprado. Dentre os discos havia raridades de um certo Nelson Gonçalves, boêmio, ex-boxeador, um tiger de marca raríssima. Tio Edson não se sensibilizou nadinha.

– Uma bosta esse sujeito. Prefiro o Gildo de Freitas [um cantor gauchesco com fama de mau] que dava camaçada de pau em brigadiano armado a esse pangaré cagado.

Mais tarde, comigo já crescido, tio Edson já adotara o ônibus em vez do cavalo nas cada vez mais raras vindas dele à Capital. Não passava de um dia na cidade grande. Aquilo o sufocava.

Mas o intervalo se deu até o dia em que a minha avó, já velha e inventando histórias com ajuda de alguns cretinos da família – a saber meu tio, irmão de minha mãe, e sua nora – fizeram chegar aos ouvidos do tio Edson que minha mãe e eu, por uma razão qualquer, teríamos agredido fisicamente a velha.

Era final de 2002 quando um recado feito trovão ecoou em Porto Alegre: que eu, minha mãe, que todos deixassem aquela casa ou apanharíamos de facão nos costados até porta afora, pelo menos.

Fiz chegar à cidade praiana – Tapes margeia a Lagoa dos Patos – que eu resistiria e esperei o tio Edson, que só voltou a aparecer para sepultar minha avó, morta por conta de uma isquemia cerebral em março de 2003. Chorava feito guri cagado e adiava seu plano ameaçador, ao menos por hora.

Recentemente, soube que um Acidente Vascular Cerebral (AVC) devastou a energia do tio Edson. Foram-se a fala, os movimentos, as grosserias, quase tudo senão um fio de vida. Não o vi, evidentemente. Minha mãe, essa santa, o fez e a descrição que faço aqui é a que ela me contou.

No último sábado (5/2), tio Edson faleceu de falência múltipla de órgãos. Foi sepultado ao lado da mãe dele, com quem estava brigado quando ela se foi. Não a conheci, mas espero que eles tenham feito as pazes do lado de lá.

Anderson Passos

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