Morte na sala

Sou um sujeito que não se assusta com a morte. A minha briga com ela se dá pela forma repentina com que resolve dar as caras. Mas fiquemos na primeira frase.

Talvez por ter trabalhado por um período em hospital e, por ter visto tanta coisa, acabei me acostumando, exceção seja feita quando amigos próximos e familiares estão envolvidos.

Lembro da primeira vez que a morte rondou minha casa, ainda em Porto Alegre. E eu a encontrei exatamente dentro de casa. Era 16 de abril de 1985 e eu contava com 13 anos. Antes disso, a morte veio se chegando, fazendo uma espécie de sessão preliminar.

No natal do ano anterior, certeira, minha mãe conduzia minha bizavô, de 80 anos, da casa dos fundos para a casa da frente quando não viram um degrau e cabum. A velha caiu quebrando o braço.

Ela, dona Edelvira da Silva Passos, já viúva, era mãe do meu avô e eu não sei contar por quanto tempo ela morou conosco. Só sei que não foi sempre.

Me lembro de brincar de carrinho à beira da porta do quarto dela, a quem chamávamos carinhosamente de Vó Rola. Porta é exagero pois que a entrada do aposento dela, na verdade, era feita só de uma cortina. Ali, em torno de 21h, ela ouvia o Júlio Rosemberg na Rádio Caiçara.

Lembro também que, vez em quando, durante a madrugada – e aqui volto ao tema do post – se flagrava um corre corre no quarto dela. Era cardíaca e tinha monstruosas crises de falta de ar.

Como eu também tivesse asma, às vezes criava coragem, ia à beira da cama e lhe oferecia meu inalador. E claro que ela não o utilizava. Talvez lhe fosse ser fatal usar aquilo.

Eu sei que numa dessas crises, naquele abril, minha biza foi parar no hospital e voltou muito frágil. Na manhã de 16 de abril uma vizinha minha foi vê-la lá em casa. Recém tinha tido alta, mas sua fragilidade era palpitante. Ambas, Vó Rola e a vizinha, conversaram na sala quando a velha pendeu para o lado de repente.

Enquanto isso, eu conversava com a filha dessa vizinha no muro, na parte externa, quando minha mãe – auxiliar de enfermagem – apareceu na janela gritando que a biza tinha morrido.

Não entendi nada. Não consegui esboçar reação alguma que não chorar. Coisa de alguns minutos e meu avô e minha madrinha – filhos dela – já estavam na casa. Se estava fora de si, meu avô não demonstrava. Era uma fortaleza. A dinda estava atordoada.

De repente fui até minha cama e vi minha biza deitava ali com um lenço amarrado à cabeça pois que ela teve um espasmo muscular final e morreu com a boca aberta.

Fitei longos minutos o cadáver e lembro dele de forma cristalina ainda agora. Naquele dia minha mãe me enviou para o colégio e eu só conseguia chorar durante a aula. Não lembro bem, mas acho que fui mandado de volta para casa.

Como era muito jovem, não fui ao velório nem ao enterro. Fiquei na casa de vizinhos até que a família retornasse dos funerais. Lembro que naquela e por muitas noite ainda tive medo de dormir pensando que a Vó Rola me puxaria os pés à noite.

Anderson Passos

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