Linda crônica canina

Não sou o que pode se chamar de leitor assíduo da dona Bárbara Gancia, colunista da Folha de S.Paulo. No entanto, na semana passada, ela produziu uma linda crônica sobre cães – no caso um mascote dela – que, confesso, me arrancou lágrimas de esguicho. Ao texto

Vidão de cachorro

Nos últimos 15 anos, o leitor conviveu com meu cão e personal trainer, Pacheco Pafúncio (1996 – 2011)

ESCREVO COM o estrupício aninhado sob os meus pés. Também não estou lá grande coisa. Desde a noite de quarta, quando voltamos do hospital veterinário, venho tentando me conformar com mantras repetidos em sequência: “Ele levou uma vida gloriosa; viveu mais de cem anos caninos; tomou água de coco no dia em que se foi”.
Nos últimos 15 anos, o leitor desta coluna se acostumou a conviver com meu cão e personal trainer, Pacheco Pafúncio. Nesse período, tornou-se rotina sermos parados na rua por gente interessada: “Este que é o famoso Pacheco Pafúncio?”. E o Pachecão lá parado com ar de sonso, esperando a conversa terminar para dar prosseguimento à caminhada. Sem a menor ideia de que eu o havia transformado numa espécie de Lassie do jornalismo tapuia.
Para seu núcleo íntimo, composto pelo estrupício, ou seja, por meu outro cão, o também salsicha Ziggy Stardust (ou Ziggy Zagallo, aquele que, a partir de hoje, vocês vão ter de engolir), é evidente que ele era bem mais do que uma celebridade das colunas e revistas de amenidades. Para nós, ele era o SuperPacheco, o melhor cão do mundo.
Nos últimos tempos, porque um era idoso e o outro não, e cada um tinha seu ritmo, eles saíam para passear separados. Quem ficava o fazia de focinho grudado na porta até que ela se abrisse novamente. O reencontro sempre era o de velhos amigos que não se viam há décadas. “Pacheco, você por aqui?”, “Ziggy, querido, há quanto tempo!” Eu ficava comovida com a camaradagem. Nunca o ancião usou do seu privilégio de chefe de matilha para submeter o caçula.
Pacheco era o nosso “metrônomo”, foi o impressionante caso do cão que abanou o rabo desde o primeiro ao último dia de vida, que morreu de velhice sem nunca ter importunado ninguém e sem jamais ter cometido um malfeito.
Podemos descontar como fraqueza momentânea -ou quem sabe computar como uma forcinha a mais na dieta da moça- o dia em que ele deu uma lambida no sorvete de cone da gorda sentada ao nosso lado no banco da Brunella.
Meu personal trainer em forma de quadrúpede era tão especial que arrancou a ponta do dedo da minha cunhada em uma única e asséptica dentada. Outro teria causado uma infecção generalizada ou passado alguns momentos mastigando a carne sadicamente feito chiclete Nicorette -castigo inclusive merecido se levarmos em conta o grau de debilidade mental da brincadeira que desencadeou a mordida.
Fato está que, para o Ziggy e para mim, Pacheco possuía o dom da infalibilidade, nós o víamos como um Dalai Lama de bigodes e rabo.
Na última quarta-feira, cheguei em casa para encontrar meu velhinho cardíaco ofegante e quase sem movimento. Peguei-o com o máximo cuidado e procurei uma posição que facilitasse sua respiração. Percebi alguma intenção e coloquei meu rosto perto do seu focinho. Com muita dificuldade, apenas com a pontinha da língua ele conseguiu lambiscar a minha bochecha.
Em qualquer outra circunstância, eu teria limpado o rosto na hora. Desta vez não. Consegui colocá-lo no carro e ele chegou ao hospital quase desfalecido.
Levaram-no para a emergência e não o vimos mais até que vieram me chamar. “Ele está tendo uma parada cardíaca, a senhora quer tentar reanimá-lo?” Pedi para ser levada até ele e, com o Ziggy e comigo ao seu lado, Pacheco Pafúncio foi sedado. Sobramos o estrupício e eu.

Anderson Passos

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