Guga

Aproveitando o momento canino do blog, registro abaixo um texto de 2007, quando perdi o meu parceiro de mate amargo, o Guga.

Perdão, eu tinha parado com esse negócio de escrever crônicas. Muito mais em função da falta de tempo – felizmente – do que por qualquer outra coisa.

Volto ao papel em branco porque, ao chegar em casa, nesta noite, uma bomba caiu sobre os meus ombros.

Eu passava a chave no portão quando meu padrasto, a quem raramente dirijo a palavra, olhou-me de cima abaixo e atirou-me na cara:

– Acabo de levar o corpo do Guga.

Para quem não sabe, o Guga era o meu cachorro rebelde que se recusava a tomar banho.

Banho é uma palavra que ele entendia tão bem que saía correndo à sua menção, por mais sorrateira que ela fosse. Apanhá-lo para um banho no tanque era uma missão equivalente a apanhar galinhas num treinamento do Rocky Balboa destreinado.

Sobre o sucedido, o que fiquei sabendo é que o meu pequeno fox, diminuto e saltitante, estava passeando no meio da rua e foi colhido por um ônibus em frente de casa. Pra me consolar, minha velha ainda disse que fora uma morte rápida. Retruquei.

– Rápida, mas brutal.

Quando eu soube do ocorrido, depois de um dia abominável no trabalho, soava nas minhas entranhas a mais profunda das maldições ao motorista, a quem deixara o “rabo passando” no portão – engraçado como os suspeitos desaparecem num passe de mágica – ao mundo, enfim.

Qualquer cachorro pode morrer embaixo de um ônibus, uma morte terrível e inapelável. Qualquer cachorro. Menos o Guga.

Uma Lya Luft que lesse essas linhas diria que há coisas mais importantes do que falar da morte de um animal. Fosse qualquer outro cachorro e eu diria, parafraseando Eduardo
Dusek, que válido seria trocar o cachorro por uma criança pobre.

Mas pensando bem, um cachorro qualquer mereceria tal troca. Não o Guga.

Guga era um cachorro e tanto. Perdão uma vez mais, estou debulhado em lágrimas e mal enxergo o que estou teclando, mas o animalzinho era o meu parceirão para a minha solitária hora do mate dos finais de tarde.

Eu chegava à estupidez de, em altos brados, chamá-lo
para tomar um “chimarão”, pronunciado assim mesmo, sem o segundo erre, como se eu me dirigisse a uma criança. E ele vinha num pique, numa alegria que eu não vou ver mais.

Sem falar na sua notória e única habilidade com uma bolinha de tênis sob as patas. Ronaldinho Gaúcho iria corar com os elásticos que ele dava.

Que importava se o Guga não tomava banho havia meses. Pra mim e pra ele não tinha “ruim”. Eu o chamava para um abraço e nunca nos negamos a isso.

Agora não tem mais abraço, não tem mais salto acrobático, não tem o latido em altos decibéis.

Agora a minha hora do mate perde todo o seu sentido porque sem alegria nenhuma. Sem correria, sem o mau cheiro, sem o futebol, sem o carisma do pobre Guga. Passará a ser a hora de uma besta sorvendo o mate, que nada terá de amargo pois que, feito de erva e
de lágrimas.

Anderson Passos

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