Povo ruim de negócio

Mal chegado a Porto Alegre constatei que entre os meus familiares diretos, eu só levara um presente para meu irmão que cuida da minha mama. E pensava comigo.

– Preciso fazer algo inesquecível para a minha mama.

E pensava assim porque o plano de sempre era levá-la novamente para São Paulo, como fizemos em 2010. Não foi possível graças a meus empregadores que pouco ou nada ajudaram para que isso se concretizasse.

Volto à mama: numa manhã onde eu mal despertara, ela disse que passara próximo a uma loja do bairro e vira que vendiam batedeiras a R$ 20. Achei aquilo suspeitíssimo e, chegando à loja, confirmei que R$ 20 era o valor das trocentas parcelas.

Comprei a batedeira e, de repente, perguntei:

– A quantas anda o teu projeto da tua TV de plasma, mamita? Não quer fazer um orçamento?

Mama soltou que só tinha em casa TV de “plasta” e eu pensei comigo – ando pensando demais neste post:

– Este é o presente.

Fizemos o orçamento e o preço à vista não ficou nada interessante. E conversei com meus botões:

– Povo duro de fazer negócio esse, puta que o pariu.

Daí que à tarde, sem a mama, fui para um shopping, namorei a sonhada televisão e uma vendedora morena, dessas de fechar o comércio por uma semana, veio sorridente, como de praxe.

A tela com a qual eu flertava era uma Sony Bravia de 40 polegadas. E, inicialmente, o preço da dita era R$ 2 mil ou R$ 1,9 mil à vista. Olhei aquela vendedora descomunal e repliquei:

– Pago R$ 1,7 mil e todo mundo aqui fica feliz da vida.

A outra fez muxoxo e eu me mostrava um pequeno ditador na minha convicção. Quando ameacei deixar a loja, ela me convidou à mesa dela enquanto, com ironia, eu perguntava.

– Tem um Ponto Frio aqui perto hein?

Já à mesa, ela ainda insistia no preço exorbitante e cravei:

– Linda, o sonho da minha mãe é aquela televisão e eu quero realizar esse sonho. Mas com esse preço tu estás produzindo um pesadelo. Me ajuda aí, ô. Chama o teu gerente.

A seguir, usei de didatismo:

– Se eu chego numa loja em São Paulo com uma oferta assim, a vendedora me cravava um beijo de cinema na boca.

A outra soltou risinho e eu quase cantei vitória antes da hora. Em seguida, ela foi ao gerente, que ouviu minha proposta e ordenou:

– Entra no sistema e vamos baixar esse preço pro cliente.

Isso levou horas, o preço final caiu para R$ 1,6 e alguma coisa e a vendedora me pediu top secret de que aquela negociação não vazaria. Daí eu preservar o nome da loja e não a negociação.

Cheguei com a telona nas mãos em casa e a velha tremia em cima das chinelas e seus olhos de criança confirmavam que eu acertara na compra do “brinquedo”.

Anderson Passos

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Um comentário sobre “Povo ruim de negócio

  1. Muito legal mesmo isso que fez pela mama. Adorei ler isso. Quando fui transferida de Sampa doei minha TV nova pra minha mãe também (Philips tela plana) + várias coisas novinhas, que havia comprado há poucos meses (sofá, eletroeletrônicos). Acho que isso é o mínimo que podemos fazer por esse ser único, que nos criou sem cobrar nada e nos ama incondicionalmente. Viva as mamas!!!

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