Qorpo Negro II

Desço a Consolação nas minhas caminhadas matinais e me deparo novamente com o Qorpo Negro.

Dessa vez ele forja sua cama num dos degraus do portal principal do cemitério ali localizado. Os chinelos ficam no andar debaixo como se ali se ordenasse um quarto.

Dessas vez as mãos do Qorpo Negro estão entrelaçadas entre as pernas, apesar do calor de 25º graus da manhã.

Então ele acorda. Digo “bom dia” e ele se surpreende.

– Minha mãe dizia isso.

Chama-se Alexandre, o Qorpo Negro. Fugiu de casa porque “o pai batia geral”. Não precisou quantos irmãos tinha senão que todos apanhavam.

– Moro na rua porque apanhar do pai é pior. Não tenho medo dos polícia. Quando eles bate nem sinto mais, sinhô. Ainda sinto a dor quando o pai descia a porrada lá em casa.

Pergunta se tenho algum trocado para o café. Não tenho. Ele me surpreende novamente.

– Vai ter greve da polícia aqui?

Respondo que, aparentemente, não. Mas pondero que a essas alturas tudo é possível. Ele pergunta o que diz meu rádio sobre o assunto. Explico que é um tocador de música – descarto a palavra digital.

Alexandre, o grande Qorpo Negro, se ajeita e volta a deitar, não sem antes perguntar se amanhã eu levaria algum trocado para o café. Sim, levarei algum. Nos despedimos finalmente.

Coincidência ou não, o meu I Pod no modo músicas aleatórias disparou a trilha abaixo após a nossa conversa.

Anderson Passos

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