Cães que ladram

Num final de semana desses, percebendo que se avizinhava um temporal de quinto ato do Rigoletto, esbocei correr até minha casa. Me encontrava perto de um posto da Polícia Militar, nas proximidades do Minhocão quando, de repente parei.

Ocorre que flagrei um sujeito com roupa de vigilante – não estava armado – discutindo com um mendigo. Dizia ele algo como.

– Bate aqui na minha cara, seu arrombado.

O mendigo só olhava e se esquivava à medida em que o outro avançava descontrolado. Percebi que a exaltação do homem de farda se dava provavelmente pela bebida. Enquanto berrava para toda a rua o quanto era macho e o outro arrombado, o sujeito de farda, que sangrava num dos supercílios levemente, batia a mão espalmada no para brisa traseiro de um carro gritando.

Sentindo que o cabra macho iria logo quebrar o para brisa – comecei a jurar que o carro em que o sujeito batia era dele mesmo tal emprego da força – passei ao lado da dupla sem nada dizer, senão a olhar para o homem fardado, que disparava verbalmente.

– Vem logo, anda, vem bater na minha cara, seu FDP!!!

Como o mendigo parecia satisfeito em ferir o desafeto, preferiu se afastar. De repente, o falso Capitão Nascimento começou a correr em minha direção na calçada oposta. Ao dobrar a esquina, deu uma voadora ninja de invejar um Madame Satã numa placa de trânsito e sumiu.

Pareceu a velha história de cão que muito ladra mas não morde.

Anderson Passos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s