Senhor X

O Senhor X é um personagem quase absurdo que vive na minha rua lá no sul. E digo isso porque ele é um dos maiores tigres que conheci na vida.

Uma vez, motorista das kombis que a Zero Hora usava para entregar seus jornais, capotou o carro e, reza a lenda, dele saiu com dificuldades – dadas suas proporções exageradas, já próximas dos 100 quilos – mas correu ao primeiro boteco que avistou ali próximo para tomar uma cerveja.

Outra proeza fantástica foi o fato de ele ter apanhado um ônibus – cujo final da linha era ali próximo – e ter dado umas voltinhas com ele. Foi a primeira das tantas vezes que a polícia bateu nele e na porta dele, não exatamente nessa ordem.

Mas as tigradas cobram o seu preço e, a considerar que nelas rugia a prática nada recomendável de consumo de drogas, as coisas apertaram para o meu antigo vizinho.

Hoje, sem nenhum móvel em casa, ele jaz em vida com uma perna gangrenada, fruto do uso excessivo de N substâncias. Não apenas a polícia, mas agora ambulâncias acorrem em seu socorro. E vira e mexe dizem que enfermeiros são lançados longe à tentativa de contê-lo e levá-lo para o hospital.

Noite dessas sonhei que ele morrera e, num contato com minha mãe, ela me certificou de que não. O caos e a decadência ainda imperavam. Eu torço para que o inferno dê uma trégua, apesar de tudo. E por que?

Não sei se classifico o Senhor X como amigo dado que não convivemos tão proximamente senão quando, num ímpeto suicida meu, na sala da casa dele, quis apoderar-me de droga suficiente para me levar à morte. Ele recusou-se a me entregar o produto, por mais dinheiro que eu pudesse lhe oferecer – na época não era muito.

Penso que essa recusa foi determinante para que eu estivesse hoje em São Paulo produzindo, razoavelmente feliz e atolado apenas nessa lástima de Parkinson – poderia ser pior seguramente.

De todo modo, agradeço muito a esta lenda do meu bairro antecipadamente seja pelos gestos tresloucados, pela sabedoria sóbria que raramente o iluminava, pelo conselho decisivo que ainda hoje me permite estar vencendo.

E preservo sua identidade pelo óbvio ululante.

Anderson Passos

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