Quatro anos

Era abril. Na minha terra fazia frio e de lá, numa noite, liguei no meu irmão aqui em São Paulo:

– Só preciso de um mês e de um chão para dormir.

Meu irmão disse-me não e não. As cachorras dele – duas à época – votavam com ele. Chorei, chorei como nunca antes talvez.

Terna, minha mãe viu meu desespero. E ela, que antes resistia que eu me fosse, finalmente disse-me um consolador:

– Vai, eu te ajudo.

Choro relembrando isso. Após a fala da minha mamita – beijos dona Sandrinha – fui à área ao lado de minha antiga casa e chorei abraçado à minha mascote Miúcha por pelo menos uma hora.

Vale registrar, sem ônus algum, que antes, minha mãe era só desconfiança daqueles Diana, representados pela Marina. Mal sabíamos – eu e a mama – que teríamos ainda a grata surpresa dos Mariano da Silva, do entusiasmado noivo dela à época – hoje um irmão e muito mais – o Ferdinando.

Mais louco ainda saber que uma menina conhecida via internet – como a Marina igualmente – seria minha acolhida generosa para uma amizade indefinível em palavras e mais surpreendente ainda em relação aos fatos protagonizados. Falo de Camila Gaya, de Paloma Angelo, de personagens que foram e dos raros que ainda ficaram no mais louco endereço da Vila Madalena.

Então veio o primeiro emprego, a carteira assinada e o salto mais ousado: morar só, o que ocorreu há exatos dois anos. Passo em que ainda persisto, em que ainda converso com minhas paredes, em que ainda canto a plenos pulmões junto às minhas pérolas musicais. Espaço acanhado, mas nem tanto. Limpo, sem ser brilhante. Acolhedor com quem merece.

E vim pra cá, no coração do centro da Pauliceia, graças à iniciativa da Marina Diana e do Ferdinando que juntaram meus cacarecos e, em duas viagens inesquecíveis, me fizeram chegar ao meu novo (agora já velho) endereço.

Como retribuir? Presença. Não de um Bradesco, mas vejamos:

Vi toda a escalada dos meus amigos de fé Marina e Ferdinando: o belo casamento, a morada inicial numa caprichada casa dos fundos dos pais dela. Finalmente a casa nova e as obras que a tornaram um palacete – onde pus mãos e risos à obra – e agora todos estamos às vésperas da espera do primo herdeiro Heitor.

E chega Natal e é sempre lá com os deles – meus também, lamento. Ano Novo é lá vez em quando. Páscoa agora tem caça ao coelho – que enlouquece as crianças e que eu nunca vi quando tinha a idade dos pequenos Guilherme e Beatriz. Aliás, pensou em festa, pensou Diana e Mariano da Silva.

A grande surpresa viria com a cumplicidade e amizade do Orlandinho, irmão da Marina. Outro dia vieram ele, Fernanda (esposa) e os já citados pequenos aqui em casa. Tremi e foi de plena felicidade.

Em São Paulo tenho pais postiços, que minha mãe reconhece, inclusive: dona Walkyria e seu Orlando Diana me concederam essa honra e espero sempre retribuir à altura da generosidade indescritível em palavras desses dois baluartes da vida.

São Paulo é solitária, desafiante, oscilante, suja, cultural, maluca, triste, arco de triunfo deste modesto escriba. Aqui cheguei há quatro anos. Vez em quando a solidão me oprime e me diz para ir embora. Chego quase ao ponto de ceder. Mas resisto.

Vem então a doença (Parkinson), dores musculares, caminhadas, tremores, ganho de peso, peso que não vai embora, ganho de problemas, dissabores. Parece o ensaio de fim do caminho. Parece, mas não é.

São Paulo foi e ainda me soa como a grande jornada a ser percorrida com sangue, suor, tremores e lágrimas, se necessário. É em tributo a essa cidade, às pessoas citadas acima que este blog – completando hoje três anos de existência – pausa os seus trabalhos para agradecer a toda essa turma por cada palavra, por cada gesto, pela aparentemente simples presença de cada um deles no caminho.

A todos eles o meu mais humilde muito obrigado, na esperança que as forças sigam sempre se renovando para permanecermos juntos, mesmo que vez em quando (e espero que raramente) distantes.

Anderson Passos

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