A causa gay

Cheguei em casa no domingo (10/6) que passou já era final da tarde, vindo da casa do meu irmão no bairro da Saúde, zona sul de São Paulo.

Mesmo assim, o que se via eram ruas tomadas por homossexuais de idades, fantasias e níveis de engajamento à causa, no mínimo, questionáveis quanto à forma e conteúdo.

Antes esclareço: sou favorável à legalização da união entre pessoas do mesmo sexo, bem como à criminalização, com penas rígidas, a quem comete ataques contra minorias em geral – entre os quais os homossexuais – seja os que redundam em agressão física seja os efetuados por pastores eletrônicos que vão para a televisão afirmar que “curam” homossexuais.

No entanto, ainda que o lema da Parada do Orgulho Gay remetesse a essas causas, não vi uma só pessoa presente ao evento ao menos familiarizada com a temática sugerida.

Desde a manhã, quando apanhei o metrô, flagrei travestis portando cintas ligas, meia arrastão e pesada maquiagem. De volta ao centro, como referi no começo, o mesmo festival de pessoas exercendo sua homossexualidade sem pudores seja em gestos e atos.

Daí que chegando em casa vim me perguntando: como é que essa turba quer sensibilizar a sociedade para suas demandas agindo de forma, no mínimo, carnavalesca? Que exercício de cidadania é este? Confesso que não entendo…

E, numa hora dessas, me vem à mente um cara respeitabilíssimo chamado Ney Matogrosso, pra mim um dos maiores talentos musicais desse país. O cantor sempre repete em entrevistas que jamais levantaria a bandeira homossexual e que se sente constrangido quando colocado diante de cenas da Parada do Orgulho Gay pois que a causa é posta no patamar do desperdício/ridícula por conta de comportamentos questionáveis, como a carícia explícita em praça pública ou as vestes extravagantes.

Não seria o caso de se fazer menos barulho e mais ativismo, lembrando por exemplo os casos de agressão física, que às vezes redundam em morte das vítimas? Isso daria um status de conscientização que, ao menos na minha percepção, é a menor das preocupações.

Ponderações a respeito serão aceitas neste espaço, evidentemente. Mas sem baixaria, por favor.

Anderson Passos

Anúncios

2 comentários sobre “A causa gay

  1. Perfeito, Anderson. Sou gay, mas desde 2006 me recuso a participar da Parada Gay de Sampa, evento que para mim, até aquele ano, era sagrado. Organizava um grupo grande de amigos simpatizantes, recebia gente de outros estados em minha casa, era uma data que eu considerava importante e me dedicava a ela. Mas daí, eu comecei a ver tanta baixaria, tanta vulgaridade sem qualquer propósito, que cansei. Tudo bem que tivesse esse lado péssimo de micareta, de carnaval fora de época (afinal estamos ao sul do Equador), mas que se conservasse o tom político e de protesto que houve nas primeiras edições. E acho perfeita a colocação de Ney Matogrosso, um cara sempre inteligente e que não tem o menor medo da (infelizmente) intransigente militância gay: ficar dando escândalo no meio da rua, em cima de carro alegórico não ajuda em nada no combate à homofobia, pelo contrário. Ninguém precisa ficar feito múmia num evento que tbem deve ser alegre, mas um pouco de elegância, bom senso e educação em público seria primordial pra que qualquer tipo de manifestação por diretos civis fosse levada a sério.
    Um abraço e parabéns pela texto lúcido e corajoso.

    • Olá Rodrigo:

      Obrigado pela leitura e pelo comentário igualmente sóbrio num terreno de discussão bastante radical, infelizmente. Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s