Joia da coroa

Lá se vai quase um mês sem remédios. Lá se vai quase um mês que meu amigo Parkinson adormece ou, raramente, me faz tremer leve.

O que será que trama o meu companheiro de jornada? Trama ou treme? Ou conspiram um e outro? Um é exatamente outro?

Eu sou só dúvidas desse meu acompanhante onipresente que desde dezembro último quer ser protagonista do meu tempo. Respeito sua vontade, mas muito me irrita sua persistência.

E, a dizer dos meus dias com nove, dez comprimidos diferentes a me limitarem cada vez mais, eu pensei que fosse cair num mergulho sem fim no abismo. E assim quase foi. Instintivamente eu pausei tudo para tentar ter dias melhores.

E, a dizer do meu salto solitário para o inferno, posso dizer que ergui uma rede resistente às trevas. E agora, de tal sorte flerto com a morte num saudoso whisky derramado garganta abaixo, lavando minha alma em fogo. Fogo de alívio de saber-me apenas vivo, registre-se.

Surpreso dessa minha paz ousada e destemida, conversei com minha neurologista Neusa Pires mostrando só e apenas cautela. E ela disse-me assim:

– Otimismo, otimismo. Comemore mesmo esse passo.

Assim, mesmo passados alguns dias da minha consulta mais recentee, sigo comemorando. E dividindo a doutora Nídia, com quem sofreu comigo, pouco ou tanto não importa.

E eu, antes submerso num barril de pólvora destruidor, agora respiro. Não de todo com alívio. Mas respiro. E essa sensação é pacificadora.

Anderson Passos

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