Paulinho da Portela

Na última semana, o modesto e genial Paulinho da Viola foi ao Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio de Janeiro, onde gravou um depoimento dos mais importantes sobre seu processo criativo, sobre o samba e sobre a proximidade dos seus 70 anos.

Paulinho reviu numa fala de aproximadamente seis horas a sua trajetória num auditório lotado por fãs, familiares e amigos como Monarco e Teresa Cristina. Os trabalhos foram conduzidos por Rosa Maria Araújo e teve como entrevistadores o compositor Elton Medeiros, o produtor musical e compositor Hermínio Bello de Carvalho, e os jornalistas Sérgio Cabral e Ruy Fabiano.

Como quem revisitasse um filme da memória, o músico lembrou de sua infância no bairro de Botafogo; da influência das reuniões musicais que seu pai – Paulo da Portela, também compositor da escola de Madureira – organizava em casa; do seu ingresso nas rodas de samba na casa da Tia Trindade, em Jacarepaguá e da criação da pioneira Velha Guarda da escola.

E fez uma revelação: como se dera e como se resolvera a briga que o compositor tivera com os dirigentes da Portela em 1977.

— Eu nunca comentei essa história, mas agora acho importante deixar registrado o que realmente aconteceu. Naquele momento, se começou a discutir muito o que era samba. Tinha gente que começou a dizer que o samba tinha que ser mais rápido, que o andamento tinha que acelerar, que tinha que acabar com esse samba mais arrastado, longo… Candeia era contra isso. Aí, em 1977, a Portela veio com o enredo “Mulher à brasileira”.

O sambista revelou a seguir que todos foram chamados para ouvir as composições daquele carnaval em uma casa no Joá, e não na quadra da Portela, como de costume a cada ano. Ao término da audição, o carnavalesco daquele ano disse não ter gostado de nenhum samba. Paulinho disse que Candeia e ele teriam proposto que então todos refizessem os sambas sob nova orientação. Mas a diretoria da escola replicou que não havia tempo para isso.

– Eu e Candeia votamos no samba de Jair do Cavaquinho porque “era o que tinha mais cara de Portela. Mas a composição vencedora foi a de Jair Amorim e Evaldo Gouveia, dois nomes novos na ala de compositores da escola.

O mais intrigante foi que o samba vencedor foi apresentado não como samba enredo, mas com uma levada de canção.

— Acho que já estava tudo combinado, mas acho que o Jair e o Evaldo nem sabiam disso. Aí dissemos que desse jeito iríamos sair, eu e Candeia. Foi parar no jornal e tudo, eles disseram que a gente não ia fazer falta… Mas aí depois de um tempo eu voltei.

No período em que ficou longe da asas da águia portelense, Paulinho da Viola participou da escola de samba Quilombo, de Candeia, que se propunha a ser um instrumento de resistência à comercialização do carnaval.

Durante o registro, Paulinho aumentou a expectativa dos fãs ao admitir que tem dois discos já gravados e trabalha num terceiro. Esse ano deve chegar às livrarias uma biografia de Paulinho da Portela. Um ano cheio sem dúvida. E o mestre merece.

Anderson Passos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s