Piquet sessentão

O portal G1, da Globo, pelo seu repórter Rodrigo Mattar, fez uma bela retrospectiva da carreira do Nelson Piquet, que completou 60 anos na última sexta-feira (17/8).

Vale a pena ler:

Tricampeão de F-1, Nelson Piquet completa 60 anos de irreverência

Dono de 23 vitórias, 24 poles e três títulos na categoria, ex-piloto não perde o estilo descontraído que o marcou fora das pistas

Por Rodrigo Mattar
Rio de Janeiro

O automobilismo brasileiro comemora nesta sexta-feira o aniversário de um de seus maiores nomes. O tricampeão mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet chega a 60 anos bem-vividos, sem nenhuma badalação. Como é costume de sua personalidade arredia, porém sarcástica, repleta de frases históricas e de efeito, alguns desafetos e muito sucesso no esporte a motor. Uma carreira que não se restringiu à categoria máxima do automobilismo, na qual conquistou 23 vitórias e 24 poles, mas também a provas importantes como as 500 Milhas de Indianápolis, as Mil Milhas Brasileiras e corridas internacionais de endurance, onde se aventurou após largar o circo da F-1. Protagonista de uma das maiores rivalidades das pistas em toda a história, que causou uma verdadeira divisão da torcida brasileira, Nelsão completa seis décadas de vida disposto a relaxar, mas segue ligado na carreira dos quatro filhos – de sete no total – que seguiram seus passos no mundo da velocidade.

Começo às escondidas

Carioca de nascimento, Piquet tornou-se um brasiliense de corpo e alma quando, no início da década de 1960, aportou na recém-nascida capital da república erguida por Juscelino Kubitschek, levado pelo pai Estácio Souto Maior e pela mãe, D. Clotilde Piquet Souto Maior. Caçula de uma família de quatro irmãos, Nelson desfrutou de maior liberdade – sem deixar de enfrentar a oposição do pai quando, ao abandonar os estudos após ganhar uma bolsa em Atlanta (EUA), onde se revelou um bom tenista, optou pelo automobilismo.
Nelson começou no kart, ostentando cabeleira e bigodinho, um visual que já cultivava nos tempos de mecânico na lendária oficina Camber, fundada por, entre outros, Alex Dias Ribeiro. Com Roberto Pupo Moreno, o “Baixo”, como companheiro de equipe e de aventuras, Piquet ganhou várias corridas e também passou a competir (e vencer) com um Fusca azul-escuro com o proverbial número 13 na lataria.

A estreia nos monopostos aconteceu em 1974, na Fórmula Super Vê. Uma jornada dupla para Nelson, que além de guiar também preparava o próprio carro. Àquela altura, ele assinava Piket no sobrenome, pois ainda enfrentava a resistência da família – especialmente a oposição paterna – devido ao seu envolvimento com o esporte a motor. Venceu corridas logo na primeira temporada, mas se sagrou campeão somente dois anos depois, com um carro impecavelmente preparado por Gilberto “Giba” Magalhães. Campeão, fez as malas e partiu para a Europa.

Na Fórmula 3, competiu por dois anos. Fez o Europeu em 1977 e foi terceiro, com duas vitórias. No inglês, já no ano seguinte, derrotou o compatriota Chico Serra, que a imprensa considerou o primeiro grande desafeto de Piquet no automobilismo, além do britânico Derek Warwick. Seu desempenho chamou a atenção do tricampeão mundial Jack Brabham, que Piquet considera como um dos seus maiores ídolos no automobilismo, e de muitos chefes de equipe de Fórmula 1.

Estreia na categoria máxima
Ainda naquele ano de 1978, estreou com um Ensign no GP da Alemanha, após um teste bem-sucedido com a McLaren M23 da pequena BS Fabrications, em Silverstone. E em sua quinta corrida apenas, já estava ao volante da Brabham, graças a um contrato assinado com Bernie Ecclestone, então chefe do time.

Nesta equipe, Piquet mostrou que era rápido, a ponto de deixar Niki Lauda para trás e o austríaco anunciar sua aposentadoria antes do fim do ano de 1979. Como primeiro piloto, o brasileiro formou uma parceria cheia de sucessos com o engenheiro sul-africano Gordon Murray, ajudado também pelos homens de confiança de Ecclestone: Charlie Whiting, hoje diretor de provas da FIA e na época chefe da equipe Brabham, e Herbie Blash, braço-direito de Bernie e então chefe dos mecânicos. À exceção de Murray, todos se reencontraram em Interlagos, quando Piquet deu uma volta comemorativa a bordo da Brabham BT49 do primeiro título mundial em 1981, relembrando os 30 anos da conquista.

Emoção à parte, Piquet revelou seu lado moleque e brincalhão. Sabendo que a volta era transmitida pela televisão, sacou do macacão uma bandeira do Vasco da Gama, seu clube de coração, e desfilou com ela ante o olhar incrédulo dos torcedores de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo em Interlagos.

Títulos e rivalidades à flor da pele
Pela Brabham, equipe que defendeu por sete temporadas, Piquet foi duas vezes campeão, em conquistas históricas derrotando o argentino Carlos Reutemann em 1981 e a esquadra francesa formada por Alain Prost, René Arnoux e Patrick Tambay, em 1983. Em meio às vitórias, ele foi protagonista de um momento jamais esquecido por seus fãs: a cômica cena de pugilato com o chileno Eliseo Salazar, no GP da Alemanha de 1982, quando foi tirado da pista pelo então retardatário.

Insatisfeito com a fragilidade do motor BMW, que o impossibilitou de disputar o título outrtas vezes na equipe onde mais fez amigos na Fórmula 1, transferiu-se para a Williams em 1986. Só que Frank Williams sofreu um acidente de carro, ficou paraplégico e o comando da equipe caiu nas mãos de Patrick Head, que privilegiava o companheiro Nigel Mansell. O sem-número de picuinhas e as frases de efeito de Piquet repercutiam, para a delícia da imprensa. Contra tudo e todos, Piquet foi 3º colocado no primeiro ano no time, perdendo o título por três pontos, mas sagrou-se tricampeão em 1987, com uma sequência de pódios que desnorteou Nigel Mansell a ponto do “Leão” bater no treino livre do GP do Japão e jogar a toalha, entregando a taça ao companheiro e rival.

Piquet, aliás, usou deste expediente de chegar ao máximo de corridas possível em segundo, atrás do “idiota veloz” (palavras do próprio Nelson), após o grave acidente sofrido em 1º de maio, na famigerada curva Tamburello.

-Eu dormia de dez a doze horas de sono e passei a dormir muito mal. Aquela porrada me afetou psicologicamente – declarou à época.

Apesar dos dissabores, Piquet teve grandes momentos na Williams. A vitória no GP do Brasil de 1986 certamente está entre eles, numa inesquecível dobradinha com Ayrton Senna. Mas o principal, sem dúvida, é a histórica manobra de ultrapassagem sobre Ayrton Senna durante o GP da Hungria, naquele mesmo ano. Algo que o tricampeão Jackie Stewart, comentando para a TV britânica, descreveu como “dar um looping a bordo de um Boeing 747”. A manobra, vista e revista pelos fãs de automobilismo à exaustão, é considerada a maior da Fórmula 1 em todos os tempos.

Altos e baixos na despedida da F-1
Em 1988, Nelson trocou a Williams pela Lotus para fugir do ambiente nocivo que envolvia a relação entre ele, Head e Mansell e o tiro saiu pela culatra. A Lotus, já uma equipe em decadência, errou a mão no projeto do carro. E quando os motores Honda foram trocados pelos fracos Judd, a carreira de Piquet chegou a ser posta em dúvida. Some-se a isto o polêmico episódio dos testes de pneus pouco antes da temporada de 1988, quando comprou uma briga com Ayrton Senna, que dividiu “piquetistas” e “sennistas” e tornou os dois inimigos declarados. Mesmo após tudo isto, ele assinou um contrato de risco com a Benetton, contemplando US$ 100 mil por ponto marcado, para a temporada de 1990.

Aos 38 anos, Piquet ressurgiu como fênix das cinzas. Venceu as duas últimas corridas daquele ano – a da Austrália foi a 500ª da história da Fórmula 1 – e chegou em 3º lugar no Mundial. Com 44 pontos somados, afora os bônus, ele conseguiu lucrar nada menos que US$ 8 milhões. Em 1991 ele disputaria sua última temporada na categoria. Começou o ano tendo o velho camarada de Brasília Roberto Pupo Moreno como companheiro de equipe e acabou ao lado de um atrevido estreante alemão chamado Michael Schumacher. De bom mesmo, só a 23ª e última vitória no GP do Canadá (cortesia do velho rival Mansell) e a comemoração do 200º GP da carreira em Monza. Após o GP da Austrália, Piquet deixou a Fórmula 1 com 204 corridas disputadas, 23 vitórias, 24 pole positions, 23 voltas mais rápidas em prova e 60 pódios.

Novos ares
Sem perspectivas para a Fórmula 1 em 1992, recusando convites das fracas Ligier e da Larrousse, Nelson aceitou para aquele ano um novo desafio: disputar as 500 Milhas de Indianápolis. Assinou com John Menard e fez os primeiros treinos a bordo de um Lola com motor Buick derivado de um bloco em produção de série. O carro era dos mais rápidos na pista e ele vinha fazendo voltas próximas de 370 km/h de média, quando, no dia 8 de maio, se espatifou no muro da curva 4, sofrendo um horrendo acidente que lhe causou fraturas nos dois pés e nas duas pernas. Piquet foi salvo do pior pelas competentes mãos do Dr. Terry Trammell, o ortopedista mais conceituado do Hospital Metodista de Indianápolis. Mesmo com tudo isso, ainda voltou a Indianápolis para fazer o que não conseguira no ano anterior. Largou em 13º na corrida de 1993, mas logo abandonou.

Depois disto, suas participações como piloto tornaram-se esporádicas. Fez corridas longas, ganhando duas edições das Mil Milhas Brasileiras, uma delas com seu filho Nelsinho Piquet, em 2006. Esta foi, aliás, a última vitória de sua carreira. Fora das pistas, tornou-se um próspero empresário do ramo de rastreamento de veículos via satélite. Os números não mentem: Piquet, pai de sete filhos de diversos casamentos, deixará para seus herdeiros uma fortuna muito maior em relação a que conquistou em 13 anos de Fórmula 1.

Herdeiros no esporte a motor
No papel de pai, teve que interceder em favor de Nelsinho no escândalo do GP de Cingapura, após a demissão do filho no meio da temporada de 2009. A família Piquet chegou a ser processada por Flavio Briatore, mas o dirigente da Renault que mandou Nelsinho bater de propósito num muro do circuito de rua para favorecer Fernando Alonso acabou banido do automobilismo. Hoje, acompanha à distância o desempenho do filho mais velho Geraldo, que corre na Fórmula Truck, de Nelsinho, agora na Nascar, de Laszlo Alexander nas competições de Supermoto e de um dos caçulas, Pedro Estácio, que desponta no kart.

Ano passado, numa histórica entrevista a Reginaldo Leme no programa Linha de Chegada, quando mostrou ao público telespectador do SporTV uma coleção espetacular de carros que vão desde um modelo Rolls Royce Corniche até um Cadillac 1952, ano de nascimento do tricampeão, ele fez uma revelação que poucos sabiam.

– Há poucos anos atrás descobri que eu tinha uma má formação no coração e encontrei na Áustria um médico muito engraçado, que me falou que podia fazer muitas coisas para prolongar a vida. Ele me mandou trabalhar menos, beber, o que não consegui porque o álcool faz mal ao meu pé, e perguntou se minha mulher era chata. Mas eu não tenho mulher chata – afirmou, com a conhecida irreverência que sempre lhe acompanhou.

Mesmo fora das pistas, tocando seus negócios sem esquecer do convívio com os velhos amigos que conquistou ao longo da vida, dos passeios de motocicleta e de sua coleção de carros, jamais deixou de ter a admiração dos seus fãs. Que o consideram, sem pestanejar, o piloto mais completo que a Fórmula 1 teve a oportunidade de conhecer.

Anderson Passos

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