Jaguar mais do que vivo

Outro dia o grande jornalista e cartunista Jaguar fez uma crônica onde afirmava estar com câncer. Fez a coluna, assumiu o caso e sumiu. E uma onda de preocupação tomou quem acompanha seu trabalho. Felizmente, a Folha de S.Paulo foi até o Jaguar e ele sapecou preciso e sarcástico “Fui corneado por meu fígado”. Leiam a seguir a entrevista concedida a Marco Aurélio Canônico.

Pouco depois de completar 80 anos, em fevereiro desse ano, Sérgio Jaguaribe, o popular Jaguar, recebeu a notícia: ao fim de seis décadas tendo bebido o equivalente a “uma piscina olímpica” de álcool, seu fígado sucumbira à uma cirrose avançada, acompanhada de câncer.
Ou operava e parava de beber para sempre ou morreria.
“Eu tinha tanto orgulho do meu fígado, me senti hepaticamente corneado”, diz o cartunista, tão célebre pelo humor implacável quanto por sua paixão por um boteco e um trago –não por acaso, um de seus livros chama-se “Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico” (Record, R$ 29,90, 160 págs.).
Jaguar recebeu a Folha no apartamento em que vive com sua mulher, a médica Célia Pierantoni, no Leblon, sentado ao redor de uma mesa que comprou para o boteco que nunca abriu. Nas paredes, desenhos feitos por ele e por vários colegas famosos.
Recusando-se a ser chamado de “senhor”, falou sobre sua nova rotina sem o álcool, seus planos e suas histórias, sempre com a verve afiada que usa tanto para falar de si mesmo quanto dos outros.
Lembrou ainda de episódios marcantes deste ano, como as mortes de dois companheiros de “O Pasquim” (Millôr Fernandes e Ivan Lessa) e o aniversário de 80 anos de outro (Ziraldo).
Ao fim das mais de duas horas de conversa abaixo resumidas, fez apenas um pedido: ser fotografado com um copo de cerveja –sem álcool– na mão. “Senão o pessoal não me reconhece.”

Folha – Como está sua saúde?
Jaguar – Em vez de morrer até o fim do mês, talvez eu tenha mais uns seis meses (risos). Eu estou com cirrose e mais uns três ou quatro tumores foram extirpados. Fiz um exame na semana passada que mostrou que eu estou como o Brasil: parado. Não melhorou nem piorou.
A notícia pegou todo mundo de surpresa, não?
Inclusive eu. Andei fraco, me sentindo pesado, e meu médico me mandou ir a São Paulo fazer exames. Tudo apoiado por minha mulher, que é médica. Foi a maior burrice que já fiz. Eu não saberia até hoje que estava doente, estaria tomando minha birita.
Eu fui ao Sírio Libanês, me enfiaram naquele canudo que faz uns barulhos estranhíssimos, você tem de ficar imóvel. Esse exame exige nervos de aço, depois dele você pode ouvir o relator do mensalão por 12 horas seguidas sem mostrar sinais de tédio.
E o mensalão tem rendido muito tema para charge?
Isso aí é até covardia, né, rapaz? Os humoristas não podem se queixar. Se tivesse de fazer, faria três por dia, as ideias vão aparecendo sem o menor esforço. Profissionalmente, vou te contar, sou muito bom nisso. Sou metódico, acordo e leio todos os jornais. E, desde que comecei nessa profissão, nunca parei.
Nem pretende?
Não. Vou fazer o quê com as piadas que eu bolo? Acho ótimo, é uma maneira de eu sacanear os caras, né?
Tem vítimas preferenciais?
O poder. “Hay gobierno [soy contra]…” Isso é batata. Conheci o Lula quando o Henfil o levou para o “Pasquim”, eu era amigo dele, mas depois que virou poder…
Como vai a vida sem álcool?
Estou fazendo experiências, drinques para abstêmios. Faço um Bloody Mary com o suco de tomate temperado com tabasco, limão, pimenta em pó. E cerveja sem álcool. Porque, ao contrário de muita gente, eu gosto da cerveja pelo sabor. Para ficar de porre, eu tomava coisas mais expressivas.
Foi uma adaptação difícil?
Como dizia Dostoiévski, e o Zé Keti também, o homem se acostuma com tudo. Eu bebia porque gostava de ficar bêbado. O grande problema é que eu posso beber o quanto quiser que não fico bêbado.
Fiz uns cálculos: a quantidade de cerveja que bebi nos últimos 50 anos dá para encher um carro-pipa. Bebi quase uma piscina olímpica. Entre cinco e dez cervejas por dia. Fora Steinhäger, cachaça, tudo que você pode imaginar.
Eu me sinto corneado pelo meu fígado. Eu tinha um orgulho dele, rapaz. Eu não tenho sinais de cirrose, mas a redundância magnética [risos] me entregou. Eu sou o pé na cova com o aspecto mais saudável que eu conheço.
Ainda bem. Neste ano já perdemos outros do “Pasquim”.
Este ano foi bravo para o humor. Foi-se o Millôr, foi-se o Ivan Lessa. Ao Ziraldo, quando me convidou para os 80 anos dele, eu disse que ia estar no Sírio Libanês. Aliás, queria deixar registrado: a melhor empadinha de frango do Brasil é na lanchonete de lá. Recomendo vivamente.
A hotelaria do Sírio é um negócio fantástico, você morre muito bem (risos). Em suma, não sei quanto tenho de vida, mas é mais do que esperava.
Sempre disse que quero ser cremado, mas não tenho essa coisa poética de querer que minhas cinzas sejam espargidas no mar ou debaixo de um carvalho que meu avô plantou. Não, pega as cinzas, joga no vaso sanitário e puxa a descarga. Morreu, acabou.
Você tinha um projeto melhor, de distribuí-las pelos bares.
Isso ia ser pela festa. Queria ver se fazia isso antes de morrer; por que vou ficar de fora? É claro que ia demorar semanas para ir a todos os bares onde bebi no Rio.
Você mantinha contato com o Ivan e o Millôr?
Tinha muito contato no dia a dia do jornal. Aí, o Ivan foi para Londres, ele me escrevia, mas não sou de escrever.
O Henfil, quando foi para Nova York, me escrevia cartas diárias, eu lia e não respondia. Uma vez ele veio aqui e me perguntou: “E as minhas cartas? Queria elas para publicar, porque eu caprichava naquelas cartas”. Eu disse que tinha jogado fora, não sabia que ele estava escrevendo para a posteridade, achei que era pra mim. Ele ficou puto da vida.
Você brigou com Millôr quando ele criticou a indenização que você e Ziraldo receberam do governo, pela ditadura?
Não liguei, não. Ele tinha um espírito, digamos, udenista, aquele negócio moralista. O Millôr ficava escandalizado com a minha vida, com minha mania de frequentar favela, ser amigo de Zé Keti, Madame Satã. Ele ficava apoplético quando me via amicíssimo do [bicheiro] Castor de Andrade. Mas, para mim, o Millôr é o máximo. É o melhor intelectual brasileiro, o melhor cartunista brasileiro, qualquer coisa que ele fizesse, era o melhor.
Como andam suas relações com o Ziraldo?
É quase um casamento, somos amigos há 60 anos, já brigamos uma porrada de vezes. Agora estamos amigos, ele está curtindo meu câncer à beça (risos). Mas somos completamente diferentes, inclusive nesse negócio de aniversário. Ele transformou os 80 dele num evento e ficou chateado de eu não ir. Ele falou: “Você vai ser a pessoa mais importante da festa. Todo mundo vai perguntar, ‘cadê o Jaguar?'”.
E como é sua rotina de trabalho atualmente?
Eu trabalho no máximo até as 11h, e o mínimo possível. Faço só o estritamente necessário: uma charge às segundas, uma às quintas, uma piada sobre botecos para o “Boteco do Jaguar”. Agora que estou proibido de beber, vou fazer um livro sobre coquetéis, com historinhas e uma seleção desses desenhos que eu faço e que saem num suplemento de “O Dia”.
Eu estava pensando em escrever uma autobiografia, mas o Ruy Castro me disse: “Não, eu vou escrever, já está tudo na minha cabeça”. Minha autobiografia escrita por ele vai ficar muito melhor.
Desenhar é algo que consome muito tempo para você?
Não. Desenho rápido, não faço esboço. E não sei desenhar. Aqui no Brasil, qualquer pessoa que faz alguma coisa por mais de dez anos, mesmo não sabendo, é considerada boa. Quando mostrei meus desenhos pela primeira vez ao Millôr, ele falou: “Pô, o seu desenho é péssimo”.
E como um desenhista ruim influenciou tanta gente?
Vendo esses meninos de hoje, sinceramente, não me vejo numa lista de 20 [melhores] cartunistas. Tem o André Dahmer, o Laerte, o Angeli, aquele Adão, que não sei por que cortou o sobrenome. O Sieber. Eles são inteligentíssimos. Eu ainda consigo entender todos eles.

RAIO-X JAGUAR
VIDA
Nasceu Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, em 29 de fevereiro de 1932, no Rio
CARREIRA
Começou como cartunista em 1957, na “Manchete”; paralelamente, era escriturário no Banco do Brasil (onde ficou até 1974); foi um dos fundadores e o responsável por nomear “O Pasquim” (1969), além de ter criado o personagem-símbolo do jornal, o ratinho Sig; também participou da criação do bloco carnavalesco Banda de Ipanema (1964) e da revista “Bundas” (1999), com Ziraldo. Publica charges e uma coluna semanal no jornal carioca “O Dia”
PRINCIPAIS OBRAS
“Átila, Você É Bárbaro” (1968), “Ipanema – Se Não me Falha a Memória” (2000), “Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico” (2001), “Ninguém É Perfeito” (2008)

Anderson Passos

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