Triste reencontro

Um dos sujeitos que mais me ensinou o labor jornalístico foi o meu ex-chefe Luiz Paulo Ruschel Daudt. Trabalhamos juntos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul no longínquo 2003.

Ele como meu editor e eu como aprendiz no que no jargão jornalístico se chama rádio-escuta, isto é, acompanhar o que determinada emissora de rádio falava sobre o Parlamento gaúcho, ferramenta essencial da assessoria de imprensa.

Aprendi com o Daudt que escrever o nome do então presidente Lula, sem o apelido que o personagem incorporara ao seu nome real, era a praxe ali. Que pontos e vírgulas não deveriam ser separados por espaços porque, ensinou-me, “os espaços são muito úteis e não podem ser desperdiçados por mera estética”.

Lembro de um dia levar ao Daudt o meu hoje perdido exemplar de um trabalho primoroso do Arthur de Faria sobre o centenário da música no Rio Grande do Sul, com direito a libreto e cinco CDs. Paulo Ruschel – me foge o exato grau de parentesco com o Daudt – eclodia no texto como um dos autores de um clássico do nativismo gaúcho, Os Homens de Preto. O Daudt me relatava as façanhas do familiar compositor com comovente orgulho.

Combatente do modo petista, Daudt comentou ainda comigo sobre o libreto, que mais tarde ele adquiriria. “O Arthur escreve muito bem. Pena que é petista”.

Orgulho igual ele tinha de ser um amante da vida, transplantado de fígado que Daudt era. Ele ficou sem palavras ao me conceder entrevista sobre o assunto. Despedi-me do estágio em 2004, um ano antes da minha formatura. E os contatos com o Daudt foram rareando pelas circunstâncias.

Recentemente, curioso pelo destino de um dos meus mestres, digitei o nome dele no Google e uma resposta estarrecedora me empalideceu. Daudt falecera em agosto de 2010, às vésperas de completar 60 anos. Segurei o choro, calei na redação, achei a vida uma merda. Com quem trocar um e-mail animado sobre as vicissitudes do jornalismo? Contar a quem que migrei para São Paulo e me sentia feliz?

Desculpe, meu amigo. As palavras se esgotaram. Ficarei com seu sorriso e exemplo no coração. Grazzie.

Anderson Passos

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4 comentários sobre “Triste reencontro

  1. Oi Anderson, sou filha do Luiz Paulo e fiquei comovida com o texto e o carinho. Da mesma forma que você, sinto falta das palavras dele (que comumente ficavam impressas e me guiam ate hoje). Bom saber que – de certa forma – seus ideais seguem vivos em muitas pessoas.

    • Oi Ana:

      Comovido com sua mensagem. Reafirmo o inevitável: seu pai foi um chefe, um professor e um amigo destes que a gente não esquece jamais. Ele fez uma jornada muito bonita e corajosa aqui na terra e, tenho certeza, de onde estiver, está cuidando de vocês e de nós, seus humildes discípulos. Muito obrigado pela mensagem. Eu, dia desses, aposentei o blog, mas a sua passagem pela Ilha de Concreto me animou de forma tão tamanha que estou repensando a pausa dos trabalhos. Um beijo grande e forza sempre.

      • Você é um doce e, se me permite dizer, essa sua foto ilustra firmemente o sorrisão único do Daudt. Leve meu abraço à toda a família. Besos

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