Monomotor (bagagem inalienável)

Antes de começar a leitura, vá ao Youtube e carregue a faixa Solidão Que Nada. Tá, aqui vai o link. Foi a faixa que me martelou a cabeça enquanto eu traçava cada linha. Isto feito, aproveite a viagem.

– Diante da instabilidade do voo, o comandante pede aos passageiros que selecionem suas bagagens e livrem-se dos excessos – cravou a aeromoça.

Eu não sonhava que aeromoças podiam, nem que fosse num rompante, surgir num monomotor. E apegado à minha bagagem, não movi músculo qualquer.

A mulher começou a passar lentamente entre as poltronas e eu, no fundo da aeronave, fazia meu mantra.

– Todos vão jogar tanta coisa fora que eu serei poupado.

E a mulher veio vindo, veio vindo, até que finalmente chegou onde eu estava.

– Senhor, já checou sua bagagem?

– Tenho pouquíssima coisa. – respondi acabrunhado.

– Os demais passageiros idem e o voo está em risco. O senhor precisa colaborar.

Atalhei:

– Mas não vi ninguém jogando nada pela janela.

– As pessoas estão selecionando os pertences mais pesados e peço que o senhor faça o mesmo. – disse a mulher impassível.

Como o assento a meu lado estivesse vago, ela sentou-se disposta.

– Posso ajudá-lo. De onde o senhor vem?

Surpreso, exclamei.

– Que pergunta. Embarcamos juntos no mesmo lugar!

– Perguntei de que bairro. O que o senhor fazia lá? Diante desse monte de malas, imagino que está indo embora ou voltando pra algum lugar.

Ela vencera. Expliquei que estava partindo. E que o que mais pesava nas minhas posses era inalienável.

As malas desceram ao compartimento de cargas, a aeronave ficou mais leve e seguimos viagem.

Algum tempo depois a aeromoça voltou, sentou-se ao meu lado e perguntou da minha “bagagem inalienável”. Não tive palavras senão lágrimas.

Quando embarcara levara comigo sonhos, a sorte de um amor tranquilo, um tanto de esperança, um novo horizonte. Mas tudo isso voltou comigo como um quadro cujo vidro da moldura se espatifou. O amor foi só passageiro do lado de lá. Fora devastador e devastado cá. O horizonte era turvo, misterioso. Que esperança que nada. E eu nunca mais sonhara

Não havia palavras, não havia mais nada.

Anderson Passos

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