Um fantasma

Ao menos em São Paulo viu-se eclodir nesta quinta-feira (20), durante os festejos do Movimento Passe Livre (MPL) pela queda das tarifas de transporte, um grupo radical que impedia que bandeiras de partidos fossem entoadas.

Relatos de colegas que lá estiveram – o jornal onde trabalho vetou minha presença no local desta feita – apontam que grupos de extrema-direita, entoando “fora Dilma” e rasgando bandeiras e surrando militantes – inclusive com tacos de beisebol – mancharam a marcha de mais de cem mil pessoas pela Paulista.

E a tal ponto de o MPL recolher seu bloco da rua. Os protestos que ainda ecoam pelo País – e talvez ainda mais nos costados da presidente – entoam odes ao fim da Copa, pedem mais qualidade na saúde e na educação e, em paralelo, promovem vandalismo, o que demonstra que o movimento chega ao raiar perigoso da perda de foco.

Virou uma triste batalha ideológica quase infantil uma vez que esse País só será consertado de vez se tivermos partidos fortes, parlamentares comprometidos e voto mais do que consciente. Se essa premissa sair da pauta, será o império do descalabro.

Anderson Passos

Refúgio e retorno (2)

Andei alguns metros, aproximei-me da Estação Clínicas do metrô e esperei ainda por um estalo do meu sexto sentido para abandonar o plano de ir a pé. Sem estalo algum, retomei o plano inicial.

Chegando na esquina da Paulista com Consolação, percebi que minha intuição estava certa. Não havia como transpor a região de carro ou transporte coletivo. Donde me pus a andar.

Chegando nas proximidades do Cemitério da Consolação, deparei-me com uma verdadeira operação de guerra: viaturas da fiscalização de trânsito, caminhões de lixo, varredores, guarda civil, Polícia Militar. Verdadeiros exércitos.

Andando mais alguns minutos, transpus de todo a área frontal do cemitério e carros pipa lavavam as calçadas com jatos d’água possantes dos dois lados da via.

Então, lancei os olhos em direção ao Viaduto Costa e Silva – o famoso e sugestivo Minhocão – e o mar de gente e de luzes era assustador.

Anderson Passos

Carros x ciclistas (1)

Desde que o mundo é mundo – e o trânsito é trânsito – motoristas e ciclistas não dialogam. Na verdade, quase sempre estão em guerra, com ampla desvantagem para os últimos.

Um caso horrendo ocorreu no último final de semana em São Paulo quando um motorista atropelou um ciclista em plena Avenida Paulista, com o detalhe horrendo de que o braço da vítima foi decepado. O motorista, que estava embriagado – e veremos até quando ficará preso – jogou o braço da vítima num rio.

Eu, que ganhei recentemente uma bicicleta, penso em adotar uma armadura para poder trafegar com alguma segurança nessa cidade.

Anderson Passos

Não compre produto pirata

Vou narrar uma tragicomédia. Começa assim: subíamos eu e meu irmão a Rua Augusta, onde eu esperava encontrar camelôs que me vendessem filmes piratas do momento. Ok, vou confessar: eu queria ver o Batman e não deixar 40 mangos no cinema.

No meio da subida, senti um fincão. Suei frio, devo ter tremido e meu irmão, com ar de preocupação, perguntou:

– Algum problema?

– Tudo bem… – respondi

Ato contínuo, meu estômago disse algo como:

– Gloerguinhdgfdfvgddf

Chegamos ao camelot, achei o Batman e outros títulos e deixei R$ 20 com o trabalhador informal. O sol era de rachar. Nisso, eu e meu irmão nos separamos na Avenida Paulista e meu estômago e eu travávamos diálogos desconexos. Ele avisando que ia despejar toda a fossa. E eu pedindo “não, não, não”.

Chequei à esquina da Paulista com a Consolação e, tentando ser otimista, disse sussurrando:

– Em 20 minutos estou em casa e nada, nada vai acontecer.

Nem 20 minutos se foram e eu estava na metade do caminho, me contorcendo, cuidando para que ninguém estivesse vindo logo atrás de mim. Meu estômago gritava, napoleôneco a essas alturas.

– Gransashdsdaidadad.

Pensei comigo então:

– Que bom que estou de calça. Se eu me borrar perna abaixo ninguém verá nada. Mas não, eu não vou me borrar.

Mas, fato é que, para que eu me borrasse perna abaixo, bastaria um susto. E ele veio: eis que do nada, surgido como uma miragem maledeta, um mendigo veio me pedir fogo para seu cigarro de palha.

Eu, claro, só tinha gases, até então. Pois o mascote dele, vira lata de grande porte e cara de faminto, veio me cheirar. E, pensando que o canino me arrancaria uma perna, tentei apressar o passo.

A seguir meus músculos todos cederam, e suei, e perdi a respiração e flocos de mierda começaram a rondar minha calça como aqueles balões que as crianças punham dentro das calças para depois estourarem a agulhadas numa daquelas gincanas do Silvio Santos no Domingo no Parque.

O cachorro que me ameaçava, farejou o horror e correu de mim com olhos de quem diz:

– Catzo, esse tá fedendo mais do que o meu dono.

Chegando em casa, 40 minutos depois do primeiro fincão, só pude concluir:

– Não compre produto pirata. Deus castiga.

Anderson Passos

A madre do Picumã

Outro dia eu fui ao Dr Abílio – nome pelo qual chamo a rede de supermercados Pão de Açúcar – da Consolação com Alameda Santos quando, já na ida para a fila do caixa, postei-me atrás de uma senhora. Fazia um calor graúdo e ela estava carregada de roupas de lã, pasmem.

Era o caixa mais vazio na loja e eu disse feliz entre os meus botões, olhando para as duas bandeijaças de comida japonesa que comprara:

– Bora correr e almoçar logo em casa.

A senhora à minha frente já estava por ir embora. O que atrapalhava é que ela mexia na bolsa velha a procura de uns trocados.

Então respirei fundo e percebi que daquela senhora vinha um mau cheiro abominável que não sei precisar em palavras. Daí o caixa vazio. O picumã que vinha da senhorinha parecia vindo de um vestiário masculino pós jogo de futebol.

Até que, finalmente, a senhhorinha pagou seu modestíssimo pedaço de galinha – creio que comprara duas patas – e eu passei minhas duas bandeijolas japas a 180 por hora para a atendente. Então a senhorinha me arguiu:

– Quanto está o quilo da carne?

Como faltava a parte de baixo da arcada da senhorinha, ela mais cuspia do que dizia algo. Presenteado pela ducha repentina, respondi um “não sei” sem olhar pra ela. Vai que ela me recriminasse e me cuspisse mais.

Não satisfeita, ela me perguntou, olhando para minhas bandeijas:

– Isso é de comer?

Afirmei que sim com um leve gesto de cabeça. O mau cheiro da senhorinha parecia se ganhar poderes sobrenaturais a cada sílaba que se dirigia a ela.

A caixa então informou um preço da carne de gado aleatoriamente para a senhorinha, que reclamou do alto custo. Até que finalmente ela saiu rumo à Avenida Paulista. Saí em seguida, mas com o cuidado de deixar a senhorinha e seu odor abominável ganhassem boa distância.

No entanto, São Paulo vez em quando parece pequeníssima apesar do seu gigantismo. Já encontrei a tiazinha em frente ao Cemitério da Consolação, em andanças aqui perto de casa e, claro, sempre que vou ao referido Dr Abílio, lá está ela a reclamar do alto preço da carne.

Anderson Passos

Andarilho

Ando, ando, ando na São Paulo quase vazia, passado o feriado. Ora chove fino, ora mais forte.

A minha passada se alinha às músicas que tocam no I Pod. Assim, ora ela é mais rápida, ora mais lenta e reflexiva.

Higienópolis soa tão estranha com a calmaria de trânsito inacreditavelmente ordeiro e pedestres mais ainda.

Meia hora se vai e chego à Consolação esquina com a Paulista. Preciso seguir enquanto espocam flashes de uma máquina fotográfica digital, que flagra três jovens afeminados no local. Me esquivo do flash. Apresso o passo.

Sem demora me deparo com luzes falsas vindas de uma falsa casa de deus. Arranco na passada.

Logo estou em frente ao cemitério da Consolação. Meu passo parece enlutado. Mas não. É reflexivo. Prefiro as luzes que iluminam os anjos que vigiam as tumbas dali. Invejo a paz daqueles mortos. Invejo aquele silêncio.

Preciso seguir. Ando pelo meio da rua. Ando, ando e ando. Poucos minutos se vão, a noite definitivamente cai, as luzes artificiais ganham robustez e entro em casa. Não quero me ver ofuscado. Não quero que a memória das luzes me arranque o sono que me ronda agora. Entro no apartamento. O telefone não toca. Não há sequer mensagem. Não tocará nunca mais, imagino.

Que venha o silêncio. Que venham os anjos da Consolação me levar daqui.

Anderson Passos

Facada no Dr Abílio

Já escrevi aqui o quão grato eu sou ao Dr. Abílio, o dono da rede de supermercados Pão de Açúcar. E tanto é assim que não chamo as lojas desse jeito e sim de Dr Abílio e estamos conversados. E sou grato porque lá encontro de tudo, com absoluta variedade.

Pois num final de semana desses fui à unidade da Paulista com a Consolação a fim de apanhar duas generosas bandeijas da culinária japonesa. Eu despertara num sábado (8/10) com essa ideia na cachola e essa gana em minhas famintas entranhas.

Nos meus tempos de Vila Madalena, uma bandeija daquelas não me sairia por mais de R$ 20. Menos até.

Mas aí teve o tsunami no Japão no começo do ano e sempre se disse que os produtos oriundos de lá seriam majorados de forma graúda, coisa que eu não sentira até então.

Volto à loja e, sem demora, encontro as bandeijas apenas com o peso de 410 gramas figurando em cada uma delas. Apanhei duas sem titubear e fui ao caixa sem mais nada adquirir.

E não apanhar mais nada foi a sorte minha. O valor total da compra somou escandalosos R$ 60,00 que, não fosse pela minha obsessão de comer uma iguaria japonesa no final de semana, ficaria por ali mesmo sob protesto.

Ano que vem eu volto a comer as bandeijolas japonesas do Dr. Abílio. Só abro exceção se o preço voltar a patamares razoáveis.

Anderson Passos