O pintor do capacete de Senna

Registro texto de obituário da Folha de S.Paulo ^publicado nessa semana, sobre a morte de Cid Moska. O artista é autor da pintura do já emblemático capacete de Ayrton Senna da Silva.

O pintor do capacete do Senna

Poucos dias antes de viajar para disputar o Mundial de Kart, no fim dos anos 70, Ayrton Senna procurou Cloacyr Sidney Mosca em São Paulo. O piloto precisava ter o capacete pintado com as cores da bandeira do Brasil, como exigia o regulamento da corrida.
Sid Mosca achou que o verde ficaria feio e por isso cobriu o capacete de amarelo, riscando nele duas faixas horizontais: uma verde e outra azul. Criou ali um símbolo.
Senna adorou o resultado do trabalho, feito em apenas dois dias, e manteve a pintura ao longo de toda a carreira, transformando-a na mais conhecida do automobilismo.
Natural de Jaú (SP), Sid veio criança para São Paulo. Do pai, motorista e mecânico, herdou a paixão pelos carros. Por influência de um primo, interessou-se pela pintura de automóveis. Acabou abrindo uma funilaria.
Na década de 70, chegou a correr, mas o destaque não veio como piloto e, sim, pela pintura que fez no carro. Os pedidos foram tantos que ele se especializou na arte de colorir capacetes e automóveis.
Segundo o filho Alan, que aprendeu o ofício com o pai, o primeiro a projetar o negócio foi Emerson Fittipaldi. A maioria dos brasileiros na F-1 tinham um “Painted by Sid-Brasil”, como Barrichello, Massa e Piquet, autor do próprio desenho.
Perfeccionista, acreditava que se a pintura cumprisse as próprias exigências, o resultado iria agradar o cliente.
Há uns três anos, por causa de um câncer, passou o ateliê em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, para o filho. Morreu na madrugada de ontem, aos 74. Deixa viúva, dois filhos e três netos.

Anderson Passos

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Adrian Newey

Para quem não é familiarizado com o mundo da Fórmula 1, o sujeito do título é considerado um dos magos da categoria no quesito projeção de automóveis.

É dele, por exemplo, o projeto do Red Bull conduzido pelo virtual bicampeão Sebastian Vettel (Alemanha) e seu companheiro Mark Weber (Austrália).

Mas Newey tem uma chaga no currículo. É dele o projeto do Williams F16 de 1994 pilotado por Ayrton Senna, morto após um terrível acidente na curva Tamburello, em Ímola (Itália).

Numa entrevista recente ao The Guardian, da Inglaterra – cujo conteúdo extraio do blog do excelente Fábio Seixas – Newey levantou outra hipótese para a causa do acidente fatal do piloto brasileiro: um furo do pneu traseiro direito, que teria forçado o carro a uma saída repentina de pista.

Leiam a tese:

“Não há dúvidas de que o projeto [da coluna de direção] era ruim, mas as evidências mostram que a escapada do carro não foi resultado da quebra da coluna. Se você analisar as tomadas das câmeras, principalmente a do carro do Schumacher, que vinha logo atrás, verá que o carro não escapa de frente. Escapa de traseira, o que não é sinal de quebra da coluna de direção. A traseira abaixa de repente, e todos os dados sugerem que isso realmente aconteceu. Ayrton então tira 50% o pé do acelerador, o que seria suficiente para corrigir a rota, mas logo depois pisa forte nos freios. A questão é o motivo desse comportamento na traseira.”

Continua Newey…

“A traseira do carro abaixou muito naquela segunda volta, o que, de novo, é algo estranho já que a pressão dos pneus deveria ter voltado àquela altura da prova. O que me leva a crer que provavelmente o pneu traseiro direito sofreu um furo ao passar pelos detritos na pista. Se eu fosse obrigado a apontar um único motivo para o acidente, seria este.”

É uma tese a mais a se analisar. No entanto, este é um caso em que apenas a vítima, Senna, com sua sensibilidade de piloto, poderia elencar a sucessão de causas para a tragédia.

Anderson Passos

Mais do mesmo na F1?

Inicio a escrita faltando pouco mais de duas horas para o início da temporada 2011 da Fórmula 1. Prometi abandonar o esporte no ano passado depois que Felipe Massa entregou posição para Fernando Alonso.

Mas o diabo do gosto pela velocidade é teimoso e eu vou madrugar para ver a corrida ou o mais do mesmo que se anuncia para 2011.

Não vi o treino oficial, mas de novo a Ferrari começa o ano atrás de Red Bull e McLaren, o que é entendiante. A pole do campeão Sebastian Vettel anuncia igualmente uma temporada monótona.

Ainda mais quando se olha para os pilotos brasileiros cometendo erros primários. Nunca tive tantas saudades do Ayrton Senna e do Nelson Piquet como nesses dias.

Mas enfim, tomara que a corrida de Melbourne, na Austrália, e a temporada, como um todo, fujam do script que parece estar de antemão desenhado.

Upload concreto: e Vettel venceu com folga, Massa chegou apenas em 7º e Rubens Barrichello. Bom, o Barrichello bateu, foi punido. O mais do mesmo…

Anderson Passos

Grandes imagens de 2010 (3)

Eu e mamita visitamos o museu em que se tornou a casa do meu irmão em Sampa

Passamos a virada de 2010 para 2011 em meio às peças de museu da casa do meu irmão. Vide o capacete do Ayrton Senna na cristaleira logo atrás de nós, à esquerda. A tal cristaleira, aliás, tem miniaturas de carros de fazer inveja a muitos colecionadores – tese do meu irmão, que de humilde não tem nada.

Mas o que eu quero dizer é que eu e mama, verdadeiramente, batemos muita perna na passagem dela por São Paulo. Fomos ao Viaduto do Chá, desbravamos a Avenida Paulista, o centro velho e sua arquitetura única, a Sé, um balaio de coisas. Tudo devidamente registrado em fotos da máquina analógica dela.

Agora mesmo ela reivindica uma digital porque “esse negócio de máquina com filme já tá dando trabalho pra revelar”. O pedido será atendido, mamita…

Anderson Passos

A leitura que salva

Ontem (3/12), como quase todos os dias, bateu o sinal das 20h no jornal e pedi licença para me mandar, prontamente atendida pela minha editora.

Cheguei ao ponto com folga e, diante do temporal que caiu na cidade, imaginei que o coletivo que me levaria para casa atrasaria. Até aí nenhuma novidade.

Ocorre que, ao avançar um pouco mais pelas avenidas Chucri Zaidan e pela Berrini, vi uma deprimente multiplicações de luzes. Não, não eram apenas as malditas luzes natalinas nas vitrines, mas a luz vermelha dos faróis dos carros indicando que a volta para casa seria um martírio.

O que me salvou foi a leitura da coletânea Playboy, As melhores Entrevistas. Devorando a obra, você se depara com entrevistas com nomes como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Chico Buarque, o então famoso caçador de marajás Fernando Collor, Caetano Veloso, Henfil, Pelé, entre outros.

Eu avançava na leitura em altas passadas rumo ao final do livro e cheguei às entrevistas finais com o Tim Maia e o Tom Jobim. Nisso, o trânsito simplesmente não mexia e houve quem abandonasse o coletivo para seguir à pé. Como eu me via ainda longe de casa, não poderia fazer a mesma opção.

Lá pelas tantas, avanço pelas tigradas monumentais do Tim Maia confessadas ao Ruy Castro, quando a pergunta fatal sobre a iniciação sexual do gênio da soul music brasileira eclodiu. Tim não hesitou.

– Foi na Tijuca, com uma amiga nossa chamada Marisa Boca-de-Merda, porque ela tinha um mau hálito horroroso. Todos nós comemos – Eu, o Roberto, o Erasmo.

Entrei em surto quando li a revelação e me vi chorando de rir, pois gargalhar em meio aquele caos no trâsito era impossível.

Fui pisar em casa 22h30, duas horas e meia depois de tentar sair do trabalho. A leitura do livro me salvou de cometer um desatino.

Anderson Passos