Ficção (1) Final

Quem está seguro? – Parte X

Queiroz não respondeu imediatamente ao que ouvira. Apenas prendeu a respiração e desligou. Já não tinha mais pressa e foi ao bar de seu apartamento, onde apanhou uma garrafa de whisky e serviu uma dose.

Em poucos minutos, o fone de Queiroz voltou a tocar e ele atendeu. Dessa vez o interlocutor confirmava que o plano havia sido um sucesso.

— Balestre já era. A sobrinha do homem ficou bem machucada, mas falei com o hospital e estou monitorando.

— Você acha que ela corre riscos?

— Ela estava com o cinto. E o bonitão ficou em cima dela e amorteceu. Esse sim se quebrou bonito.

— Posso dizer para o chefe que ela vai ficar bem?

— Pode, pode tranquilizar o homem.

— Não vai me ferrar de novo, hein ô Barata?

— Relaxa, Queiroz. Tou marcando de cima. Fica tranquilo.

Desligaram. Queiroz molhou a garganta com o whisky e, ainda com o fone nas mãos, fez outra ligação. Respirou fundo antes de falar, até que ouviu o retorno do outro lado.

— Alô, Dr. Tenório? Tenho uma boa e uma má notícia…

Com tato, Queiroz contou com cuidado do acidente que ocorrera. Mas foi gravemente interrompido.

— Minha sobrinha! — exclamou o Dr. Tenório alarmado.

— Não se preocupe, ela vai ficar bem. Estou cuidando de tudo.

— Mas e o “bonitão”?

— Não escapou.

— Mas me fala. E a menina?

— Machucada, chefe. Mas me informei com o nosso pessoal no hospital e ela não sofreu mais danos porque o pilantra estava abraçado nela na hora do impacto.

— Posso ficar tranquilo, Queiroz?

— Deve patrão.

— Amanhã cuido do seu depósito. E você desapareça, já sabe.

— Desaparecer é comigo mesmo, Dr. Tenório. — admitiu Queiroz sem modéstia.

Com a morte de Balestre, Dr. Tenório livrou-se de um peso e tanto. Há poucos meses o sujeito procurou o renomado corretor dizendo ter imagens e documentos comprometedores sugerindo que Dolores não era sua sobrinha, e sim sua amante.

Acuado, Dr. Tenório, considerado um modelo de empresário e líder de uma influente família da sociedade local, esboçou fazer uma contra-proposta para comprar o silêncio do impostor.

Mas Balestre caiu numa célebre armadilha ou pecado: a cobiça. Ao invés de pedir dinheiro e desaparecer do mapa, Balestre optou por trabalhar numa das corretoras de propriedade do Dr. Tenório. O objetivo do sacripanta era, quem sabe, descortinar mais podres e dispensar seu colega de empreitada, o ex-policial Queiroz.

Não muito mais tarde, no passo que seria decisivo, Balestre então pediria sua grana alta e, já tendo conquistado Dolores, conforme acreditava que conseguiria, seu plano era fugir com a amante do corretor.

No entanto, numa jogada de contra-espionagem, Dr. Tenório pediu tempo e tratou de empregar Balestre numa de suas empresas mais diminutas. A velha raposa ainda pediu especial atenção de Melchíades ante o novo funcionário. Em outra frente, através de um detetive particular, descobriu quem fizera as imagens e obtivera documentos que o ligavam à jovem amante.

Assim, chegou a Queiroz e a ele ofereceu uma boa quantidade de dinheiro para eliminar Balestre, fosse como fosse. Dinheiro suficiente para Queiroz deixar o país e esquecer por um tempo seu ofício de espionagem.

Anderson Passos

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Ficção (1)

Quem está seguro? – Parte XIV

O choque do carro foi violento. Balestre ainda conseguiu proteger a caroneira, mas os estilhaços do parabrisa e parte da carenagem do carro deixou os dois presos nas ferragens e gravemente feridos.

O socorro levou em torno de 20 minutos para chegar, por conta do bloqueio da via. Bombeiros foram acionados para serrar os destroços do carro. Balestre estava inconsciente e praticamente abraçado à Dolores, que estava desmaiada e ficou presa pelas pernas. Ele tivera o braço esquerdo estilhaçado enquanto o direito também sofrera inúmeras fraturas. A cabeça estava cravejada de estilhaços. A coluna provavelmente sofreria danos irreparáveis, já que ele foi pego de lado e não usava o cinto de segurança.

Passada aproximadamente meia hora do ocorrido, os bombeiros finalmente conseguiram chegar até Balestre e, com cuidado redobrado o tiraram dali. Não demorou muito e Dolores foi removida.

No aeroporto, Dr. Tenório aguardava a sobrinha com os documentos, sem saber de nada. Em casa, Queiroz zapeava os canais quando deteve-se no noticiário de trânsito e reconheceu o carro de Balestre e esfregou os olhos repetidas vezes tentando acreditar no que via.

Até que acendeu um cigarro e correu ao telefone. Precisava saber o que se passava.

Enquanto isso, o marido de Dolores, o despachante Eduardo, que vinha em sentido exatamente contrário ao local do acidente, se desesperava com o fato de que quem estava à sua frente, e na pista contrária, andava lentamente, como a velar as vítimas do acidente que sucedera.

— Bando de urubus. — reagiu em voz alta ao volante.

Levaria ainda mais meia hora para o marido de Dolores cruzar pelo local do acidente. Por sobre a mureta que separava as pistas, conferiu o estrago, mas não imaginou o drama que se reservava para ele.

Quando chegou ao centro da cidade, onde pretendia correr com a documentação de alguns clientes numa repartição de trânsito, encontrou um amigo taxista, para quem se queixou.

— Rapaz, peguei um congestionamento monstro na vinda para cá.

Até que foi interrompido pelo toque do celular. O telefonema partira do hospital onde Dolores estava. Ouviu a notícia, o relato da gravidade do quadro e não conseguiu dizer nada. Empalideceu apenas e caiu desmaiado ao lado do amigo, que o amparou.

Antes de sair de casa e tentar localizar Balestre, o telefone bateu na casa de Queiroz. Alguém lhe passava o que sucedera na rodovia.

— Saiu tudo muito perfeito. Nosso amigo virou sardinha.

Anderson Passos

Ficção (1)

Quem está seguro? – Parte VIII

A caminho do aeroporto, Balestre iniciou a ofensiva.

— Eu tenho duas perguntas, mas você responde se quiser. Não se sinta pressionada. Promete?

A outra olhava para o nada, pela janela do passageiro e fingiu não ouvir.

— Ei — insistiu Balestre.

— Ah, desculpe. A cabeça está meio longe.

— O que vamos fazer no aeroporto? — tentou amenizar ele.

— Eu vou ao aeroporto. Você fica no carro.

— Entendi.

Balestre ligou o rádio para buscar em si uma solução porque, de repente, Dolores se fechara. E ele precisava atalhar e chegar no coração da jovem.

— Demora muito pra chegar no aeroporto?

— Olha, estou dando o máximo aqui, mas com esses radares, fiscais de trânsito, não se pode descuidar. Mas vamos chegar em tempo. Garanto. — tranquilizou Balestre.

— Desculpe pela cena no escritório.

— Quer falar sobre isso?

— Ainda estou muito chateada.

— Mas, de repente, conversar sobre isso pode te deixar mais calma. Estou te achando muito nervosa. — disparou Balestre.

Mas Dolores foi objetiva.

— É prudente não avançar nisso.

— Ok. Vou sintonizar uma rádio que nos diga como anda o tráfego.

— Ótimo. — respondeu Dolores enquanto uma lágrima espessa lhe escapou dos olhos.

Balestre viu a cena e percebeu o esforço de Dolores em disfarçar. Demonstrando elegância, estendeu o braço direito no porta luvas, onde pretendia apanhar um lenço. Mas, poucos metros adiante, um caminhão freou bruscamente, ameaçando aquele gesto cortês definitivamente.

Anderson Passos

Ficção (1)

Quem está seguro? – Parte VII

Dolores se refez do choro e da mágoa ao atender o telefone e ouvir a voz do Dr.Tenório do outro lado da linha.

— Dolores, eu preciso de um favor muito importante. Eu tenho uma reunião fora da cidade com um grande cliente. Eu preciso que você me encontre no aeroporto em duas horas. É urgente.

— Vou sair daqui imediatamente, tio.

— Faça isso. Te espero no saguão principal. Me dê um sinal no celular que vou ao seu encontro, certo?

— Sim, meu tio.

— Em casa, tudo certo? — perguntou o tio.

— Tudo certo. Vou me apressar por aqui, tio. — desconversou Dolores.

— Te encontro no aeroporto.

Desligaram. Melchíades ficou fitando Dolores longamente, enquanto ela abaixou a cabeça sobre os papéis que estavam na sua mesa e os ordenou com rapidez. Balestre ingressou na sala, mas dessa vez seu celular tocou e ele saiu do escritório para atender. Depois de bater a porta e andar um pouco pelo corredor rumo à escadaria do prédio da corretora, ele disse.

— Queiroz, não é boa hora para ligar. Estou quase laçando a Dolores, rapaz — rechaçou Balestre.

— Conta logo. — cobrou Queiroz.

— Sossega leão. Em tempo. Aliás, estou debaixo de mau tempo aqui. A gente se fala logo mais. 

Balestre desligou e retornou para o escritório. Ao adentrar na sala, percebeu que Dolores parecia apressada e de saída. Antes que ele pudesse dizer algo, ela perguntou:

— Está de carro?

— Claro.

— Muito trabalho te esperando?

— O de sempre. Mas posso ajudar. Qual é o caso?

— Preciso de uma carona para a o aeroporto.

— Te levo, Dolores.

— Precisamos nos apressar.

Balestre apanhou o paletó da cadeira, ajeitou a grava e abriu a porta para Dolores e suas curvas passarem. Melchíades, que tinha um palito na boca, deixou o mesmo cair invejado com a sorte do colega.

Anderson Passos

Ficção (1)

Quem está seguro? – Parte VI

Balestre chegou no escritório e encontrou apenas Melchíades. Estranhou a ausência de Dolores. Mesmo assim, arriscou um bom dia ao colega, mas a resposta foi uma patada.

— Bom dia? Amigo, o caldo está é bem entornado.

O recém chegado ficou sem entender lhufas até que Dolores, a sobrinha do Dr. Tenório, voltara da cozinha com os olhos vermelhos e ainda levemente marejados. A situação deixara Balestre, intimamente, empolgado. Mas ele se empenhou para construir um semblante preocupado.

A estonteante Dolores mal sentara em frente à sua mesa e, súbito, teve uma nova crise de choro e correu à cozinha, tentando inutilmente evitar o flagrante do novo colega. Vendo a cena, Melchíades tornou a fechar a cara e demonstrava feroz impaciência com aquilo. Com dissimulação, Balestre perguntou ao colega.

— Pode me explicar o que está acontecendo?

— A tal cervejinha ontem fez mal para ela. Acho que é piriri — ironizou Melchíades entre risos abafados.

O pouco caso do colega com Dolores só municiou a estratégia de Balestre, que esperou o momento para o bote. De repente, entrou na sala, vinda da cozinha, a estagiária Bianca, que desde que o caso irrompera logo antes do comecinho do turno, quando só as duas mulheres estavam no escritório, fez as vezes de confessionário e suporte de Dolores até que a coisa amainasse.

Então o telefone tocou e Bianca não teve outra alternativa senão atender. Estagiários também são para essas coisas. E essa foi a chance que Balestre precisava. E este correu para a cozinha.

Chegando na cozinha, com pés de lã, Balestre viu que Dolores ainda soava o nariz, emitindo o som de quem toca um trombone desafinado. Então ele pediu a palavra.

— Com licença, Dolores. Bom dia. Quer dizer, bom dia talvez seja um exagero — riu ele meio sem graça.

Vendo que a colega não esboçava reação, seguiu a cantilena.

— Você está com algum problema? Se estiver precisando de algo que eu possa fazer, pode pedir, sim?

— Tá tudo bem. — ela tentou disfarçar.

— Hum, chorando de felicidade então…— tornou a tentar descontrair Balestre

— É, chorando de felicidade, sim.

De repente, os olhos de Dolores pareciam envoltos em fogo. E ela prosseguiu.

— Tenho um marido fora de série. Mas o que ele me falou ontem não tem cabimento.

— O que ele disse? — avançou Balestre levemente ansioso.

A conversa foi interrompida quando Melchíades avançou pelo acesso à cozinha gritando que Dr. Tenório estava ao telefone e queria falar com Dolores. Ela saiu desabaladamente para sua mesa, se refazendo de forma improvisada.

Melchíades então chegou em Balestre perguntando.

— Que pasó?

— Não sei direito, mas acho que ela vai melhorar.

— Essa Dolores adora um dramalhão mexicano. Qualquer siricotico e chora igual uma condenada. — disse Melchíades.

Balestre silenciou apenas. Mas, por dentro dele, corria um sangue gélido como o mármore, que fazia alguma festa pela cizânia que se instalara na vida de Dolores.

Anderson Passos

Ficção (1)

Quem está seguro? – Parte IV

Carla riu ao galanteio de Balestre. A seguir, já com o rosto mergulhado num largo sorriso, estendeu a mão e se deixou puxar de dentro do táxi pelo desconhecido para a frente do bar onde estavam. O motorista fez cara de poucos amigos. Os dois voltaram ao bar.

O garçom, que logo antes praticamente escoltara Carla no recinto, já se aproximava quando ela, num gesto, fez sinal de que a corte não era necessária. Chegaram a uma mesa, enquanto Balestre perguntou.

— Que tal essa?

Carla assentiu com a cabeça e o outro puxou a cadeira para que ela se acomodasse. Este sentou-se em seguida e o garçom onipresente trouxe o cardápio.

— Bebe o quê?

— Pensei que ia perguntar meu nome — esboçou ofensa a moça.

— Perdão, gosto de fugir do convencional. O nome não precisa ser exatamente a primeira coisa a se saber.

— Interessante…

— Até porque você pode me dizer um nome que não o seu — emendou ele.

— Por que eu faria isso?

— É só uma suposição. Façamos um exercício. Olho para você e digo teu nome. Quer tentar?

— Hum. Gostei. Mas como faz isso? Mágica, rede de espiões ou me conhece de outros carnavais? — ela desafiou.

— Olho no olho. Leio o nome nos olhos da pessoa.

— Topo a parada. Mas deixemos a coisa mais emocionante. — ela sugeriu.

— Uma aposta.

— Hum, a leitura de pensamentos parece afiada. Levei medo agora — riu Carla.

— Desiste?

— Nunquinha.

— Ok. Mas o garçom está esperando que a gente peça a bebida. Eu gostaria de pedir. Ou você sugere que ele seja nossa testemunha ocular?

— Prefiro beber depois.

O garçom continuou plantado ouvindo tudo, até que Balestre pediu licença.

— Pode deixar o cardápio com a gente. Já chamamos.

O outro deu as costas. Carla continuou.

— Algo me diz que o garçom pode ser teu informante. Desisto da aposta.

— Oh, por favor, é a primeira vez que venho aqui. — confessou Balestre.

— Ok, senhor galã de novela. Ao desafio. E sem aposta. Fala meu nome então. — desafiou Carla.

— Com aposta. Só digo com aposta.

— Assim vou embora — ameaçou Carla.

— Tá bom, vou dizer teu nome. — disse Balestre solene.

— Sou toda ouvidos. — suspirou ela.

— Tá Queiroz, não tem ninguém vendo. Me conta o que tu descobriu sobre a sobrinha do patrão.

Anderson Passos

Ficção (1)

Quem está seguro? – Parte III

Balestre permaneceu no bar fumando enquanto revolvia a conversa que tivera com o colega Melchíades. E rememorava milímetro por milímetro os atributos da sobrinha do Dr. Tenório. E de repente se via cercado da pergunta quase fatal. Afinal, seria Dolores realmente tudo aquilo que o outro insinuava?

Decidiu dar fim àquilo. Quando fez menção de abordar um garçom e pedir a conta que ele pagaria sozinho, pousou os olhos em Mercedes. A jovem talvez tivesse seus 25 anos, não mais do que isso. Difícil precisar. Ela cruzou o bar vindo da rua em direção ao banheiro, num vestido preto justo o suficiente para lhe salientar as polpudas curvas. E fez o percurso cortejada por quase todos os olhares masculinos do espaço, mesmo olhares comprometidos, e por um dos garçons da casa.

A passagem de Carla no lugar pareceu ter lhe emprestado outro aroma. Um clima de brisa onde o cheiro de álcool e a fumaça de cigarro desapareciam. E lá ela ficou por longos 15 minutos. E tal demora foi o pretexto para Balestre pedir mais uma cerveja. Mas os garçons pareciam fora do alcance dele. Não havia um único por perto.

Então Carla voltou do banheiro em passadas lentas e marcantes. Trazia no encalço o garçom que lhe acolhera na chegada e que agora lhe puxava uma cadeira, numa mesa próxima de onde estava Balestre. Feita a corte à menina, Balestre pediu ao garçom, com os olhos voltados para a moça, um bourbon.

O tempo entre o pedido e a entrega da bebida durou poucos minutos, nos quais Balestre parecia encantado com a moça e dela não tirava os olhos. Tanto que, num guardanapo e com a caneta do bolso da camisa, produziu um bilhete onde propunha um pacto: que ambos deixassem suas mesas e se encontrassem numa terceira ou fora dali, que fosse.

Carla recebeu o bilhete do garçom, leu e forjou indiferença. O que fez Balestre sorver com pressa a cerveja. Percebendo que ele finalizava, Carla ergueu-se da cadeira onde estava e, sempre escoltada pelo garçom, rumou para a rua.

Sem tempo a perder, Balestre correu ao caixa, pagou a conta sem pegar o troco e correu rua afora. O objetivo agora era Carla. E ela estava partindo. Quando ela ingressou no táxi, que a levaria sabe-se lá para que destino, Balestre abriu a porta do carro e em tom de quase desafio disse a ela que a carona ainda estava de pé.

Anderson Passos