Corrida do ouro

Outro dia postei um raro vídeo de minha autoria e graça neste blog mostrando a operação de guerra de uns operários a furar a rua Epitácio Pessoa, que faz esquina com meu prédio. Para quem não viu o vídeo, o detalhe sórdido é que as furadeiras e motoniveladoras começaram sua sinfonia às 5 horas de um dia útil.

Só sei que uma vizinha desceu até lá, perguntou o nome dos operários e eles saíram de fininho, dizendo apenas que tinham autorização para fazer a obra naquele horário.

Isto posto, voltemos à última quinta-feira (12). Eu chegava em casa de minha saudável caminhada quando a vida começou a ficar insalubre. Operários voltaram a furar o asfalto produzindo um barulho sobre o qual talvez só a Love Story ou o inferno consigam ser superiores.

Em tom de pirraça, só posso concluir que descobriu-se no centro de São Paulo a nova Serra Pelada e que foi dada a largada para a busca frenética do metal precioso. Ou, quiçá, brevemente a dona Dilma vai aparecer aqui dizendo que a Petrobrás descobriu no asfalto profundo uma caro e raríssimo poço de petróleo suficiente para salvar a humanidade. Ou será que os operários estão a serviço de Juvenal Juvêncio e procuram um caminho mais fácil para o São Paulo chegar ao Japão? A essa altura dos acontecimentos, já diria meu chefe Henrique Veltman, tudo é possível.

Anderson Passos

Anderson Passos

Barulho

Convivo, desde que cheguei a São Paulo, com barulho. Barulho que já brotou de meu próprio apartamento, quando eu dividia o mesmo espaço com Camila Gaya e amigos (as) de gêneros sexuais os mais diversos e, quando não, bizarros.

Barulho que vinha da rua, de carros e de seus motoristas capotando Cardeal Arcoverde abaixo, ou Teodoro Sampaio acima, quando vivi na saudosa Fradique Coutinho.

Mudei-me. Mas o barulho veio comigo. Desta vez vindo dos travestis que se prostituem nas proximidades do meu prédio. Além deles, os carros tunados e seus motoristas que, mesmo bêbados muitas vezes, lutam para manter a si e à vizinhança acordados.

Vez em quando tenho vontade de lhes arremessar baldes de urina. O máximo que fiz foi arremessar-lhes ovos podres, com êxito até. Mas daí a matar, como vimos num condomínio de luxo paulista recentemente, acho um tanto demais.

Anderson Passos

Tudo isso para dizer

Five o’ clock

Na grande maioria das vezes, imagino que pouca gente se da´conta de que algumas pessoas residem na região central de São Paulo. Afinal, na sua megalomania, creio que a cidade tenta incorporar aquele lema New York New York de que a cidade nunca dorme.

Bem, escrevo isso e vou sem delongas ao título porque nas proximidades do meu prédio fica uma instalação do Tribunal de Justiça do estado. E eis que no horário citado lá em cima, buzinas em alto e bom som me despertaram para este escrito.

Por pelo menos 15 minutos, um dos motoristas da repartição tentava estacionar seu veículo no interior do prédio. Mas, diante do fato de que o segurança talvez gozasse de um sono mais digno que o meu, o motorista preferiu acordar meio mundo para ser atendido.

Uma pena que essa mesma preocupação não se teve quando ladrões ingressaram no mesmo prédio há um tempo atrás e nenhum barulho soou.

Sim, estou revoltado e só me restou escrever, coisa que não fazia há tempos nesta ilha.

Anderson Passos

Ativando protetores de ouvido em 3,2,1… (Final)

Pasmem o que escreverei a seguir, mas a armadilha mais letal do meu sono traz a assinatura do poder municipal de São Paulo. Ela já vinha se engraçando a algum tempo, mas agora tornou-se cruel, fatal.

Ocorre que exatamente às 6h30min de todas as manhãs – portanto, também nos finais de semana – um caminhão pipa com água reaproveitada encosta nas imediações do meu prédio. Exatamente às 7h, o motorista, auxiliado por um funcionário na parte externa, inicia a lavagem da rua para minimizar o acúmulo de lixo, em especial restos de comida de estabelecimentos comerciais.

A operação, no entanto, redunda em sacrifício para os moradores dado que o barulho é muito mais irritante do que a broca de um dentista, por exemplo. Supera de longe a gritaria de travestis e clientes mal-amados ou em desamor.

Se tivesse um só pedido a fazer à prefeitura de São Paulo, eu faria um modestíssimo: tragam de volta a varrição e a eventual cantoria ou preguiça dos operários da limpeza.

Seria mais silencioso, seria um alívio, seria restituída uma leve paz aos atormentados moradores do meu pedaço.

Anderson Passos

Ativando protetores de ouvido em 3, 2, 1… (2)

As madrugadas dos finais de semana no entorno da minha casa, na região central de São Paulo, permitem ainda certas mordomias que poucos lugares de São Paulo podem oferecer. Afinal, já sou capaz de decorar, por exemplo, a letra de alguns funks como o mais clássico Ah Lek Lek Lek Lek. Também são comuns as brigas à saída da Love Story e da quase dezena de boates voltadas ao modum LGBT de viver.

O “pega pra capar” também ganham evidência quando há desacordo entre os travestis da minha bem frequentada rua e seus clientes, sejam eles potenciais ou não. Lindo é quando um desavisado leva um dos travecas para dar uma volta no quarteirão e, quando o acordo financeiro não sai e o sujeito abandona aquele que iria lhe comer o rabo, acaba cercado por três ou quatro colegas do ser abandonado. A chave da ignição de repente é jogava longe e lá se vão celular, carteira, relógio, o que houver de valor. E há quem grite por Jesus também numa hora dessas de extremo pecado. Se eu documentasse em vídeo tudo o que já vi aqui embaixo nesa matéria, a Record me contrataria com um pé nas costas. A eles o meu pé na bunda.

Mas os dias de semana também tem sons terrivelmente particulares. O próximo post deixará isso evidente.

Anderson Passos

Madrugada intensa (Final)

Já são 6h40min, e o meu sono, definitivamente, não sei se é digno de alguma tentativa resgate. Passei no Facebook e um sujeito lá escreve algo como:

– Acabo de chegar do show do Revelação. Sou ‘fan’.

Til não existe mais. A escrita, ou esse modo de escrever altamente desqualificado, é de arrepiar. Assassinaram a escrita, a língua, a concordância. Nem o samba escapou.

Lá fora os primeiros sinais do dia aparecem. O intenso barulho que me despertara mais cedo faz um intervalo. O humilde comércio que fica embaixo do meu prédio levanta suas cortinas. O cheiro de pão saindo do forno apetece.

Não preciso ir à janela. Os olhos parecem querer baixar a guarda. Na rua, outro bêbado grita.

– O show tem que continuar.

Não sei se rio ou se mando esse cara para o inferno nessa altura dos acontecimentos.

Se alguma notícia boa houve nesse sábado foi esta: a fonte que prometera me receber não deu sinal de vida. E, no final da tarde, compensei o sono perdido.

Anderson Passos

Madrugada intensa (2)

Os arruaceiros do carro tunado se foram, mas outros ainda viriam com barulho ainda maior, mas sem permanecer nos arredores por tanto tempo. E comecei a temer pelo sono, haja visto que eu teria uma agenda de trabalho em pleno sábado.

Ainda assim, voltei á cama, virei-me nela mais que pude e a verdade é que qualquer ruído me punha em tensão. O rádio de um táxi com conversas entre a central e os outros carros que circulavam pela cidade berrava.

E, como aquilo se prolongasse, também o rádio dos vigias do prédio do Tribunal de Justiça, localizado quase em frente, também era só berros, como se todos quisessem – ansiassem – por se comunicar naquele exato instante, que deveria ser de sono. Meu e dos meus vizinhos.

Então veio a cereja do bolo: um grupo de meninas – que não sei descrever se eram travestis ou putas ou bêbadas – cantarolava. A essa altura, eu voltei à janela, sem ovos à mão.

Para meu desespero, uma delas berrava ‘eu quero tchu, eu quero tcha” – e só ficava nisso – enquanto o grupo, vendo a cena, incentivava:

– Desce até o chão, vadia.

A outra, meio trôpega, bem que tentava.

E eu, já sem a embriaguez saudável do sono, só fazia desesperar. Já passava das 5h30min e eu precisava dormir para despertar em melhores condições para, mais tarde, encarar o lavoro. E tudo o que eu podia concluir até aquele instante era: o sono me fora injustamente roubado.

Anderson Passos