Madrugada intensa (1)

São exatamente 6h de sábado (21/7), quando começo a tecer essas linhas. Logo mais uma pauta me aguarda, ainda em horário incerto. O telefone tocará, a assessora de imprensa me indicará o caminho até a fonte e eu terei de correr.

Mas preciso dizer que a noite, que deveria ser de sono, foi péssima. Eram pouco mais de 4h quando um carro tunado postou-se poucos metros adiante da minha janela. O som que dele brotava era desolador em matéria de volume.

Pensei que, inibido pelo frio, não me ergueria da cama, mas como o barulho se prolongasse, fui à janela. Não sem antes fazer escala breve na geladeira onde ovos podres guardados há meses me serviriam de arma.

Em seguida, abri a janela e vi que a parte traseira do carro se convertera em potentíssimas caixas de som. E, mais grave, seus ocupantes, em torno de cinco entre jovens e moças – quero crer que não eram travestis – incluindo o motorista, dançavam não no passeio público, mas sobre o teto do carro.

Eu ainda juntava o queixo boquiaberto com a cena quando, da sacada do prédio em frente, duas inocentes crianças, um menino e uma menina, se juntaram para assistir aquilo. Pensei de imediato nos meus sobrinhos Guilherme e Beatriz, que deviam ter a mesma idade deles.

Foi por aquelas crianças que assistiam comigo aquela cena medíocre que mirei com redobrado cuidado e disparei: o ovo podre pousou exatamente na “pista de dança” sem, no entanto, atingir os dançarinos.

Antes que o grupo se tomasse de revolta para saber quem arremessara o artefato, uma viatura da polícia encostou ao lado. E eu pensei comigo:

– Opa, agora vai rolar um ‘teji preso’.

Nada. Embora pudesse prender, embora a Rota tenha, aparentemente, autorização para matar, o policial apenas mandou que o motorista, a essa altura cagado de medo, apenas baixasse o volume do áudio, que só sei se tratar de um funk de última categoria.

Ele baixou, ficaram ali uns minutos mais e foram embora finalmente. Essa palhaçada deve ter durado uns 30 minutos. Mas o transtorno não se encerraria ali.

Anderson Passos

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Guerra e paz das “aranhas”

Sábado, 27 de junho, 22h: estava eu em frente à televisão zapeando os canais a espera do Supercine e do filme Instinto Selvagem 2, que de muito queria assistir. No entanto, depois de ficar um tempinho na MTV e acompanhar reprises e mais reprises da vida e obra de Michael Jackson, corri ao canal da TV que dá acesso à câmera da portaria. Então flagrei um amigo gay da Camila, pródigo por suas beberragens e gritarias. E perguntei.

— É o fulano?

Sim, era, foi a resposta. Desliguei a TV e corri ao meu quarto pressentindo certo desastre. Preparei-me para o que viria psicológicamente e voltei à sala para recepcionar a chegada do sujeito. Afinal, ainda sou um homem educado.

Em 10 minutos, ele subiu ao apartamento. A seguir, chegou a namorada da Camila com mais dois homossexuais, um homem e uma mulher, mas em papéis trocados, evidente. Destaque para a moça, que mais lembrava um botijão de gás de 13 quilos e me cumprimentou com um firme aperto de mão. Mais tarde, quando a bebida comeu solta, ela confessaria estar desesperada por sexo, mas que dadas as suas formas avantajadas e distorcidas, ninguém lhe dava trela.

Pintado o quadro da desgraça, pensei comigo que o melhor seria me recolher ao meu quarto mesmo. No entanto, assim como havia fartura de bebida, duas pizzas seriam assadas e esperei que uma delas ficasse pronta para beliscá-la e, em seguida, desaparecer na minha “trincheira”.

Já no quarto, eu me entretia vendo alguns DVDs no computador até que o sono viesse. E, de fato, passava da 1h de domingo e eu já o sentia. Mas, ao tirar os fones de ouvido, o som que emanava da sala e do corredor não eram convidativos à cama. Bem pelo contrário.

De repente, não sei dizer a hora precisa, mas passava seguramente das 4h30min, Paloma e sua namorada, a mãe do ano a que tenho me referido nos últimos tempos, chegaram. O que eu não percebi de primeira. Eu só soube da chegada delas quando fez-se um estrondo e corri à cozinha.

Entre as duas, a namorada de Camila, a ciumenta. As três em vias de se agarrarem pelos cabelos, a trocar unhadas. O trio estava ainda na fase dos xingamentos, dos dedos na cara, da choradeira. O barulho era ensurdecedor.

Abracei Paloma e tirei-a do tumulto. Só se ouvia muita gritaria e eu já sentia que, dentro em breve, uma força de elite da polícia iria invadir o apartamento e levar todo mundo em cana.

Recolhi Paloma a seu quarto e, a seguir, em mais uma crise nervosa digna de Oscar, a namorada de Camila foi parar no corredor, do lado de fora do nosso apartamento, vomitando muito. Detalhe: ela sequer tinha bebido. Senti os ânimos serenarem por volta de 5h30min apenas.

Paloma e a mãe do ano foram para seu pequeno cortiço. Nisso, enquanto eu me detinha na louça tentando minimizar a sujeira, sorrateiramente, a “mulher bujãozinho” de 13 quilos entrou atrás logo atrás do casal e, num piscar de olhos, estavam se beijando a três. A seguir, todas estavam nuas no pequeno quarto e trio tratou de fazer trégua a seu modo. E com altos gemidos, que todo o prédio ouviu.

Na outra frente de batalha, Camila e sua namorada, a ciumenta, tentavam chegar a um entendimento. Como já vi esse filme, que sempre acaba em reconciliação, tratei de finalmente me recolher. Nisso, já eram 6h20min de domingo, 28 de junho.

Agora só resta rezar e esperar, mais uma vez, que os vizinhos permaneçam tolerantes a tamanha arruaça. E que o condomínio não nos multe por mais essa.

Anderson Passos