Barulho

Convivo, desde que cheguei a São Paulo, com barulho. Barulho que já brotou de meu próprio apartamento, quando eu dividia o mesmo espaço com Camila Gaya e amigos (as) de gêneros sexuais os mais diversos e, quando não, bizarros.

Barulho que vinha da rua, de carros e de seus motoristas capotando Cardeal Arcoverde abaixo, ou Teodoro Sampaio acima, quando vivi na saudosa Fradique Coutinho.

Mudei-me. Mas o barulho veio comigo. Desta vez vindo dos travestis que se prostituem nas proximidades do meu prédio. Além deles, os carros tunados e seus motoristas que, mesmo bêbados muitas vezes, lutam para manter a si e à vizinhança acordados.

Vez em quando tenho vontade de lhes arremessar baldes de urina. O máximo que fiz foi arremessar-lhes ovos podres, com êxito até. Mas daí a matar, como vimos num condomínio de luxo paulista recentemente, acho um tanto demais.

Anderson Passos

Tudo isso para dizer

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Tutuaçú

Nos tempos de Fradique Coutinho (Vila Madalena), Camila Gaya e Paloma e cia limitada, tínhamos uma maravilhosa mascote, a Tutu.

Pois recentemente a Camila teve uma mudança frustrada – a casa que alugara viu o teto ceder à primeira chuva. Então ela foi morar com um colega de trabalho e Tutu foi importada para a praia, onde a mama da Gaya reside.

Eu tinha comigo que com uma casa e um pátio, a Tutu ficaria tal qual “pinto no lixo”. E na visita que me fez no sábado (1º), a Gaya relatou que a Tutu anda num humor do cão. Não se deixa banhar e vacinar e está infestada de pulgas.

Como a Paloma agora dirige um carro, um comboio vai resgatar a Tutui para a casa de uma amiga veterinária da Camila. Oremos que a nova casa devolva o humor da nossa Tootsie.

Anderson Passos

Fumacêra

No último sábado (1º/9) eu cochilava no final da tarde quando meu telefone vibrou. Do outro lado da linha Camila Gaya e Paloma queriam saber notícias minhas.

Como a minha voz saísse trôpega, de puro sono interrompido, elas presumiram que eu estivesse bêbado e apliquei peça nelas fazendo a língua tropeçar ainda mais. Assustei a dupla de tal modo que elas foram às lágrimas e bateram o fone na minha cara.

Tornei a ligar para a dupla, desfiz o trote e elas vieram aqui em casa, acompanhadas de dois exus – dois sapatões bizarríssimos. Bebeu-se, fumou-se, falou-se da vida. A casa ficou num cheiro abominável de botequim de quinta e o piso do banheiro, que antes brilhava, à passagem delas, ficou apinhado de pegadas.

Mais importante de tudo isso foi sentir e perceber o carinho de Camila e de Paloma por este humilde navegante. A elas o meu eterno tributo, apesar da zueira absoluta que elas causam.

Anderson Passos

Quatro anos

Era abril. Na minha terra fazia frio e de lá, numa noite, liguei no meu irmão aqui em São Paulo:

– Só preciso de um mês e de um chão para dormir.

Meu irmão disse-me não e não. As cachorras dele – duas à época – votavam com ele. Chorei, chorei como nunca antes talvez.

Terna, minha mãe viu meu desespero. E ela, que antes resistia que eu me fosse, finalmente disse-me um consolador:

– Vai, eu te ajudo.

Choro relembrando isso. Após a fala da minha mamita – beijos dona Sandrinha – fui à área ao lado de minha antiga casa e chorei abraçado à minha mascote Miúcha por pelo menos uma hora.

Vale registrar, sem ônus algum, que antes, minha mãe era só desconfiança daqueles Diana, representados pela Marina. Mal sabíamos – eu e a mama – que teríamos ainda a grata surpresa dos Mariano da Silva, do entusiasmado noivo dela à época – hoje um irmão e muito mais – o Ferdinando.

Mais louco ainda saber que uma menina conhecida via internet – como a Marina igualmente – seria minha acolhida generosa para uma amizade indefinível em palavras e mais surpreendente ainda em relação aos fatos protagonizados. Falo de Camila Gaya, de Paloma Angelo, de personagens que foram e dos raros que ainda ficaram no mais louco endereço da Vila Madalena.

Então veio o primeiro emprego, a carteira assinada e o salto mais ousado: morar só, o que ocorreu há exatos dois anos. Passo em que ainda persisto, em que ainda converso com minhas paredes, em que ainda canto a plenos pulmões junto às minhas pérolas musicais. Espaço acanhado, mas nem tanto. Limpo, sem ser brilhante. Acolhedor com quem merece.

E vim pra cá, no coração do centro da Pauliceia, graças à iniciativa da Marina Diana e do Ferdinando que juntaram meus cacarecos e, em duas viagens inesquecíveis, me fizeram chegar ao meu novo (agora já velho) endereço.

Como retribuir? Presença. Não de um Bradesco, mas vejamos:

Vi toda a escalada dos meus amigos de fé Marina e Ferdinando: o belo casamento, a morada inicial numa caprichada casa dos fundos dos pais dela. Finalmente a casa nova e as obras que a tornaram um palacete – onde pus mãos e risos à obra – e agora todos estamos às vésperas da espera do primo herdeiro Heitor.

E chega Natal e é sempre lá com os deles – meus também, lamento. Ano Novo é lá vez em quando. Páscoa agora tem caça ao coelho – que enlouquece as crianças e que eu nunca vi quando tinha a idade dos pequenos Guilherme e Beatriz. Aliás, pensou em festa, pensou Diana e Mariano da Silva.

A grande surpresa viria com a cumplicidade e amizade do Orlandinho, irmão da Marina. Outro dia vieram ele, Fernanda (esposa) e os já citados pequenos aqui em casa. Tremi e foi de plena felicidade.

Em São Paulo tenho pais postiços, que minha mãe reconhece, inclusive: dona Walkyria e seu Orlando Diana me concederam essa honra e espero sempre retribuir à altura da generosidade indescritível em palavras desses dois baluartes da vida.

São Paulo é solitária, desafiante, oscilante, suja, cultural, maluca, triste, arco de triunfo deste modesto escriba. Aqui cheguei há quatro anos. Vez em quando a solidão me oprime e me diz para ir embora. Chego quase ao ponto de ceder. Mas resisto.

Vem então a doença (Parkinson), dores musculares, caminhadas, tremores, ganho de peso, peso que não vai embora, ganho de problemas, dissabores. Parece o ensaio de fim do caminho. Parece, mas não é.

São Paulo foi e ainda me soa como a grande jornada a ser percorrida com sangue, suor, tremores e lágrimas, se necessário. É em tributo a essa cidade, às pessoas citadas acima que este blog – completando hoje três anos de existência – pausa os seus trabalhos para agradecer a toda essa turma por cada palavra, por cada gesto, pela aparentemente simples presença de cada um deles no caminho.

A todos eles o meu mais humilde muito obrigado, na esperança que as forças sigam sempre se renovando para permanecermos juntos, mesmo que vez em quando (e espero que raramente) distantes.

Anderson Passos

Visitas

Na última sexta (24/2) eu me banhava quando o celular tocou e, do outro lado da linha, “fantasmas” do passado apareceram: as vozes eram de Camila Gaya e da Paloma, as meninas com quem morei no começo da minha estada em São Paulo. E que de muito eu não via.

Antes disso, à tarde, Camila falara comigo pelo MSN e reclamou que eu a abandonara e fez até um trocadilho sem intenção com este blog ao dizer que vivíamos “cada um na sua ilha particular”. A seguir ela ficou off line e pensei que nunca mais a veria.

Volto ao telefonema. A dupla estava a poucos metros aqui de casa e me convidava para ir com elas à padaria Santa ifigênia, que frequento desde que me mudei para o centro.

Como o banho demorasse, elas tornaram a ligar e perguntavam se podiam vir aqui em casa. Respondi afirmativamente.

Trouxeram pães, salgados, refrigerantes, sorrisos, lembranças de histórias que vivemos e de pessoas que se foram. Ambas admiraram minha “organização”, fumaram pra cacete o tempo inteiro e me forçaram a ver o Big Brother com elas.

Paloma virou dançarina de N boates e fatura tão bem que comprou um carro. Camila deixou a Fradique Coutinho para morar numa casa na Cardeal Arcoverde, cujo teto está caindo e o proprietário pouco se importa.

A mobília da Camila segue na casa com teto de peneira enquanto a tadinha foi morar com um amigo ou colega na zona norte, prédio bem bonito afinal.

Como não poderia deixar de ser, elas sujaram louça pra cacildis. Foi a primeira vez desde que saí da Vila Madalena para viver só que lavei louça com um extremo ar de nostalgia de nossos dias felizes, porque é isso que tem que ficar.

Anderson Passos

Sampa Tour (4)

O penúltimo dia com Robinha foi de tigradas. Rumamos para a 25 de Março, a famosa rua de comércio popular da cidade. Advertido por Camila Gaya e outros, preveni Roberta:

– Nada de câmera fotográfica, bolsa, nada, nada, nada, que não uns pouco trocados e a carteira de identidade.

Teimosa, Robinha levou bolsa, levou máquina e brinquei de Pôncio Pilatos: lavei as mãos e partimos. Depois de uns 25 minutos andando, chegamos ao destino onde eu jamais estivera.

Procuramos loja de festas para municiar os artigos da irmã de Roberta, que trabalha com isso em Sapucaia do Sul. Sem sucesso. Fato é que não achamos o produto que procurávamos.

Adelante, fiquei assombrado com um camelô que oferecia um aparelho para depilar as narinas e as orelhas – nem quis ver o produto – e com a tigrada ali concentrada.

Então, passando por uma rua próxima, visualizei o Mercado Municipal onde bebemos suco e concluímos que o Mercado de Porto Alegre tem uma única desvantagem: é menor que o Paulista. Mas o nosso tem erva mate. E de todos os tipos, digo eu.

Na volta, cansados, ainda subimos no alto do prédio do Banespa, onde Roberta fez mil fotos e eu fiquei tonto, amedrontado da altura no começo. E olhem que saltei de paraquedas não faz muito.

O cada vez mais raro leitor desse espaço vai perguntar:

– Que sacrilégio não levar a moça na Paulista.

Eu levei. E conto no próximo e último post essa história.

Anderson Passos

Dia do amigo

Fiz uma celebração do Dia do Amigo de todo desavisada e que, mais tarde, justificou-se produtiva até. Digo desavisada porque, fato é que eu não lembrava da data.

Eram três da manhã quando fui despertado pelo meu celular. Do outro lado da linha estavam Camila Gaya – a menina que corajosamente me acolheu em São Paulo – e o Larry, um amigo comum.

Devidamente calibrada pelo álcool, a dupla me convidava para uma visita à minha antiga morada na Fradique Coutinho, no coração da Vila Madalena, no menor tempo possível.

Daí que, sem muito pensar e querendo voltar aos braços do sono, eu disse que sim, nesta quarta-feira (hoje) eu iria vê-los fosse para um café da manhã, fosse para um almoço.

Desliguei e, horas mais tarde, tive que acordar cedo para ir ao banco e resolver uma despesa de condomínio. Felizmente o saldo ajudou.

A seguir, tirei um dinheirinho e me fui para o dentista, na mesma Vila Madalena, onde uma nova cirurgia me aguardava, bem como mais uma rodada de aperto no meu aparelho ortodôntico.

Saindo do dentista “vinguei-me” e despertei meus amigos avisando que, muito em breve, estaria com eles para o café da manhã.

Fui recebido por uma Tutu, a mascote da casa, vibrante. Camila e Larry não menos. Uma pena que o tempo foi curto demais. Prometi voltar em breve. E, ainda assim, já tenho saudades deles.

Anderson Passos