Você é homem

Na noite passada (9/9) eu assistia televisão quando mais uma briga ganhou vulto na rua, quatro andares abaixo.

Quando fui à janela, vi que num carro estacionado havia um furdunço daqueles. Olhando mais atentamente, vi que dois travestis tentavam entrar no carro, um deles puxando a bolsa de uma moça. Deveria ser 21h e alguma coisa àquela altura.

O bate boca, a puxação de bolsa, a gritaria, deve ter durado uns 15 minutos. E eu não fiquei esse tempo todo na janela porque simplesmente já não tenho paciência para essas coisas.

A seguir, disse com meus botões, exultante:

– À TV, cara pálida.

Não demorou muito e a gritaria começou novamente. Dessa vez, da sacada do prédio em frente, um cara ameaçava as travecas sugerindo que o sujeito não iria aparecer para trabalhar no dia seguinte.

Outro sujeito, este claramente homossexual e dono do apartamento de onde as vítimas berravam, chamava as travecas de forma, ao menos para este cronista, incomum.

– Você é homem, você é homem!!!

E foi um alvoroço aquele xingamento, porque as travesputas reagiram gritando ainda mais, com aquele voz típica de Vera Verão morrendo afogada por hormônios e silicone veterinário.

Durou mais meia hora a zona, sem que polícia alguma desse conta da bagunça.

Anderson Passos

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Deixando as pernas me guiarem

Fazia muitos domingos, fazia na verdade muitos meses, que eu deixara de andar. A coisa começou tempos atrás – talvez cinco meses – quando fui escalado para me revesar entre a minha casa e a do meu irmão enquanto ele estava em viagem.

Depois veio o frio, com ele a preguiça, um cansaço que eu não pensei que fosse voltar a se abater sobre este escriba e fim. De repente, já não tinha horizonte, a cabeça já não mais viajava no tempo, mesmo as leituras não me levavam a nada.

Daí que no domingo que se foi (8/9), minha casa ameaçava sufocar-me, a mesma opressão de ultimamente. Um sol incrível lá fora e eu enfurnado sob cortinas escuras, sem que a luz do dia me contemplasse.

Passava das 15h30min e uma ideia fixa me assolava: preciso andar. E eu, que até então vestia um roupão de inverno – sim, minha casa é gélida – pus um short, uma camisa, calcei os tênis e ganhei as ruas novamente.

O Minhocão repleto de crianças, seus pais, pessoas sob bicicletas, outras contemplando o nada e havia até quem tirasse um cochilo. Flagrei um conterrâneo tomando mate, mas não me juntei a ele. Preferi andar.

De repente, um contratempo. A bateria do I Pod foi embora e um ingrediente importante do meu andar reflexivo me deixara surpreendentemente. Tudo bem, nem o I Pod nem eu nos juntávamos há tempos.

Indo em direção ao Pacaembu, onde Corinthians e Náutico se enfrentavam, tive um breve temor. Afinal, a camisa que eu vestia era verde, o que nessa cidade é motivo para morrer, lamentavelmente, se você cruzar com as pessoas erradas.

Mas a torcida corinthiana estava em sua ampla maioria dentro do estádio, havendo um ou outro do lado de fora. Donde segui sem problemas. A seguir, peguei o caminho de volta por Higienópolis e uma hora e alguma coisa depois, estava em casa me perguntando porque deixara essa rotina aparentemente medíocre de lado.

No momento em que teço essas palavras, estou ganhando a rua de novo graças ao despertar que um caminhão pipa – desses que lavam a rua e fazer um barulho de matar – da prefeitura me permitiu.

Anderson Passos

De volta ao batente

Além de retomar devagarito os trabalhos deste blog, o escriba precisa superar mais um desafio: voltar às caminhadas. Deve ter quatro ou cinco meses em que me deixei levar pela preguiça, em que permiti que o trabalho invadisse também minhas manhãs e tudo o mais.

O resultado é que estou me sentindo gordacho claro que isso me deixa pra lá de chateado. Vejamos se vai dar pé. Ou vai continuar dando pança.

Anderson Passos

Volta à Ilha

Depois de longo hiato, volto a esta Ilha. E começo por publicar uma crítica do show do gênio Benito Di Paula, que encerra sua temporada no Bar Brahma neste sábado (27). Ei-la:

Em família, Benito Di Paula se despede do Bar Brahma

Sucesso nos anos 70, quando explodiu com clássicos como Meu Amigo Charlie Brown e Mulher Brasileira, Benito Di Paula se despede de uma curta temporada de apresentações no Bar Brahma da esquina famosa da Ipiranga com São João, no coração do centro de São Paulo no sábado (27).

A estreia, na terça-feira passada (23), foi uma noite para fã nenhum botar defeito. O abre alas foi Bandeira do Samba, homenagem a Ataulfo Alves, mas que praticamente sintetiza a trajetória de Benito, que ganhou novo impulso em 2009 com o lançamento do primeiro DVD de sua carreira.

Aliás, na interação com a plateia, que teve espectadores de pé dada a lotação esgotada da primeira noite, Benito Di Paula dá outro show de humildade. Sobre a casaca rosa vestida no DVD, brinca que não pagou a vestimenta ainda e, irmanado com seu público, cede o microfone para uma fã entoar Violão não se Empresta a Ninguém enquanto a executa ao piano.

O músico surpreende ainda ao interromper de súbito a execução de Vai Ficar na Saudade para dizer que “Elvis Presley não morreu” e encaixar no arranjo Love Me Tender, sucesso do Rei do Rock.

No show, Benito rege seus corais feminino e masculino da plateia, que cantam com ele cada canção. Passada a primeira hora do espetáculo, ele chama ao palco o filho Rodrigo Velloso que, ao piano, relembra clássicos do pai num tom bastante acima do original. No dueto, onde Benito Di Paula devolve suas canções ao tom original e Rodrigo traz nova roupagem, estão sucessos como Retalhos de Cetim, Ah, Como Eu Amei, entre outros.

O show também rende homenagens a Emílio Santiago, falecido em março último, enquanto Sanfona Branca, dedicada originalmente ao rei do baião Luiz Gonzaga foi dedicada a Dominguinhos, que falecera naquela data.

Anderson Passos

Polícia em ação (Final)

De repente, um distúrbio no Viaduto do Chá e câmera, fotógrafos, repórteres foram fazer o registro do que ocorria. Um fotógrafo era detido por – soube-se depois – ter registrado a agressão de PMs contra manifestantes.

A seguir, pela colega Marina Dias, soube que o Piero Locatelli, de Carta Capital, fora detido. Ricardo Galhardo conversou com um deputado ali presente e imaginamos que livraríamos o colega. Mas seu destino foi o 78º DP.

Liguei de volta à redação, veio a ordem para que eu saísse dali. Soube depois que a editora-chefe, que me mandara para a “praça de guerra”, tentava se reabilitar comigo. Temia que eu me machucasse.

Fora ter testemunhado uma agressão covarde de uns seis PMs a um popular e, graças a isso, ter ficado exposto a gás lacrimejante e a spray de pimenta, nada mais me ocorreu. Tive sorte. Pelo menos 15 colegas se feriram por balas de borracha e agressões outras oriundas de uma polícia covarde.

Assisti pela TV o agravamento da crise, a imperícia e o despreparo das forças policiais deste estado, incapaz de discernir marginais de quem voltava do trabalho ou de quem travava sua justa luta.

Eu tinha simpatia pela causa e não pelos métodos. Não pelo vandalismo, especificamente. A polícia que mata na periferia quase que diariamente agora não hesita em disparar contra jovens de classe média, jovens com uma causa, com uma rebeldia. A polícia agora não se constrange com a presença de jornalistas, e tanto assim que dispara com destemor contra eles. Contra essa polícia e contra o estado atual das coisas, estou com os jovens, com sua causa. Estou igualmente com os jovens das regiões mais pobres, que são tratados a bala de verdade. E, se chegarmos a extremos, estarei com eles até em seu vandalismo.

Anderson Passos

Polícia em ação (2)

Quando cheguei em frente ao Teatro Municipal, onde haveria a concentração, passava apenas das 14h. Havia não mais do que uma dezena de estudantes e outros tipos na escadaria do teatro.

Às 14h15min, circundei o mesmo e percebi o movimento de skatistas fazendo manobras nas laterais do prédio. Quando passei na lateral que dá acesso ao passeio do Vale do Anhangabaú, vi cerca de vinte guardas municipais em marcha.

Quando retornei à parte frontal do teatro, vi os primeiros manifestantes estendendo faixas no passeio. Entrevistei uma delas, que me disse da causa e que uma maneira de evitar a leitura da imprensa de que se tratava apenas um ato de vandalismo, a orientação era que os manifestantes ficassem juntos.

Devia ser em torno de 15h quando policiais começaram a chegar. Uma verdadeira tropa passou pelo Viaduto do Chá em direção à prefeitura.

Dado o número pequeno manifestantes equivalente até ao de jornalistas, o colega Ricardo Galhardo, do portal iG, se aproximou e brincou:

– Tem mais jornalista que estudante.

Rimos em altos brados.

Índios ali próximos, devidamente caracterizados, tocavam em suas flautas o tema daquele filme estúpido Titanic e meus botões em coro disseram, num presságio fatal:

– A barca vai afundar.

Anderson Passos

Refúgio e retorno (Final)

Nas proximidades da Universidade Mackenzie cruzei o último cordão de isolamento das tropas referidas no post anterior. A venda irregular de bebidas era escancarada, assim como o porte de garrafas pelos participantes seguia sem fiscalização ou controle.

Via-se casais homossexuais de todo o tipo e lembro de cruzar por um travesti que trajava apenas um microshort e fartos seios falsos à mostra. Não vi violência. A violência que se via era outra: bebia-se em demasia e a sarjeta estava igualmente apinhada.

Como a multidão começasse a se avolumar, dei uma volta e consegui evitá-la. Em dez minutos, adentrava meu prédio surpreso pelo deserto que era a minha rua, normalmente lotada de tipos em eventos como esse.

Ano que vem tem de novo. E lá me vou para fora da cidade.

Anderson Passos