Fusca azul

Tinha eu talvez seis, sete anos e ia sempre acompanhado do meu avô materno, Prony da Silva Passos, para a escola Coronel Aparício Borges, no bairro Partenon, em Porto Alegre.

Numa manhã, íamos para a escola como fazíamos diariamente. No entanto, nesse dia eu me afastei uns bons metros do meu avô que, vai saber, parecia gostar da ideia, já que aquilo era um sinal de independência minha. Quem sabe num futuro próximo ele poderia deixar a função.

No entanto, um fusca exatamente azul se aproximou de mim em plena Rua 12 de Outubro. Nele, minha professora – agora lembro que era meu primeiro ano na escola normal – acenava para que eu apanhasse carona. Acabei embarcando irresponsavelmente.

Naquela época, um tio meu, irmão de minha mãe, tinha um feérico fusca azul. Igual ao da professora.

Corta para a sala de aula. A mesma transcorre normalmente, quando meu irmão mais velho, Everson Passos, invade a sala. Missão: certificar-se de que eu realmente estava em aula e não fora raptado ou o que seja. Lembro dele me dizer que meu avô estava assustadíssimo. E não era para menos.

O tempo não me deixa lembrar se pedi desculpas ao meu avô por esse ato infantil impensado.

Conto essa história porque meu avô orgulhosamente exerceu funções de meu pai até meus 15 anos, Me deixa saudades ainda hoje. Ele partiu em 1987 e a dor lancinante me consome ainda hoje.

A ele, o meu tributo nesse Dia dos Pais.

Anderson Passos

Raridade literária

Há algum tempo procurei o livro sobre o centenário do Fluminense, editado em 2002, mas sem sucesso nas primeiras buscas, desisti. Um dia, numa conversa com meu irmão, Everson Passos, ele sapecou-me que tinha a obra.

Um tempo mais tarde, como meu irmão tivesse de viajar para o sul, recomendou que eu procurasse entre os tantos livros dele, que eu procurasse a obra. Procurei sedento e nada.

Até que recentemente, achei a obra e na noite de quarta-feira (20) apanhei o livro e comecei a deliciosa leitura. Primeiro, de trás para frente, folhei uma a uma as páginas para ver o roteiro da obra. Passei pelo título carioca de 1995, com Renato Gaúcho fazendo gol no rival Flamengo; pelo primeiro Brasileirão – e único título registrado na obra – vencido diante do Vasco da Gama até que fui ao começo.

A obra remonta o Rio de Janeiro dos anos 1800 até a reunião de 1902 que quase fundou o Rio Footbal Club no lugar do Tricolor das Laranjeiras. Não houve acordo, que veio no encontro seguinte e com a fundação do Fluminense, que tinha no primeiro uniforme o cinza e branco.

Os primeiros relatos mostram ainda a fundação da primeira sede, na Rua Guanabara, em Laranjeiras e a cisão de um grupo de jogadores que, já campeões estaduais com o Tricolor, romperam com a diretoria e fundaram o Flamengo.

Daí veio o primeiro Fla-Flu, o Tricolor desfigurado contra o poderoso Flamengo, base do time campeão estadual. E pasmem: o Flu venceu a peleja por 3×2 com o tento de desempate sendo assinado aos 32 da etapa final. Na época, cada tempo d jogo era disputado em 40 minutos.

A leitura avança, cada vez melhor. Em tempo conto mais.

Anderson Passos

Cerimônia de posse (2)

No metrô, não desgrudei a Flecha. Mas descer as escadas da estação com ela no colo foi demais. As minhas pernas quase cederam. Só quando as escadas foram superadas que fiquei mais tranquilo.

Cruzei a catraca – meu irmão pagou a passagem – e, adentrado o último vagão, regra padrão no metrô, eu pensava comigo:

– Descer no Paraíso ou na Sé?

Fato é que eu desceria antes para rodar um pouco mais.

Desci na Sé. Saindo de lá comecei a pedalar pelas imediações do Pátio do Colégio, chegando à Líbero Badaró. Subindo a Líbero, quase tive um treco. E olha que era uma subida leve. Sequer me lembrei que a Flecha Prateada tinha marchas. Bastava trocá-las e sofrer menos, quiçá.

Cheguei então à Prefeitura, no Viaduto do Chá, rodei cauteloso e confiante entre o público na Barão de Itapetininga, passando a seguir pela Praça da República para, finalmente, chegar em casa.

Esse pequeno trajeto me deu muita confiança, talvez porque distante do olhar crítico do meu irmão.

Mas a grande estreia da Flecha Prateada ainda estava por vir.

Anderson Passos

Cerimônia de posse (1)

No final de semana que passou fui apanhar a bicicleta que me foi doada pelo meu irmão Everson Passos. A mesma ganhou o apelido de Flecha Prateada dado que o quadro da mesma é revestido de alumínio.

Ao tentar subir na mesma, foi uma briga porque minha coordenação motora não anda lá essas coisas. Mas o fato é que subi, rodei um pouco ono pátio da vila onde meu irmão mora e eis que a dificuldade foi imensa para manter o equilíbrio. Fazia realmente muitos anos, talvez mais de dez, que eu não encarava uma bicicleta.

Decidimos então ir a uma oficina próxima para calibrar os pneus. Ficava, creio, a uns 500 metros da casa dele. Rodei esse percurso e, em várias oportunidades, seja por conta de pedestres que se aproximavam seja pelo piso deficiente, beirei o tombo descomunal.

Calibrados os pneus, meu irmão sugeriu a compra de um capacete. Uma obsessão dele, aliás. Os preços variavam de R$ 40 a R$ 90 e eu não toquei nos meus bolsos. Saindo da loja, meu irmão reagiu assim quando propus ir embora de bicicleta para minha casa, na região central.

– Nem fodendo. Vai de metrô.

E só fui porque ele me escoltou praticamente até a estação.

Essa saga continua.

Anderson Passos

Cargo entregue

Passei a última semana na casa do meu irmão na minha função pouco favorita de babá de cachorro. Neste domingo, meu irmão finalmente desembarcou em São Paulo e lhe devolvi as chaves de casa ciente do dever cumprido.

As três mascotes dele almoçaram e jantaram às minhas custas, a traiçoeira e teimosa Chabby converteu-se em dócil figura – a ponto até de lamber-me a face – a Modesta encheu o saco um tanto mais com sua mania de pular e arranhar os visitantes enquanto a mascote mais velha, cujo nome me falha, fazia cara de tanto fez e tanto faz, calma que ela é.

Do sul, meu irmão trouxe notícias que eu já imaginava e uma camisa de presente, que eu não supunha. Passeamos juntos com as mascotes enquanto ele me contava as novidades, dentre as quais o fato absolutamente nojento de que meu pai, mesmo com lenço no bolso, insiste em assoar o nariz por onde anda, sem se importar com o local ou seus transeuntes. Consta que quase acertou um sapato de madame. Meu pai é um tigre.

Em troca de meus serviços, meu irmão promete uma bicicleta usada e reformada. Veremos.

Anderson Passos

Tigradas em grande estilo

Sempre fui um crítico feroz do meu irmão mais velho Everson Passos no que tange às suas exageradas coleções de carrinhos, soldados de chumbo, trens, motos, o diabo. Mas parei, não posso mais.

Digo isso pois que eu, que começara com uma modesta coleção de bonecos do South Park, agora tremo em cima dos sapatos ao constatar que me espaços rack, antes ocupado apenas pela televisão e pelo codificador da TV Digital, lotei o “estacionamento” e o “palco”.

A dizer do estacionamento, são nove miniaturas da Harley Davidson e três carros – um Mustang, uma Lamborguini e um Dodge. Está a caminho um Mercury 1951, uma da atrações do oitocentista Stallone Cobra.

Mas eu disse de palco e agora encerro: já faziam parte dele miniaturas do Exterminador do Futuro e uma estupenda obra de arte, um Al Pacino à la Scarface de 30 centímetros. Pois no último final de semana se juntaram a ele um Elvis Presley Comeback 68 e também se incorporará à trupe Sir John Lennon. E um visita, o amigo velho Danilo Schneider ainda me oferece uma miniatura do colossal Muhamad Ali.

Difícil será prestar atenção à TV em meio a tantos astros.

Anderson Passos

Feira livre (Final)

Diante das minhas atividades de babá de cachorro, dada a viagem do meu irmão Everson Passos para o sul, me programei para passar o domingo (24/6) na região do Jabaquara, onde ele reside.

Saí então para comprar alguma coisa para o almoço e cruzando uma rua adjacente dei de cara com uma feira livre que tinha desde roupas, CDs piratas, chegando ao requinte de uma variedade de peixes. Donde eu disse comigo:

– Vou comprar um salmãozinho.

E uma bandeija que me custaria uns R$ 50 num supermercado, saiu-me por R$ 21. Generosa, a senhorinha que me atendeu transformou o pedaço num sashimi recém devorado.

Andei alguns passos mais e ouvi sotaques de diferentes etnias orientais, presente em iguarias e temperos.

Senti o aroma dos pastéis de feira, cuja praça de alimentação improvisada estava cheia. Salivei, mas pensava no meu salmão.

Então, em tom de troça, um feirante gritou:

– Tá tão barato, freguesia, que se não comprar eu vou xingar.

A seguir veio um sorriso de poucos dentes que contagiou sorrisos no entorno. E vim embora nostálgico do pastel de feira e daquele astral único…

Anderson Passos