Abre-te, sesamo

O Jornalismo de São Paulo vem me surpreendendo. Não sei se por efeito das manifestações de junho – quando o trabalho de parte da imprensa passou a ser mais fortemente contestado – mas o fato é que esta quinta-feira (8), marca um dia histórico uma vez que a Folha de S.Paulo abre manchete para o caso de conluio entre empresas que prestaram serviços ao Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Até aí, já é um avanço.

Agora, mais espantoso é ver o nome do ex-governador José Serra citado na manchete. Atribui-se a ele a mania de ligar nas redações onde é enxovalhado e pedir a cabeça do repórter.

Num passado recente, chegaram ao meu humilde conhecimento as investidas do tucano em algumas redações, algumas das quais sem sucesso – outro avanço?

Serra, evidentemente, negou as ilações sugeridas pelo jornal e enfatizou que não patrocinou nenhum acordo entre empresas para a prestação do serviço.

Vejamos até que ponto essa onda de denúncias pode atravancar ainda mais seu projeto de candidatura presidencial. Os tucanos já fizeram sua parte: enterraram a tese das prévias internas para a disputa ao Planalto e cravaram suas apostas no senador mineiro Aécio Neves.

As portas da imprensa e dos partidos parecem estar não mais obedecendo ao “abre-te, sesamo” de José Serra.

Anderson Passos

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Faço minhas as palavras…

Texto do Alan Gripp publicado pela Folha de S. Paulo sobre o qual apoio cada sílaba.

Herança maldita
SÃO PAULO – O roteiro é manjado. O protesto, seja lá contra o que for, começa pacífico até que um grupo mascarado, como se atendesse a um comando único, toma a frente da marcha e começa a quebrar tudo o que surge pela frente.

“Chegaram os black blocs'”, costuma-se ouvir entre os manifestantes, num tom que mistura medo e um certo glamour da violência.

O “black bloc”, na verdade, não é um movimento, e sim uma estratégia de protesto anarquista. Seus adeptos cobrem o rosto e se vestem de preto para dificultar a identificação e a fim de parecer uma massa única, criando uma aura revolucionária.

Esse método apareceu nos protestos antiglobalização no fim da década de 1990. Símbolos capitalistas são os alvos preferidos, mas a versão tupiniquim tem especial atração por semáforos, radares, cabines da PM e outros equipamentos públicos.

Por aqui, seus adeptos deram as caras nos primeiros atos pela redução da tarifa de ônibus, em São Paulo. De lá para cá, entretanto, muita coisa mudou. Os “black blocs”, especialmente paulistas e cariocas, crescem em progressão geométrica, estão sempre preparados para a guerra e já organizam as suas pró- prias manifestações.

Anteontem, na avenida Rebouças, portavam martelos e marretas, usados para quebrar agências bancárias e carros de luxo de uma loja.

Há três semanas, num ato contra a TV Globo, usaram laptops e projetores para exibir mensagens gigantes nas fachadas de prédios.

Nesse mesmo dia, em “assembleia” assistida pela Folha, discutiram táticas para escapar da polícia, entre elas hospedar sites em servidores da Rússia ou de Taiwan, “impossíveis de derrubar”.

As “vozes das ruas” produziram conquistas inegáveis. A principal delas foi dar à classe política a sensação de estar sendo constantemente vigiada. Nesse balanço, porém, pode-se dizer que os “black blocs” são a herança maldita dos protestos.

Anderson Passos

O Jornalismo respira

No final de semana que passou tive contato com duas produções que orgulham o bom jornalismo. Refiro-me às entrevistas da presidente Dilma Rousseff veiculadas pelo jornal Folha de S.Paulo, a cargo da competente Mônica Bergamo, e à entrevista com o Papa Francisco realizada por Gerson Camarotti e equipe da Rede Globo.

Da entrevista de Dilma, assusta o fato de que Lula nunca esteve fora do governo, ainda que ela tenha voltado a defender o plebiscito para a reforma política, sob o argumento de que há uma crise de representatividade.

Sobre Francisco e sua surpreendente humildade, Camarotti fez corajosos e pertinentes questionamentos sobre as mudanças na Cúria e os escândalos financeiros do Banco do Vaticano. E o Papa, corajoso, não fugiu de nenhuma pergunta.

Num tempo de jornalismo raso e pouca credibilidade – assim as ruas disseram em junho – as duas matérias veiculadas no final de semana são uma generosa injeção de ânimo em que não vê mais esperança na profissão.

Anderson Passos

Elegi a gênio o Xico Sá

Vide a causa abaixo.

Amor de Passeata

A onda de manifestações também deixa seus amores, seus quase amores, suas paqueras à espera de uma certa primavera, suas promessas de felicidade dispersadas à base da balas de borracha.

Amor de passeata pode durar apenas um beijo, amor de troco, amor tipo 20 centavos, amor de passeata é amor volúvel que pode durar apenas uma palavra de ordem, abaixo alguma coisa e pronto.

Amor de manifestante é amor de causa… Depois daquela noite cada um vai cuidar de salvar a própria pele em outra barricada.

Amor de passeata é o amor que conjuga o verbo ocupar no sentido mais amplo: eu te ocupo, tu me ocupas e nós ocupamos juntos o espaço sideral dos nossos sonhos, meu amor de Barbarella.

Amor de passeata é do tipo toda forma de amar vale a pena, tipo assim o melhor cartaz contra o Feliciano: “meu cu é laico”.

A falta de uma causa bem definida também pode ser um bom motivo amoroso. A história como pano de fundo, mesmo em um triângulo que ocupa mais a banheira do que as ruas, a causa com bouquet de vinho francês, por que não? Viva Paris 68 no retrovisor dos passos da rapaziada de hoje. Afinal de contas o amor por si já é uma puta bandeira e acaba empurrando para as ruas naturalmente -estou falando, evidentemente, do filme que ilustra esse post, “Os Sonhadores”, do gênio Bernardo Bertolucci.

Amor de passeata também pode lembrar, caro Marechal, aquele maluco do “bloco do eu sozinho”, cá do Rio de Janeiro, cada um com o seu motivo de protesto em busca de um cordão de isolamento.

Amor de passeata é indecifrável como foi inicialmente a onda dos manifestos. Amor de passeata é rachado, porque meu partido é um coração partido, como disse o poeta do Baixo.

Pode ser anarco-punk o amor no meio do tumulto, faça você mesmo, não espere o movimento tomar corpo.

Duro é proteger a amada, a amante, no meio daquela nuvem de efeito moral e covardia fardada.

A passeata também é uma boa hora para dar um sacode naquele amor acomodado, aquele amor oficial que repete as práticas demodês, aquele amor ressentido, resquícios autoritários, aquele amor que gostava de política ainda no Collorgate.

Manifeste-se, Lola, contra esses tempos de homem frouxo, o homem de Ossanha, aquele do samba do Vinícius e do Baden, o cara do diz que vai-não-vou, eterno chove-não-molha.

Duro é amar de verdade, pois o amor, assim como o mar dos protestos, não tem uma pauta definida. Decifra-me ou me apavoro, ameixas, ame-as ou deixe-as, já avisou o cartaz do samurai-polaco.

Em compensação, quando vinga, o amor de passeata é por muito tempo e o fim, um dia, quem sabe, com as lágrima sinceras do luto, vai lembrar que vocês se conheceram chorando gás lacrimogêneo.

Anderson Passos

Telhada, o ditador da Câmara paulista

O coronel Telhada é destes exemplos de político novato que comprometem de longe a credibilidade de uma democracia. Ainda em 2012, ameaçou um profissional do jornal Folha de S.Paulo porque este apurou em algum momento abusos de policiais militares contra civis, mais precisamente assassinatos.

Pois este senhor ameaçou abertamente o colega, que ficou uns tempos em endereço desconhecido para preservar sua família.

Agora, este senhor vem aos jornais para dizer que apoia a ação das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a famosa Rota, durante a ditadura. Na época, claro, mais execuções foram perpetradas por policiais em nome do regime. e, claro, este senhor propôs uma homenagem à Rota por estes serviços. A homenagem já foi aprovada em uma das três comissões do Legislativo.

Vale dizer ainda que esse senhor, que parece ainda não despido da farda, foi empossado fardado, numa afronta ao Parlamento paulistano. E sabe o que aconteceu a ele depois de todos esses episódios? Nada.

Pergunta desse jornalista: não se trata de um canceroso filho da puta, com todo o respeito aos que padecem de câncer?

Anderson Passos

Pontos high tech

São Paulo já começa a contar com novos pontos de ônibus. A princípio, são mesmo lindos. No entanto, é nós detalhes que moram os problemas.

Como os tais pontos são de vidro temperado, além da vulnerabilidade aos vândalos, que certamente lançarão pedras pós jogos de futebol, por exemplo, o sol forte que faz na cidade, por exemplo, será capaz de produzir uma sensação de calor ainda mais desconfortável.

É como disse um colunista da Folha de S.Paulo: no mínimo, o autor do novo ponto jamais andou de ônibus na cidade.

Calor dentro e fora do coletivo. A gente vê por aqui.

Anderson Passos

A voz da apuração fluminense

Finalmente, uma matéria sobre um rico personagem do carnaval do Rio de Janeiro. Acompanhem o texto publicado recentemente na Folha de S.Paulo pelo seu repórter Fabio Brisolla.

Dez, nota dez!’, anuncia há 20 anos ‘a voz da Sapucaí’

O locutor das notas das escolas de samba na apuração dos desfiles da Marquês de Sapucaí diz que interpreta, e não apenas lê os números que definem a história dos Carnavais.

Sua narração em tom grave para a nota máxima virou um emblema da cerimônia. “Dez, nota dez”, repete há 20 anos Jorge Perlingeiro, 68.

“São 400 notas que tenho de anunciar. Por isso, é preciso criar expectativa. Na medida em que vai se aproximando do final, começo a fazer pausas em algumas notas”, diz.

Perlingeiro literalmente mora na Sapucaí no Carnaval. Desde sexta-feira, ele dormiu em um contêiner com cama de casal, TV, ar-condicionado e banheiro, instalado no sambódromo e alugado pela Liesa -liga das escolas de samba.

Além de narrar as notas, ele é quem autoriza a entrada de cada escola na avenida, assim como o início de cada desfile.

Perlingeiro também comanda o programa “Samba de Primeira”, criado há quatro décadas. Começou na TV Tupi, seguiu para TV Corcovado, passou pela Band e chegou a CNT, onde está até hoje.

Apesar de popular, ele explica que algumas vezes é criticado pelas notas baixas anunciadas. “Faço papel de vilão. Já fui quase agredido na rua por uma velhinha de sombrinha porque dei nove para a escola dela. Tem gente que não entende que só leio a nota.”

Anderson Passos