Jaguar mais do que vivo

Outro dia o grande jornalista e cartunista Jaguar fez uma crônica onde afirmava estar com câncer. Fez a coluna, assumiu o caso e sumiu. E uma onda de preocupação tomou quem acompanha seu trabalho. Felizmente, a Folha de S.Paulo foi até o Jaguar e ele sapecou preciso e sarcástico “Fui corneado por meu fígado”. Leiam a seguir a entrevista concedida a Marco Aurélio Canônico.

Pouco depois de completar 80 anos, em fevereiro desse ano, Sérgio Jaguaribe, o popular Jaguar, recebeu a notícia: ao fim de seis décadas tendo bebido o equivalente a “uma piscina olímpica” de álcool, seu fígado sucumbira à uma cirrose avançada, acompanhada de câncer.
Ou operava e parava de beber para sempre ou morreria.
“Eu tinha tanto orgulho do meu fígado, me senti hepaticamente corneado”, diz o cartunista, tão célebre pelo humor implacável quanto por sua paixão por um boteco e um trago –não por acaso, um de seus livros chama-se “Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico” (Record, R$ 29,90, 160 págs.).
Jaguar recebeu a Folha no apartamento em que vive com sua mulher, a médica Célia Pierantoni, no Leblon, sentado ao redor de uma mesa que comprou para o boteco que nunca abriu. Nas paredes, desenhos feitos por ele e por vários colegas famosos.
Recusando-se a ser chamado de “senhor”, falou sobre sua nova rotina sem o álcool, seus planos e suas histórias, sempre com a verve afiada que usa tanto para falar de si mesmo quanto dos outros.
Lembrou ainda de episódios marcantes deste ano, como as mortes de dois companheiros de “O Pasquim” (Millôr Fernandes e Ivan Lessa) e o aniversário de 80 anos de outro (Ziraldo).
Ao fim das mais de duas horas de conversa abaixo resumidas, fez apenas um pedido: ser fotografado com um copo de cerveja –sem álcool– na mão. “Senão o pessoal não me reconhece.”

Folha – Como está sua saúde?
Jaguar – Em vez de morrer até o fim do mês, talvez eu tenha mais uns seis meses (risos). Eu estou com cirrose e mais uns três ou quatro tumores foram extirpados. Fiz um exame na semana passada que mostrou que eu estou como o Brasil: parado. Não melhorou nem piorou.
A notícia pegou todo mundo de surpresa, não?
Inclusive eu. Andei fraco, me sentindo pesado, e meu médico me mandou ir a São Paulo fazer exames. Tudo apoiado por minha mulher, que é médica. Foi a maior burrice que já fiz. Eu não saberia até hoje que estava doente, estaria tomando minha birita.
Eu fui ao Sírio Libanês, me enfiaram naquele canudo que faz uns barulhos estranhíssimos, você tem de ficar imóvel. Esse exame exige nervos de aço, depois dele você pode ouvir o relator do mensalão por 12 horas seguidas sem mostrar sinais de tédio.
E o mensalão tem rendido muito tema para charge?
Isso aí é até covardia, né, rapaz? Os humoristas não podem se queixar. Se tivesse de fazer, faria três por dia, as ideias vão aparecendo sem o menor esforço. Profissionalmente, vou te contar, sou muito bom nisso. Sou metódico, acordo e leio todos os jornais. E, desde que comecei nessa profissão, nunca parei.
Nem pretende?
Não. Vou fazer o quê com as piadas que eu bolo? Acho ótimo, é uma maneira de eu sacanear os caras, né?
Tem vítimas preferenciais?
O poder. “Hay gobierno [soy contra]…” Isso é batata. Conheci o Lula quando o Henfil o levou para o “Pasquim”, eu era amigo dele, mas depois que virou poder…
Como vai a vida sem álcool?
Estou fazendo experiências, drinques para abstêmios. Faço um Bloody Mary com o suco de tomate temperado com tabasco, limão, pimenta em pó. E cerveja sem álcool. Porque, ao contrário de muita gente, eu gosto da cerveja pelo sabor. Para ficar de porre, eu tomava coisas mais expressivas.
Foi uma adaptação difícil?
Como dizia Dostoiévski, e o Zé Keti também, o homem se acostuma com tudo. Eu bebia porque gostava de ficar bêbado. O grande problema é que eu posso beber o quanto quiser que não fico bêbado.
Fiz uns cálculos: a quantidade de cerveja que bebi nos últimos 50 anos dá para encher um carro-pipa. Bebi quase uma piscina olímpica. Entre cinco e dez cervejas por dia. Fora Steinhäger, cachaça, tudo que você pode imaginar.
Eu me sinto corneado pelo meu fígado. Eu tinha um orgulho dele, rapaz. Eu não tenho sinais de cirrose, mas a redundância magnética [risos] me entregou. Eu sou o pé na cova com o aspecto mais saudável que eu conheço.
Ainda bem. Neste ano já perdemos outros do “Pasquim”.
Este ano foi bravo para o humor. Foi-se o Millôr, foi-se o Ivan Lessa. Ao Ziraldo, quando me convidou para os 80 anos dele, eu disse que ia estar no Sírio Libanês. Aliás, queria deixar registrado: a melhor empadinha de frango do Brasil é na lanchonete de lá. Recomendo vivamente.
A hotelaria do Sírio é um negócio fantástico, você morre muito bem (risos). Em suma, não sei quanto tenho de vida, mas é mais do que esperava.
Sempre disse que quero ser cremado, mas não tenho essa coisa poética de querer que minhas cinzas sejam espargidas no mar ou debaixo de um carvalho que meu avô plantou. Não, pega as cinzas, joga no vaso sanitário e puxa a descarga. Morreu, acabou.
Você tinha um projeto melhor, de distribuí-las pelos bares.
Isso ia ser pela festa. Queria ver se fazia isso antes de morrer; por que vou ficar de fora? É claro que ia demorar semanas para ir a todos os bares onde bebi no Rio.
Você mantinha contato com o Ivan e o Millôr?
Tinha muito contato no dia a dia do jornal. Aí, o Ivan foi para Londres, ele me escrevia, mas não sou de escrever.
O Henfil, quando foi para Nova York, me escrevia cartas diárias, eu lia e não respondia. Uma vez ele veio aqui e me perguntou: “E as minhas cartas? Queria elas para publicar, porque eu caprichava naquelas cartas”. Eu disse que tinha jogado fora, não sabia que ele estava escrevendo para a posteridade, achei que era pra mim. Ele ficou puto da vida.
Você brigou com Millôr quando ele criticou a indenização que você e Ziraldo receberam do governo, pela ditadura?
Não liguei, não. Ele tinha um espírito, digamos, udenista, aquele negócio moralista. O Millôr ficava escandalizado com a minha vida, com minha mania de frequentar favela, ser amigo de Zé Keti, Madame Satã. Ele ficava apoplético quando me via amicíssimo do [bicheiro] Castor de Andrade. Mas, para mim, o Millôr é o máximo. É o melhor intelectual brasileiro, o melhor cartunista brasileiro, qualquer coisa que ele fizesse, era o melhor.
Como andam suas relações com o Ziraldo?
É quase um casamento, somos amigos há 60 anos, já brigamos uma porrada de vezes. Agora estamos amigos, ele está curtindo meu câncer à beça (risos). Mas somos completamente diferentes, inclusive nesse negócio de aniversário. Ele transformou os 80 dele num evento e ficou chateado de eu não ir. Ele falou: “Você vai ser a pessoa mais importante da festa. Todo mundo vai perguntar, ‘cadê o Jaguar?'”.
E como é sua rotina de trabalho atualmente?
Eu trabalho no máximo até as 11h, e o mínimo possível. Faço só o estritamente necessário: uma charge às segundas, uma às quintas, uma piada sobre botecos para o “Boteco do Jaguar”. Agora que estou proibido de beber, vou fazer um livro sobre coquetéis, com historinhas e uma seleção desses desenhos que eu faço e que saem num suplemento de “O Dia”.
Eu estava pensando em escrever uma autobiografia, mas o Ruy Castro me disse: “Não, eu vou escrever, já está tudo na minha cabeça”. Minha autobiografia escrita por ele vai ficar muito melhor.
Desenhar é algo que consome muito tempo para você?
Não. Desenho rápido, não faço esboço. E não sei desenhar. Aqui no Brasil, qualquer pessoa que faz alguma coisa por mais de dez anos, mesmo não sabendo, é considerada boa. Quando mostrei meus desenhos pela primeira vez ao Millôr, ele falou: “Pô, o seu desenho é péssimo”.
E como um desenhista ruim influenciou tanta gente?
Vendo esses meninos de hoje, sinceramente, não me vejo numa lista de 20 [melhores] cartunistas. Tem o André Dahmer, o Laerte, o Angeli, aquele Adão, que não sei por que cortou o sobrenome. O Sieber. Eles são inteligentíssimos. Eu ainda consigo entender todos eles.

RAIO-X JAGUAR
VIDA
Nasceu Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, em 29 de fevereiro de 1932, no Rio
CARREIRA
Começou como cartunista em 1957, na “Manchete”; paralelamente, era escriturário no Banco do Brasil (onde ficou até 1974); foi um dos fundadores e o responsável por nomear “O Pasquim” (1969), além de ter criado o personagem-símbolo do jornal, o ratinho Sig; também participou da criação do bloco carnavalesco Banda de Ipanema (1964) e da revista “Bundas” (1999), com Ziraldo. Publica charges e uma coluna semanal no jornal carioca “O Dia”
PRINCIPAIS OBRAS
“Átila, Você É Bárbaro” (1968), “Ipanema – Se Não me Falha a Memória” (2000), “Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico” (2001), “Ninguém É Perfeito” (2008)

Anderson Passos

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Ainda a violência – e alguma política

Outro dia um colunista da Folha de S.Paulo, Gilberto Dimenstein, abriu sua coluna com um título provocativo: “O governo Alckmin acabou”. No texto, ele se referia à onda de violência que assola São Paulo e advertia que, se providência nenhuma fosse tomada, o governo tucano sofreria um sério abalo.

Daí que lendo os comentários, o que havia de defensores do carismático governador de São Paulo não estava no gibi. Houve quem xingasse o colunista, até. E, sim, o chamaram de petista.

O fato é que os paulistanos têm verdadeiro horror de que sejam retomados, a partir dos presídios, os ataques do PCC verificados em 2006. Não é para tanto, aparentemente. Investigações preliminares indicam que a morte de policiais em curso têm ocorrido porque o PCC está trocando as dívidas dos seus filiados por cadáveres de policiais. Dívidas essas que, em alguns casos, chegam a R$ 10 mil. Não devia, mas ainda me surpreendo com a organização desses pestes.

Outro ponto, me parece, é que passados 20 anos do Massacre do Carandiru, que matou oficialmente 111 presos, a opinião pública conservadora da Pauliceia cobra uma reedição daqueles eventos sob o pretexto de calar o PCC definitivamente.

Geraldo Alckmin, como esperado, tem medido palavras e ações. Aceitou, inclusive, ajuda federal para tentar superar o problema. Verdade que dinheiro algum foi disponibilizado, se não ofertas para que os comandantes do PCC sejam transferidos para presídios federais, operação em andamento. Com esse gesto, o tucano abre um flanco para o PT no Palácio dos Bandeirantes – sede do governo estadual – e, se tudo der certo, poderá conferir aos petistas um certo crédito na disputa à sucessão de Alckmin em 2014. Alexandre Padilha, o ministro da Saúde que percorreu o estado nas últimas eleições municipais, poderá ser o nome novo do PT para a disputa.

O diabo é que até aqui vem dando errado para os dois lados – o tucano e o petista – vide a declaração de uma mãe à mesma Folha de S.Paulo, que perdeu um filho na onda de assassinatos, e que cobrou tanto da presidente Dilma Rousseff e do governador de São Paulo uma providência mais dura. E ela está mais do que certa.

Anderson Passos

Ainda o “Salafaia”

Mônica Bergamo e sua equipe entrevistaram o cramunhão. Eis a íntegra do texto divertidíssimo, aliás.

“Não estou em concurso de beleza”, diz pastor Silas Malafaia

O pastor carioca Silas Malafaia, 54, está com a faca na mão. Serra ao meio uma segunda baguete enquanto anuncia sua “visão expansionista”. “Vou abrir igreja no Brasil inteiro, minha filha”, afirma, enquanto toma lanche no intervalo de um dos dois cultos que celebrou no fim da tarde de terça-feira, no Rio. Planeja inaugurar mil templos até 2020 –toca hoje oito obras pelo país, a um custo de R$ 25 milhões.

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São Paulo é prioridade. “Logo, logo” vai “cair com tudo” na cidade. “Tenho pesquisado lugares. Não posso ter igreja para menos de 4.000 pessoas lá.”

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O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ramificação da Assembleia de Deus, maior grupo evangélico do país, lambuza o pão com margarina e corta uma fatia de queijo minas. Revela que está hoje à frente de 125 igrejas e de um rebanho de 36 mil fiéis. “Nosso crescimento é formiguinha, ‘vambora’, pá, pá, pá. Mas vamos chegar lá”, diz, entre goles de café com leite e suco de abacaxi.

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É na base do “pão, pão, queijo, queijo” que o pastor diz levar a vida. E uma proeza ele já conseguiu na capital paulista: virou a estrela da eleição municipal. Pautou o debate por uma semana ao dar apoio a José Serra, do PSDB, e dizer que iria “arrebentar” o petista Fernando Haddad por causa dos materiais para combater a homofobia preparados pelo MEC –que chama de “kit gay”.

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A Folha revelou que o tucano distribuiu material semelhante em São Paulo quando era governador –mas nem assim Malafaia mudou seu “voto”. Para ele, Serra “não é um grande orador, mas transmite sinceridade”. Já Haddad é “sa-fa-do”.

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Ao mesmo tempo, Malafaia diz que “não é criança” para “vender seus princípios” a partido “x” ou “y”. No Rio, por exemplo, é PT: apoia o senador Lindbergh Farias para o governo do Estado em 2014. Já o governador Sérgio Cabral (PMDB) recebe polegar para baixo por não vetar “leis trabalhistas que beneficiam homossexuais, monte de porcaria”. Afirma se opor à “cultura de privilégios” disseminada “pelos ativistas gays”.

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“O pessoal pensa que sou um radical xiita? É tudo gay, vamos metralhar, ‘pou, pou’? Não!”, diz enquanto simula com a mão um fuzilamento. Ele quer é converter o pessoal. E defende que a igreja seja “pronto-socorro” para quem quer deixar de ser homossexual. “Deus não fez bissexuais nem andróginos, fez macho e fêmea. Sinto repulsa. Aquilo é uma perversão.” Se um de seus três filhos (Silas, Talita e Taísa) fosse gay? “Amaria 100% e discordaria da prática 100%.”

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Em 2010, Malafaia estampou centenas de outdoors no Rio. Ao lado de sua foto, lia-se: “Em favor da família e da preservação da espécie humana”. Acha que “ninguém nasce gay. Cadê a prova do cromossomo homossexual?”. Essa condição seria “aprendida ou imposta pelo ser humano, um ser de ‘copiagens’ de comportamento”.

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São 19h quando Silas Malafaia termina a refeição e volta ao púlpito para o segundo culto do dia na sede de sua igreja, na periferia da cidade. Pede ao público que aplauda Anna Virginia Balloussier. “Tem uma repórter aqui da Folha. Quando jornalista pede pra vir, digo que a gente não tem nada a esconder.” Cerca de 2.000 fiéis batem palmas. Alguns gritam “amém”. Sua imagem aparece no telão ao discursar.

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Vaidoso, se diz “pobre, mas limpinho”. Revelou à coluna que fez implante no cabelo em 2011. “Tinha umas ‘careca’. O tapa-buracos aqui foi legal”, afirma, apalpando onde ficavam as entradas. Lembra que seu médico, de Recife, também atende José Dirceu. “Mas não tenho nenhum elo com esse cidadão, pelo amor de Jesus Cristo.”

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Malafaia está há três décadas na TV. Hoje compra horários na programação de Band, RedeTV! e CNT e é dublado em canais dos EUA (ele queria aprender inglês, “mas cadê tempo, com essa vida louca?”). Ele se reconhece como um dos líderes religiosos mais acessíveis à imprensa -dá o número do celular e “a cara a tapa” a quem for.

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Não raramente saem faíscas dessa relação. Naquele dia, no início da pregação, citou um jornalista que falou “do absurdo da igreja em usar cartão de crédito ou débito [para pagar o dízimo]”. “Engraçado, pra ir ‘prum’ motel pode usar cartão, pra comprar bebida também. Pra dar oferta, não? Vai ver se tô na esquina, vai plantar batata!”

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Por ano, a Assembleia de Malafaia arrecada oficialmente R$ 50 milhões com ofertas. Ele calcula que 60% sejam quitadas por meio de máquinas da Cielo. “Era um preconceito miserável em relação a nós. Como se constrói templo? Como se paga despesa? Desce anjo do céu e fala, ‘taqui’, pastor?”

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A voz do orador com 30 anos de experiência ricocheteia pelo ambiente. Na primeira fila, de bata rosa estampada, está sua mulher, a pastora Elizete, 53, com quem se casou, “virgem”, aos 21 anos. Às vezes aponta o dedo para o lado ao pregar, como uma versão gospel de John Travolta no musical “Grease – Nos Tempos da Brilhantina”. “Tem gente que pensa que igreja é formada de ‘analfabestas’, um bando de idiotas manipulados pelo maior malandro possível que é o pastor. Como se ninguém aqui fosse formado em nada.”

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Meia hora antes, no lanche com outros pastores, aproximou a boca do gravador da repórter para criticar a Folha. “Um cara faz um editorial elogiando o ‘kit gay’. Ou é demente ou é petista mesmo, com vontade. Editorial ri-dí-cu-lo!” Gesticula a ponto de quase encostar na comida seu terno de US$ 470, comprado na Flórida (“esse, no Brasil, custa entre R$ 3.000 e R$ 4.000”).

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A birra com “o seu Haddad” aumentou nos últimos dias. “A minha bronca é que ele agora vem com conversa fiada de que sou o submundo quando fala de misturar religião e política.”

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Conta que, em 2010, foi procurado pela então candidata à Presidência Dilma Rousseff. Teria passado 15 minutos com ela ao telefone explicando que não a apoiaria por causa da polêmica do aborto –ela já havia dito em entrevistas que defenderia a descriminalização, posição da qual recuou na campanha.

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Foi de Serra. Mas a presidente Dilma, depois de eleita, o cativou. “Diante de mais de 3.000 prefeitos querendo redistribuir royalties do petróleo, ela não afinou, não. Gostei de ver, é estadista.”

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Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek são admirações. Lula também, “mas essa imagem tem caído um bocado. O cara faz acordo com [Paulo] Maluf. E descia o pau, na época de líder sindical, nesses caras da ditadura”.

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“Em 1989, apoiei Leonel Brizola e depois Lula, quando ele era o Diabo no meio evangélico. Na época, o [bispo Edir] Macedo chegou à igreja [Universal], abriu a camisa escrita Collor e chamou Lula de Diabo.” Em 2003, virou o representante evangélico do “conselhão” de Lula, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Não foi convidado pessoalmente pelo presidente, e sim indicado por parlamentares. “Lá, eu era o cara. Agora, sou o submundo da política.”

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“Já viu o jogo como é? Humanistas, ateus, filósofos, operários, sindicalistas, líderes comunitários… Todo mundo pode falar. Aí os ‘esquerdopatas’, quando fala um pastor… ‘Não mistura religião com política.’ Que história é essa? Sou cidadão e pago imposto. Tenho direito de manter minhas falas baseadas nas minhas crenças.”

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E ele gosta de falar. Formado em teologia (Instituto Bíblico Pentecostal) e psicologia (universidade Gama Filho), aposta que é o pastor que “ganha as ofertas mais altas” para falar em conferências. “De R$ 3.000 a R$ 100 mil.” Há 25 anos, diz, abriu mão de um salário da igreja. Estima que hoje estaria recebendo R$ 70 mil mensais.

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De família tradicional de pastores da Assembleia de Deus, filho de um ex-combatente da Marinha e de uma pedagoga, assumiu a liderança da Vitória em Cristo em 2010, com a morte do sogro.

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Ele e a mulher vivem numa casa de dois andares num condomínio na zona oeste do Rio, com a empregada “há 26 anos conosco” e uma cadela da raça labrador que Malafaia não lembra o nome. Têm como vizinhos “o coroa” (Ary Fontoura) e “aquela menina que apresenta um programa de sexo” (Fernanda Lima).

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Morar em SP? “Deus me livre!” Ainda assim, a cidade é o queijo para a faca em sua mão. “Há um apelo muito grande, e eu vou chegar lá”, afirma, pondo fé em sua “abrangência nacional”. “Não tenho medo de dar minha cara a tapa, não estou nem aí se alguém não está gostando. Não estou em concurso de beleza.”

Anderson Passos

Leonard Cohen

Recentemente assisti um vídeo desse gênio canadense e, comovido, perguntei-me: já que trazem tanta merda ao Brasil, por que não fazer um bem e promover a vinda de Leonard Cohen para uma tour por aqui?

Leiam o comovente apelo do André Barcinski na Folha. Me somo a ele, claro. Abaixo, a crônica e claro, uma maravilhosa pérola do canadense:

Cohen emociona 15 mil em Madri

Em show de quatro horas, músico canadense tocou clássicos e temas do disco mais recente

ANDRÉ BARCINSKI
CRÍTICO DA FOLHA
Um apelo aos nossos promotores de shows: por favor, alguma alma caridosa traga Leonard Cohen ao Brasil.

O cantor e compositor canadense, que acabou de completar 78 anos, está no meio de uma turnê mundial de seu mais recente disco, “Old

Ideas”. E seu concerto é uma dessas experiências musicais inesquecíveis.

Na noite de quinta-feira, em Madri, Cohen hipnotizou uma plateia de 15 mil aficionados por quatro horas, numa verdadeira maratona de emoção, inspiração e virtuosismo musical.

O público retribuiu: abandonou as cadeiras e ouviu as últimas seis músicas em pé, gritando e batendo palmas, antes de presentear o ídolo com uma chuva de flores e bilhetes. Muita gente chorava.

Música pop não fica melhor que isso.

Assim que entrou no palco, Cohen, vestido impecavelmente de terno e chapéu, emocionou a plateia ao dizer: “Amigos, não sei quando voltaremos a nos encontrar. Por isso, vamos fazer desta noite um momento especial. Vamos dar a vocês tudo que temos”.

E deram mesmo. Por exatas quatro horas (o show começou às 21h15 e terminou à 1h15, com um intervalo de 20 minutos), Leonard Cohen e uma banda de nove músicos, incluindo três cantoras e o extraordinário violonista catalão Javier Mas, tocaram 33 músicas para um público que incluía de adolescentes a idosos de 70 e 80 anos.

Cohen andava pelo palco saudando os músicos. Tirava o chapéu para as cantoras e ajoelhava ao lado dos músicos a cada solo.

Sua voz, embora não tenha mais a potência de outros tempos, ainda consegue emocionar. Seu fraseado é perfeito, e a maneira como canta, ora sussurrando, ora narrando, é única e inimitável.

Como ele próprio diz em “Tower of Song”: “Eu nasci assim, não tive escolha / Eu fui abençoado com uma voz de ouro”.

Suas limitações físicas ficam evidentes: em algumas canções, como “The Gypsy’s Wife”, “Coming Back to You” e “Alexandra Leaving”, ele nem canta; fica apenas admirando as cantoras.

No fim do show, estava visivelmente cansado. Mas a plateia, percebendo seu esforço, o aplaudia ainda mais.

O repertório foi irretocável. Clássicos como “Dance Me To The End of Love”, “Bird on the Wire” e “Suzanne” se misturaram a canções do último disco e a raridades, como “The Guests”, que ele não havia tocado nessa turnê. O público conhecia e cantava todas as músicas.

A sequência de “I’m Your Man”, “Hallelujah” e “Take This Waltz” fez o público inteiro levantar das cadeiras e assim ficar até o fim do show, meia hora depois.

A apresentação foi envolta numa comovente sensação de despedida.

Ao final, Cohen disse: “Espero, de coração, que possamos nos encontrar novamente”, antes de liderar a banda numa linda versão de “Save the Last Dance for Me”, do The Drifters. Um encerramento perfeito para uma noite perfeita.

Fica novamente o pedido: por favor, alguém traga esse sujeito ao Brasil, antes que seja tarde demais. Um show desses não tem preço.

Anderson Passos

Mordaça

Transcrevo texto da revista eletrônica Portal Imprensa, a propósito de ameaças feitas a um colega da Folha de S.Paulo, André Camarante, afastado de suas funções após ameaças de pseudo leitores. Ao profissional e à sua família, a minha humilde solidariedade. Ao candidato a vereador em questão, os meus votos de câncer no reto. Acompanhem a história:

Repórter da Folha é afastado após sofrer ameaças

Vanessa Gonçalves* | 03/10/2012 14:00

Entre as áreas mais difíceis e incômodas para cobertura – sobretudo no jornalismo diário – é a editoria de polícia. Seja pelas pautas sempre áridas, seja pelo contato frequente com temas que, vira e mexe, acabam “desagradando” um ou outro lado. Não é raro que membros da polícia se sintam “ofendidos” por abordagens da imprensa, principalmente quando noticiados, por exemplo, casos de abusos de poder, violência sem justificativa e ações de milícias.

Recentemente, o jornalista André Caramante, da Folha de S.Paulo, que atua na área há 13 anos, tornou-se mais uma vítima desse imbróglio. Há cerca de três meses, o repórter vem recebendo ameaças – umas veladas, outras nem tanto – que partiriam de Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, ex-chefe das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e candidato a vereador pela cidade de São Paulo pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), assim como de seus seguidores e eleitores.

Segundo Caramante, tudo começou quando, incomodado com a cobertura jornalística do repórter, o ex-chefe da Rota usou sua página pessoal no Facebook para expor sua opinião acerca do tema. “Resolvemos fazer um texto para falar sobre a página pessoal do Paulo Telhada, onde ele chamava suspeitos de vagabundos e dizia que tinham que morrer mesmo”, conta o jornalista.

A pressão sobre o jornalista começou ainda na internet, quando diversas pessoas reproduziram as palavras do ex-chefe da Rota. “Muitas pessoas abriram o eco pelo que ele havia escrito, com os mais variados comentários, como ‘bala nesses vagabundos mesmo e em quem defende vagabundo também’ ”. O repórter defende sua atuação como jornalista e reafirma não ter partidarismo para defender policiais ou criminosos. “Não estou aqui para defender A ou B. Defendo o cumprimento da lei.”

BODE EXPIATÓRIO

A partir de então, a paz para exercer seu ofício terminou. Toda e qualquer matéria de Caramante publicada no site da Folha era bombardeada por comentários ameaçadores e ofensivos. Em texto publicado no dia 7 de agosto de 2012, sob o título “Dois PMs são detidos após morte de suspeito de roubo em SP”, um leitor comenta: “Não estou rogando praga. Mas o nosso estimado ‘experiente foca’ ainda será vítima de um sequestro relâmpago e irá discar para o celular do Marcola.”

A situação ficou ainda mais grave quando o blog “Flit Paralisante”, ligado a policiais militares, divulgou uma foto de Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, como se fosse Caramante, com uma mensagem ainda mais ameaçadora do ex–juiz e advogado Ronaldo Tovani, citado em matéria por ter sido denunciado à Justiça por lavagem de dinheiro: “A palavra escrita, mentirosa e ferina, do jornalista André Caramante agora tem ‘cara’. A foto dele está estampada no ‘Flit’ e passou a ser do conhecimento de todos, inclusive dos policiais militares que ele tanto critica e ofende. Espero, contudo, que não apareça algum maluco querendo fazer justiça com as próprias mãos, quando se deparar com ele por aí”.

Para o jornalista, atitudes como essa não passam de intimidação para evitar que a Folha e o repórter cumpram sua função de informar.

LIBERDADE DE IMPRENSA

Ao tomar conhecimento das ameaças contra Caramante, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) se posicionou, visando salvaguardar a integridade do repórter emitindo uma nota de repúdio, além de solicitar providências por parte do governador e do secretário da Segurança Pública de São Paulo. Além disso, também solicitou à Folha que fizesse cobertura total do caso, de forma a torná-lo público. Segundo José Augusto Camargo, presidente do SJSP, “a entidade sempre orienta o jornalista agredido a tornar o ato público, pois funciona como proteção à própria pessoa, uma vez que a falta de punição alimenta o agressor”.

Buscando zelar pelo jornalista, o sindicato também encaminhou ofício para diversos órgãos, entre eles a Ouvidoria das Polícias, Corregedoria da PM, Ministério Público do Estado de São Paulo e à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, relatando a situação. Em razão disso, a ouvidoria da polícia pediu abertura de inquérito para averiguar se há irregularidade no comportamento do coronel Telhada. Até o fim da reportagem, não havia nenhuma conclusão sobre a investigação.

Na opinião do deputado Protógenes Pinheiro de Queiroz (PC do B /SP), autor do Projeto de Lei nº 1.078/11, que visa federalizar crimes contra jornalistas, a ameaça a André Caramante deve ser apurada, pois se trata de uma forma de censura à imprensa. “Em qualquer hipótese de ameaça à atividade de jornalista e dos profissionais de comunicação, o caso merece ser apurado no âmbito federal, pois representa uma ameaça à democracia e uma mordaça na voz do povo, que são os jornalistas em sua maioria”, revela.

CORONEL NEGA

Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, Telhada começou afirmando não ter problema algum com o jornalista da Folha. “Eu sou um cara da paz. A pessoa fica falando da pessoa errada e depois não quer ouvir a verdade”, afirmou. “Eu acho uma grande covardia, uma grande falta de profissionalismo, o jornalista escrever o que ele pensa e depois se dizer vítima de ameaça”, completa.

Ainda assim, o coronel, mais uma vez pelo Facebook, mostrou seu descontentamento em relação ao trabalho do jornalista. Em 15 de julho de 2012, em resposta à matéria “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, o coronel comentou em sua página pessoal. “Acho incrível que um jornal com a envergadura da Folha de S.Paulo mantenha em seu quadro de funcionários pessoas que defendem abertamente o crime, procurando tratar criminosos como suspeitos ou civis, enquanto a população sabe a verdade das coisas.” Após repercussão de suas palavras, o post foi apagado.

Em 15 de julho de 2012, em resposta à matéria “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, o coronel comentou em sua página pessoal. “Acho incrível que um jornal com a envergadura da Folha de S.Paulo mantenha em seu quadro de funcionários pessoas que defendem abertamente o crime, procurando tratar criminosos como suspeitos ou civis, enquanto a população sabe a verdade das coisas.” Após repercussão de suas palavras, o post foi apagado. Ainda que as conversas não tenham acontecido pessoalmente, o jornalista garante já ter falado com o coronel por diversas vezes. “Realmente, nunca nos vimos, mas já nos falamos diversas vezes ao telefone, basta ver algumas matérias que têm aspas dele.”

O coronel afirma que jamais ameaçou o jornalista e que as reações aferidas pelo jornal e pelo repórter têm a ver com pessoas que se irritaram com as críticas à corporação, publicadas nas matérias. “Jamais fiz isso, não incentivei ninguém a fazer isso. A população se sentiu irritada com esse cidadão por causa das inverdades que ele vive dizendo e o criticou duramente. Eu não pedi, não incentivei isso e falei o seguinte: ‘As pessoas que se sentiram ofendidas que mandassem um e-mail à Folha de S.Paulo’. E foi o que foi feito. Se alguém o ameaçou, o ofendeu, pode ter certeza de que não fui eu”, completa.

O fato é que a situação se tonou insustentável. Em meados de setembro, a Folha de S.Paulo optou por enviar André Caramante, junto de sua família, para destino desconhecido para sua segurança. Ainda que temporariamente, calaram-se as denúncias.

Anderson Passos

Trapalhadas da Virada (2)

Destacado como o evento mais esperado da Virada, a galinhada que o mega chef de cozinha iria servir debaixo do Minhocão desandou. Chegando ao local, reclamou o cozinheiro ao site da Folha de S.Paulo, a turba (faminta?) já havia invadido o espaço desobedecendo a distribuição de senhas.

“Fui até lá, mas a organização pediu para eu não entrar. O pessoal invadiu. Não conseguiram mais respeitar. Mandei servir o que tinha de comida fria. Não tinha água, não tinha como esquentar a comida, não tinha gás, não tinha panela, não tinha água, não tinha nada. Não saio de casa para fazer bobagem, fiquei triste. Foi uma sequência de erros. Paguei o preço de ser o primeiro. A organização não montou a estrutura a tempo. Fico triste porque era uma festa em que eu queria estar e porque queria fazer melhor”, disse o badalado – e desta vez tristonho – Alex Atala.

Anderson Passos

Millôr por Danuza Leão

Ninguém melhor do que Danuza Leão, que conviveu com Millôr Fernandes para a ele dedicar tanta ternura em prosa. A homenagem foi publicada no jornal Folha de S.Paulo.

Galanteador e tímido, Millôr não era amigo de qualquer um

DANUZA LEÃO
COLUNISTA DA FOLHA
Eu não via Millôr desde que ficou doente, há pouco mais de um ano, e não tentei vê-lo durante esse tempo. Nós nos respeitávamos e nos entendíamos; era o que ele faria, se a situação fosse inversa.

Quando morre alguém de quem gostamos, a tristeza que sentimos tem muito de egoísmo, no sentido do quanto essa pessoa vai nos fazer falta. Millôr vai fazer falta, a mim e a muita gente.

Para quem vou telefonar, mesmo morrendo de timidez, para mostrar um texto? (A primeira vez foi quando escrevi meu primeiro livro.) A quem vou pedir ajuda para um título e que vai me mandar, em poucos minutos, um e-mail com 20 sugestões, entre elas “Quase Tudo”?

A quem vou pedir para ouvir um problema pessoal, a quem vou poder contar qualquer coisa, que vai me escutar pacientemente e ajudar no que for possível?

Millôr não era fácil -em nenhum sentido- e, se tivesse nascido mulher, teria sido, como se dizia, “uma moça difícil”. Nunca escondeu ser machista, gostava das moças bonitas, mas nunca foi um paquerador; era galanteador, o que faz toda a diferença.

E mais: era um tímido e dificilmente entrava num restaurante sozinho.

Ele não era amigo de qualquer um, e tenho orgulho de ter sido amiga dele desde -desde quando mesmo?

Há muitos anos. Desde o tempo em que ele corria na beira do mar de Ipanema, num tempo em que isso ainda não era moda; desde o tempo em que era um craque no frescobol; desde o tempo em que jogávamos pôquer nas noites de sábado -Samuel [Wainer], Paulo Francis, Ivan Lessa, Millôr e eu-, Millôr às vezes pedindo só uma carta e dobrando a aposta com um par de seis, só para desnortear seus parceiros -e na rodada seguinte, fazendo tudo ao contrário.

Tudo isso, e mais um monte de boas lembranças, nunca mais. É esse nunca mais que é duro.

Anderson Passos