Deixando as pernas me guiarem

Fazia muitos domingos, fazia na verdade muitos meses, que eu deixara de andar. A coisa começou tempos atrás – talvez cinco meses – quando fui escalado para me revesar entre a minha casa e a do meu irmão enquanto ele estava em viagem.

Depois veio o frio, com ele a preguiça, um cansaço que eu não pensei que fosse voltar a se abater sobre este escriba e fim. De repente, já não tinha horizonte, a cabeça já não mais viajava no tempo, mesmo as leituras não me levavam a nada.

Daí que no domingo que se foi (8/9), minha casa ameaçava sufocar-me, a mesma opressão de ultimamente. Um sol incrível lá fora e eu enfurnado sob cortinas escuras, sem que a luz do dia me contemplasse.

Passava das 15h30min e uma ideia fixa me assolava: preciso andar. E eu, que até então vestia um roupão de inverno – sim, minha casa é gélida – pus um short, uma camisa, calcei os tênis e ganhei as ruas novamente.

O Minhocão repleto de crianças, seus pais, pessoas sob bicicletas, outras contemplando o nada e havia até quem tirasse um cochilo. Flagrei um conterrâneo tomando mate, mas não me juntei a ele. Preferi andar.

De repente, um contratempo. A bateria do I Pod foi embora e um ingrediente importante do meu andar reflexivo me deixara surpreendentemente. Tudo bem, nem o I Pod nem eu nos juntávamos há tempos.

Indo em direção ao Pacaembu, onde Corinthians e Náutico se enfrentavam, tive um breve temor. Afinal, a camisa que eu vestia era verde, o que nessa cidade é motivo para morrer, lamentavelmente, se você cruzar com as pessoas erradas.

Mas a torcida corinthiana estava em sua ampla maioria dentro do estádio, havendo um ou outro do lado de fora. Donde segui sem problemas. A seguir, peguei o caminho de volta por Higienópolis e uma hora e alguma coisa depois, estava em casa me perguntando porque deixara essa rotina aparentemente medíocre de lado.

No momento em que teço essas palavras, estou ganhando a rua de novo graças ao despertar que um caminhão pipa – desses que lavam a rua e fazer um barulho de matar – da prefeitura me permitiu.

Anderson Passos

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Raridade literária

Há algum tempo procurei o livro sobre o centenário do Fluminense, editado em 2002, mas sem sucesso nas primeiras buscas, desisti. Um dia, numa conversa com meu irmão, Everson Passos, ele sapecou-me que tinha a obra.

Um tempo mais tarde, como meu irmão tivesse de viajar para o sul, recomendou que eu procurasse entre os tantos livros dele, que eu procurasse a obra. Procurei sedento e nada.

Até que recentemente, achei a obra e na noite de quarta-feira (20) apanhei o livro e comecei a deliciosa leitura. Primeiro, de trás para frente, folhei uma a uma as páginas para ver o roteiro da obra. Passei pelo título carioca de 1995, com Renato Gaúcho fazendo gol no rival Flamengo; pelo primeiro Brasileirão – e único título registrado na obra – vencido diante do Vasco da Gama até que fui ao começo.

A obra remonta o Rio de Janeiro dos anos 1800 até a reunião de 1902 que quase fundou o Rio Footbal Club no lugar do Tricolor das Laranjeiras. Não houve acordo, que veio no encontro seguinte e com a fundação do Fluminense, que tinha no primeiro uniforme o cinza e branco.

Os primeiros relatos mostram ainda a fundação da primeira sede, na Rua Guanabara, em Laranjeiras e a cisão de um grupo de jogadores que, já campeões estaduais com o Tricolor, romperam com a diretoria e fundaram o Flamengo.

Daí veio o primeiro Fla-Flu, o Tricolor desfigurado contra o poderoso Flamengo, base do time campeão estadual. E pasmem: o Flu venceu a peleja por 3×2 com o tento de desempate sendo assinado aos 32 da etapa final. Na época, cada tempo d jogo era disputado em 40 minutos.

A leitura avança, cada vez melhor. Em tempo conto mais.

Anderson Passos

Do engajamento

Eu lembro de, numa época distante, ter sido estagiário simultaneamente na rádio FM da universidade onde estudei e de trabalhar como rádio-escuta no governo do estado do Rio Grande do Sul, gestão Olívio Dutra.

Para quem desconhece o jargão jornalístico, rádio-escuta é o peão da assessoria de imprensa que comunica que determinado apresentador, de determinada rede, está dando um malho e que um direito de resposta pode, eventualmente, inibir estragos à imagem, etc.

Mas eu dizia de engajamento e, mesmo naquela época o meu era zero, estritamente profissional. Tanto era que um colega da FM, sempre que me via chegar, sapecava:

– Chegou o vermelho.

Quando na verdade, outro colega em comum relatou, vermelho (era uma forma que usávamos para classificar petistas) era o meu próprio crítico que tinha ficha partidária, carteirinha, o escambau e, ao que leio por aí, ainda tem e usufrui consideravelmente dela.

Volto ainda aqueles tempos para acrescentar que tanto meu engajamento foi zero que Olívio não se reelegeu, assumiu Germano Rigotto (PMDB) e eu me mantive nas funções até o final do meu estágio e fui recomendado para atuar na Assembleia Legislativa. Tudo por méritos profissionais e não necessariamente por cores partidárias.

Eu dizia de engajamento e vou terminar. O meu último resquício dele, que ainda mantenho vivo, é o de jamais trabalhar para qualquer maldito pastor evangélico. A Record, por exemplo, paga mais? Pode até pagar, mas a grana me parece vir suada de gente humilde, descerebrada, que aposta todos os seus quinhões na roda viva das madrugadas de um Fala Que Eu te Escuto da vida. Donde, com orgulho, afirmo: que vão de retro, como eles mesmos gostam de dizer.

Agora encerro o texto: eu não lembrava de um último ato de engajamento meu até que ontem, lendo o blog do Juca Kfouri, me deparei com uma petição para trocar o nome do Engenhão, hoje creditado a João Havelange, para o jornalista João Saldanha.

Justificava o Juca que, dadas as denúncias de pagamento de propina pela Justiça da Suíça ao ex-dirigente maior da Fifa e da CBD, não havia sentido manter a homenagem a Havelange. No que estou amplamente de acordo. Ademais, fã de carteirinha do João Saldanha – herança do meu amado avô Prony da Silva Passos – e do próprio Juca, que sempre me acolheu amavelmente, fui lá e assinei a petição.

Pra chegar ao Blog do Juca, o caminho é este. Para assinar a petição para o Botafogo criar vergonha na cara e saudar um de seus mais ilustres torcedores, clique neste espaço.

Anderson Passos

Essa é pra você que nasceu em… (1)

1986.

Naquele ano de Copa do Mundo do México, o Brasil perdia um de seus maiores comunicadores – Abelardo Barbosa, o velho guerreiro Chacrinha.

Volto ao evento esportivo: em 1986 a Globo tinha como narrador principal o tirulirulá de Osmar Santos, escudado por Galvão Bueno. E o garoto propaganda vai abaixo: Araken, o showman. E o jingle entoado por Gal Costa. Bons tempos, apesar da pataquada dos pênaltis da nossa seleção naquele mundial.

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Anderson Passos

Torcedores

Vi outro dia um gremista, de verde, quebrando a mão num vídeo repleto de ofensas e referências diabólicas ao assistir à derrota do Grêmio por 2×0 diante do Palmeiras em pleno Olímpico. E essas alturas, com o Tricolor dos pampas eliminado, imagino que o sujeito tenha pego em armas.

Mas para mim o campeão é este torcedor do América que, acompanhado dos pais na arquibancada, relata seu sofrimento entre ofensas aos jogadores. Uma pérola…

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Anderson Passos

Ronaldinho Gaúcho

Como torcedor do Fluminense eu devia estar a rolar de rir com a desgraça do Flamengo e a perda do Ronaldinho Gaúcho. Não é por ser gaúcho – porque a nossa turma lá tem um forte Q de bairrismo, separatismo, essas merdas – mas fiquei triste pelo atleta.

Da Copa de 2002 até 2006 ele brilhou como nunca entre os maiores do futebol mundial. Vi Maradona, vi Zico, mas nada comparável a Ronaldinho até então.

Veio a ida para o Milan e com ela a decadência, a irregularidade das atuações, as festas, o sorriso antes largo e farto se apagando. Chegando ao Flamengo, quem acompanha o esporte sem paixões já sabia: o casamento duraria pouco. E eis o epílogo final.

Com a mãe doente, Ronaldinho vai acompanhar o duríssimo tratamento contra um câncer que dona Miguelina, vai enfrentar. O que será do craque? O que será do seu sorriso? O tempo dirá. E, honestamente, espero que o tempo conspire a favor dele.

Anderson Passos

Coleguinha

Dia desses eu circulava na redação onde trabalho e dei de cara com uma nova colega. Tosco que sou, apenas a observei sem nada dizer. Na noite de sexta (18/05), enquanto eu ocupava o espaço à mesa do meu editor, vi que ela conversava com uma colega e, o olhar das duas se dirigiu para este cronista. Donde eu pensei:

– Vai ver elas cochicham pois que a nova colega estará de plantão comigo no final de semana.

Pois bem, veio o plantão e Maria Carolina de Ré apresentou suas armas: fez um café bem composto – eu não podia experimentar por força do Mal de Parkinson, mas bebi dois copos.

A seguir, a meu convite, sentou-se à mesa onde eu estava e contou das duas faculdades – Letras e Jornalismo – e que aquela era sua primeira experiência em jornal diário.

Mais tarde, ela deixou escapar ser paulistana da gema – e palmeirense – e, pasmem, surpreendeu falando de futebol com desenvoltura, o que não é comum.

À saída, levei a colega até o metrô e ela entusiasmada com a cultura transbordante de São Paulo me falou que tinha um blog voltado justamente à programação da metrópole. Fiquei de lhe enviar o endereço desta ilha. O dela é o este.

Anderson Passos