Joia da coroa

Lá se vai quase um mês sem remédios. Lá se vai quase um mês que meu amigo Parkinson adormece ou, raramente, me faz tremer leve.

O que será que trama o meu companheiro de jornada? Trama ou treme? Ou conspiram um e outro? Um é exatamente outro?

Eu sou só dúvidas desse meu acompanhante onipresente que desde dezembro último quer ser protagonista do meu tempo. Respeito sua vontade, mas muito me irrita sua persistência.

E, a dizer dos meus dias com nove, dez comprimidos diferentes a me limitarem cada vez mais, eu pensei que fosse cair num mergulho sem fim no abismo. E assim quase foi. Instintivamente eu pausei tudo para tentar ter dias melhores.

E, a dizer do meu salto solitário para o inferno, posso dizer que ergui uma rede resistente às trevas. E agora, de tal sorte flerto com a morte num saudoso whisky derramado garganta abaixo, lavando minha alma em fogo. Fogo de alívio de saber-me apenas vivo, registre-se.

Surpreso dessa minha paz ousada e destemida, conversei com minha neurologista Neusa Pires mostrando só e apenas cautela. E ela disse-me assim:

– Otimismo, otimismo. Comemore mesmo esse passo.

Assim, mesmo passados alguns dias da minha consulta mais recentee, sigo comemorando. E dividindo a doutora Nídia, com quem sofreu comigo, pouco ou tanto não importa.

E eu, antes submerso num barril de pólvora destruidor, agora respiro. Não de todo com alívio. Mas respiro. E essa sensação é pacificadora.

Anderson Passos

Notícia da semana

Dia desses fui à minha consulta mensal com a Dra Nídia Pires, minha neurologista. Levava comigo na manga exames de sangue e de doppler de artérias e a mais destemida de minhas decisões recentes, a qual explico ainda neste texto.

Analisando os exames, ela comentou que as artérias estavam desobstruídas, mas pediu atenção à alta da glicose. Apurando-se mais nos exames de sangue, pediu para que eu me consultasse com um endocrinologista para tentar ver a chance de eu desenvolver diabetes.

Então sapequei a ela:

“Não sei a notícia é boa ou ruim, mas há três semanas parei com todos os remédios”, disse com cautela.

Imediatamente ela pediu que eu me erguesse da cadeira e andasse um pouco para verificar como estava minha passada e a coordenação de meus movimentos.

E, pela primeira vez desde que iniciamos o tratamento contra o Mal de Parkinson, ela animou-se e disse.

“Temos tremor muito leve, mas de um modo geral o senhor [ ela me chama de senhor] está muito bem”.

Enquanto ela descrevia meus progressos, elaborei uma pergunta que me pareceu audaciosa.

“O diagnóstico pode estar errado”?

Ela pediu-me cautela e mais uns meses para continuar avaliando. Preventivamente, pedi que ela mantivesse apenas a receita do Rivotril para emergências. Leia-se “tremores”.

Falei da linda sensação de salivar de novo – item que um dos remédios me sonegava a título de efeito colateral – das minhas andanças pela cidade de modo a controlar o colesterol – item que de fato foi reduzido consideravelmente.

Então, finalmente, a doutora Nídia relatou que acompanha um caso de um paciente há cinco anos onde verificou que os sintomas dele igualmente desapareceram. Ela mantém as consultas pois que, assim como aparecem, os sintomas do Parkinson podem voltar.

Espero que meu caso seja este. E sem retorno em breve tempo dos males que me afligiram esses meses todos.

Anderson Passos

Coming back do life (3)

Na sexta (15/6) que se foi, consultei-me com a Dra Nídia Pires, e ela se disse animada com o fato de eu não estar tão trêmulo. A consulta anterior poderia ser classificada como um desastre.

Contei que estava sem o relaxante muscular que tomo para dormir há duas semanas. E que estava tranquilo com as cinco, seis horas de sono diárias. Ela atalhou: O ideal eram oito, nove horas de sono e com qualidade.

Não obstante, relatei alguns episódios de tonturas e ela me pediu novos exames. Os novos exames me desanimaram, confesso. Mas não há como fugir. A minha notável neurologista completou que se sentia frustrada porque tinha pressa em acabar com meus males. Silenciamos. E acho que nesse silêncio pactuamos: não vamos desistir.

E assim a sexta passou a ter ares mais animadores. E eu nem sonhava que seria tanto.

E volto às minhas pérolas de ouro no próximo post.

Anderson Passos

Coming back to life (1)

Eu não sei se deveria revelar isto, mas vambora: um dos sintomas mais pesados do Mal de Parkinson é a reclusão.

No meu caso, ela se deu de modo progressivo, ainda que eu não conhecesse a causa – fui diagnosticado apenas em dezembro úlitimo.

Mas voltemos ao meu período abominável. No começo, não tinha vontade de sair para almoçar com ninguém do ambiente de trabalho. Uma vez, logo chegado ao jornal onde trabalho, fui instado pela onipresente Marina Diana, então colega de redação, a almoçar com ela e os demais colegas.

Tremi full time e mal consegui comer. Achava que era o frio da barriga do emprego novo. O tempo provou que não. Dali em diante, ou almoçava com a Marina – quando ela vinha almoçar no jornal – ou nem almoçava. Ou o fazia sozinho, correndo. Pra ninguém ver o meu estado “vibratório”.

Vida noturna então, nem pensar. Contam-se nos dedos de uma mão as vezes em que saí. No máximo padarias, cervejinhas – quando podia – e só. Nada de baladas.

Mas eu tinha amuletos. Que o tempo me ajudou a perceber com clareza espetacular.

Anderson Passos

Eventos jornalísticos também era a mesma coisa. Tremores em menor ou menor grau e vergonha. Toda a vergonha do mundo. Então veio o diagnóstico e comecei a ler a respeito e comecei a entender o por que de alguns comportamentos.

Transe

Dia desses fui na minha neurologista para saber o quanto meu companheiro Parkinson já havia avançado ou não. Vendo que eu tremia desabaladamente, ela mostrou-se um tanto chocada com o que vira. e tanto, que mandou-me comprar uma medicação chamada Akineton.

Comprei e, por dois ou três dias, me mediquei conforme eu e ela estabelecemos. Os dias avançaram e eu me vi regredindo.

Por mais de uma vez me vi em transe ao subir escadas ou a andar na rua. Minha dicção, que já é uma bosta, desapareceu de todo. A boca secou mais ainda e até minhas frases ficaram desconexas. Pior que eu tinha ciência do que dizia – comentando que estava errado – e culpando na medicação.

Apavorado pois que até vultos eu enxergava, e com eles dialogava aqui em casa coisas absurdas, escrevi para a minha doutora que cravou:

– Corte o Akineton imediatamente.

Hoje, enquanto escrevo este texto, as coisas vão se encaminhando melhores. É torcer para, até o próximo mês, os avanços sejam retomados.

Anderson Passos

The drugs don’t work

Como faço a cada mês, fui nessa semana à minha neurologista. E, se um dia comemorei aqui progressos, tratei de esquecê-los pois que assisti, nos meus últimos dias, os tremores voltaram com “entusiasmo” e, alguém que me veja lavorando dirá algo como “Anderson Passos, o repórter em pleno estado vibracall”.

A descrição é “boa” pois que os músculos da face travam, a dicção se complica, mãos e pernas já não mais se contêm e ameaçam não me manter em pé por conta de dores musculares terríveis, sem que eu fizesse esforço maior para tê-las como companhia.

O resultado é que saí do consultório com um monte de novas receitas e novos medicamentos. A seguir, conto os resultados. Se me coordenar o suficiente para teclar aqui.

Anderson Passos

Coleguinha

Dia desses eu circulava na redação onde trabalho e dei de cara com uma nova colega. Tosco que sou, apenas a observei sem nada dizer. Na noite de sexta (18/05), enquanto eu ocupava o espaço à mesa do meu editor, vi que ela conversava com uma colega e, o olhar das duas se dirigiu para este cronista. Donde eu pensei:

– Vai ver elas cochicham pois que a nova colega estará de plantão comigo no final de semana.

Pois bem, veio o plantão e Maria Carolina de Ré apresentou suas armas: fez um café bem composto – eu não podia experimentar por força do Mal de Parkinson, mas bebi dois copos.

A seguir, a meu convite, sentou-se à mesa onde eu estava e contou das duas faculdades – Letras e Jornalismo – e que aquela era sua primeira experiência em jornal diário.

Mais tarde, ela deixou escapar ser paulistana da gema – e palmeirense – e, pasmem, surpreendeu falando de futebol com desenvoltura, o que não é comum.

À saída, levei a colega até o metrô e ela entusiasmada com a cultura transbordante de São Paulo me falou que tinha um blog voltado justamente à programação da metrópole. Fiquei de lhe enviar o endereço desta ilha. O dela é o este.

Anderson Passos