Invaders (Final)

Creio que chegamos lá em casa em torno de meia noite num grupo de seis pessoas. A geladeira quase me deixa na mão, mas fiz bombar o termostato e depois da algum tempo a cerveja finalmente gelou.

Nisso, Marcel, o colega da bolsa sequestrada exercia das suas especialidades: alugava e alugava em revezamento.

À Maria Carolina, passei o comando do som. E ela vasculhou o meu acervo e, como em dado momento comentasse sobre Nelson Rodrigues, fui aos meus arquivos, alcancei biografia do genial cronista e autor, que ela levou consigo.

Ao seu Fernando, o chileno de ouro, exibi, às escondidas da Carol, clássicos na voz de Elis Regina, Benito Di Paula enquanto Marcel “da mala sequestrada” enchia o saco exigindo Adoniran Barbosa.

Mas a cada intervenção minha no som, ouvi a voz da Carol brincando:

– Essa daí não está programada.

Baixinha encantadora, escorpiana sagaz essa.

Mostrei A Moça do Sonho, de Edu e de Chico para a peça Cambaio para surpresos e encantados ouvintes. O mala questionava, assim mesmo:

– Mas e o Adoniran?

Eu queimava de volta.

– Morreu.

Risos e espanto. Mais tarde, prefácio em CD do Chico para biografia do Tom Jobim e o Maestro Soberano em criação ao piano. A gravação mostrava o nascimento de Anos Dourados.

De repente, o piso do meu banheiro se igualava ao de um banheiro movimentadíssimo de qualquer bar. A mesa, que inicialmente ocupava o centro da sala, migrou para a janela, onde nos penduramos em revezamento. O cigarro empestava e ainda empesta o ar. A conversa e a cumplicidade eram a tônica e o isotônico.

Ao final, finalmente Adoniran. O Mala do Marcel quis aumentar o som. Já passava das 7h de sábado, e eu empenhado em evitar multas por rasgar a lei do silêncio. Mas acho que esse risco foi debelado.

O que não cessa é a saudade e a vontade de tudo isso acontecer outra vez.

Anderson Passos

Nelson

Sou um leitor tardio. Comecei a me interessar de verdade pelos livros depois dos vinte anos. Antes disso, lia uma coisa ou outra esporadicamente. E não perdia uma oportunidade de integrar a esbórnia, a boemia.

Bem, mas um dia eu teria de crisar vergonha na cara. lembro de trabalhar na Câmara Rio-Grandense do Livro e, ao visitar o sebo do então presidente, achei lá uma edição de A Vida Como Ela É. Comprei. E nasceu ali uma obsessão.

Em seguida, já na faculdade de Jornalismo, fui conhecer a biografia do autor em O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, que já devo ter devorado umas cinco ou seis vezes, leitura sempre reveladora e intrigante. E disse com meus botões:

– Isso devia ser filmado.

Percebendo meu interesse – eu ainda morava no sul – meu irmão enviou-me de São Paulo outros títulos do Nelson lançados então pela Companhia das Letras. No período de um ano e meio ou dois, completei a coleção. Destes, ainda me comovem a crônica de A Menina Sem Estrela, onde Nelson revela o drama da filha Daniela, que nascera cega, ou o relato do assassinato do irmão Roberto Rodrigues, em plena redação de A Crítica.

Passei então à obra teatral, comentada por Sábato Magaldi e tatear a riqueza e a miséria de cada personagem me fez crer estar diante do mais belo e célebre teatro. que o diga a revolucionária Vestido de Noiva, onde o autor descortina o véu da história em planos diferentes.

Sem saber, por causa do Nelson, me vi torcendo pelo Fluminense em suas crônicas de profeta tricolor. Hoje, não existe outro time a me povoar o coração que não o Tricolor das Laranjeiras.

Obrigado Nelson.

Abaixo, trecho de um documentário produzido em homenagem ao autor, veiculado na última semana no site do Fluminense, a propósito do centenário do anjo pornográfico.

Anderson Passos

Teatro

Nestes mais de três anos e meio de São Paulo, eu jamais tinha ido ao teatro. Não que a oferta fosse pouca. Pelo contrário: é abundante e de muita qualidade.

Ocorre que quando o elenco de uma montagem tem um ator global, o preço do ingresso encarece muito e fica proibitivo para o meu orçamento. O mesmo vale se o teatro for localizado num shopping ou numa região nobre da cidade.

Mas todo esse meu distanciamento permaneceu até eu folhear o roteiro teatral na semana passada e descobrir quase que um verdadeiro festival em homenagem ao mestre Nelson Rodrigues no vizinho Teatro de Arena, que fica a 5 minutos ou menos a pé aqui de casa.

A peça em questão era o Beijo no Asfalto e, logo ao chegar, constatei feliz que a casa iria encher. Havia jovens em abundância e a pendurar-se no lustre, diria o cronista.

Quanto ao texto, percebi uma certa confusão em situar as cenas em São Paulo: o tal atropelamento que motiva todo o enredo se dá na Praça da Bandeira e a fuga desesperada de Arandir, o personagem que beija o desconhecido em agonia, se dá num hotel no Largo São Francisco.

No mais, o elenco pareceu-me perfeito, exceção ao caricato em excesso, Amado Ribeiro, o repórter que faz do atropelamento uma alaúza dos diabos.

Espero voltar em breve ao Arena e prestigiar mais essa arte colossal que é o teatro. A trupe, cujo nome me escapa e eles hão de me perdoar, promete montar mais e mais peças do notável cronista. E eu quero estar lá para ver.

Anderson Passos

Amigo de infância

Num texto anterior contei que minha editora Sheila Wada deixou o jornal onde trabalho e a comoção que isso me causou.

A primeira impressão à saída da minha Jefinha é de que eu seria um sério candidato ao câncer, à úlcera, uma vez que a pessoa que cobriu sua ausência, numa primeira etapa, carecia de uma qualidade que julgo essencial nas pessoas: humildade. Além disso, do ponto de vista jornalístico, a sujeita mostrou-se uma tragédia shakespeariana.

Mas quero dizer do título pois que, há coisa de duas semanas, fui apresentado meu novo editor, Henrique Veltman, um senhor de 75 anos.

A primeira informação que tive dele foi que tinha passado por grandes redações a sabia tudo e mais um pouco do riscado, a saber da editoria de política.

E quando ele assumiu seu posto, o quase silêncio imperou. O grande Veltman, como eu, apanhava da tecnologia. E, devagarinho, foi se mostrando uma grande figura.

E um dia, falando de Nelson Rodrigues, contemporâneo dele na Última Hora e, mais tarde, em O Globo, TV Globo e outros mais, o homem mostrou-se um grande depositário de grandes personagens e histórias do jornalismo.

Veltman descrevendo Nelson Rodrigues a escrever suas crônicas sentado sobre um cesto de lixo na redação de Última Hora é algo espetacular e que tive a honra de ouvir. Como ouvi histórias de Samuel Wainer e de outros tantos que ele enumera com requintada graça.

E, como que para selar esse encontro, o grande Veltman ainda me presentou com um livro de sua lavra, que conta tanto mais de sua trajetória de vida. Volume, que aliás, já está quase no fim.

Mais lindo que tudo isso só a honrosa dedicatória do autor, que me acolhe como um “mais novo amigo de infância”. Donde, por esse humilde escrito aqui, só posso retribuir:

Benvindo e muito obrigado, grande amigo!

Anderson Passos

Nelson Rodrigues – por Arnaldo Jabor

Outro dia, o Nelson Rodrigues baixou em mim. De vez em quando, eu o psicografo. É impressionante como escrevo rápido quando o espírito de Nelson me toma. Escrevo com a liberdade de não ser “eu”. Talvez seja por isso que F. Pessoa inventou heterônimos para se sentir livre da cangalha do “eu”.

Muitos jovens me perguntam: “Afinal, quem foi o Nelson?”

Não sabem direito. Ficou apenas a vaga lenda de “pornográfico” ou até de “fascista” por ter puxado o saco do ditador Médici (lembram?) para tirar seu filho da prisão. Não conseguiu, mas ganhou a pecha “de direita” por ter criticado futuros mensaleiros e pelegos, os “marxistas de galinheiro”, como ele os chamava, pois intuiu claramente, na época, que a ideologia que “absolve e justifica os canalhas” era apenas o ópio dos intelectuais.

Eu mesmo sofri por causa dele. Em 1973, ousei filmar Toda Nudez Será Castigada e dei uma entrevista na Veja em que dizia que “fascismo é amplo: existe fascista de direita e de esquerda também”. Pra quê? Os patrulheiros ideológicos mandaram um manifesto ao Jornal do Brasil, onde me esculhambavam indiretamente, dizendo que o sucesso imenso que o filme fazia “não era a missão política do cinema novo”. Foi das grandes dores que senti, pois até amigos assinaram o maldito texto, que só não foi publicado porque, um dia antes, os generais tiraram o filme de cartaz, com soldados de metralhadora, levando as cópias dos cinemas porque, dizia o chefe da Censura: “Ele faz apologia do homossexualismo…”

Aí, meus “amigos” comunas desistiram do texto “para não dar razão ao inimigo principal”, que era a ditadura. Eu e Nelson éramos “inimigos secundários”, para usar a língua de Mao Tsé-tung. Isso é verdade e nunca contei aqui. Doeu, mas já passou.

Aí, o filme voltou a cartaz porque ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim; os generais ficaram com medo da repercussão internacional (imensa) e liberaram meu filme, baseado numa peça do “fascista pornô”. Mas a importância de Nelson continua subestimada.

Hoje, a “pornopolítica” tomou conta de tudo e Nelson é que tem fama de “pornográfico” – logo quem: um moralista que corava diante de um palavrão. Nelson é muito mais. Filho do jornalismo policial, formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros plásticos, metido no cotidiano “marrom” do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via.

Consideram-no o maior dramaturgo do País, sem dúvida, mas não o colocam no pódio da literatura culta, ao lado de gente como Guimarães Rosa, por exemplo, que o irritava muito: “Jabor, diga-me pelo amor de Deus, qual a profundidade da frase “Viver é muito perigoso”?” Ou: “A gente morre para provar que viveu…?” Nelson implicava com a pose do Rosa.

Uma vez, ele me disse ao telefone que o “problema da literatura nacional é que nenhum escritor sabe bater um escanteio”. É luminoso.

Outra vez, ele falou: “Se Deus me perguntar se eu fiz alguma coisa que preste na vida, eu responderei a Deus: “Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!””

Sua literatura nos ensina o óbvio e isto é muito profundo numa literatura eivada de engajamentos “corretos” ou de intenções formais rocambolescas. Gilberto Freyre sacou sua “superficialidade profunda”, assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era justamente “a épica das irrelevâncias…” E isto é muito saudável, num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade. Nelson é um escritor contemporâneo.

Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na sincronia com os detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez na prosa é semelhante à que João Cabral fez na poesia.

Nelson baniu as metáforas a pontapés “como ratazanas grávidas” e criou o que podemos chamar de antimetáforas feitas de banalidades condensadas. Suas comparações sempre nos remetem a um “mais concreto”. Shakespeare tinha isso, Cervantes, também. E algumas crônicas de Nelson são superiores a muitas peças.

Suas frases famosas jamais aspiravam ao “sublime”: “o torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado”, “a mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil”, “em seu ódio ele dava arrancos de cachorro atropelado”, “seu peito se encheu de heroísmo como anúncio de fortificante”, “a bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono”, “a virtude é bonita, mas exala um tédio homicida; não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera”, “o sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura”, “somos uns Narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem”.

Ele me dava lições de arte e literatura: “Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão elitista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões. E aí vem a grande verdade: “A obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita”. Isso. Contemporâneo e minimalista, via, como Oswald, que a poesia está nos fatos, no vatapá no outro e na dança – “o que estraga a obra de arte é a unidade”.

A lição política de Nelson é: o Brasil não se salvará com planos messiânicos ou ideias gerais de “epopeias de Cecil B. de Mille”, sejam elas epopeias operárias ou epopeias neoliberais.

Nelson, sem cultura política nenhuma, profetizou que os atos “indutivos”, as providências parciais eram muito mais importantes que generalidades utópicas e “dedutivas”. O “óbvio ululante” é limpar a casa e cuidar do detalhe, do enxugamento do Estado, “chupando a carótida dos chefes das estatais como tangerinas” quando se mostrarem ladrões ou favorecendo correligionários, como vemos todo dia.

Nossa opinião pública está muito mais informada hoje, mas ainda é precária e desinformada. Como ele dizia: “Consciência social de brasileiro é medo da polícia”. Até hoje.

Temporal de 5º Ato do Rigoletto

Sim, o título é abertamente clonado do cronista maior Nelson Rodrigues.

Pois o calor deste domingo (23/01) que se foi era daqueles triunfais. Andar era desconfortável, assistir televisão idem, comer, beber, essas coisas tão rotineiras soavam custosas.

Não havia vento, nada havia senão sufoco. E de repente, o céu foi-se preteando, como o olho da gateada.

E quando a coisa fica assim – e todo janeiro, todo fevereiro e todo março é assim em São Paulo – pode crer que lá vem água.

O diabo é que a tempestade que se viu, ao menos para mim, foi levemente aterrorizante uma vez que raios, trovões, relâmpagos pipocavam em cima do meu prédio.

Cá de baixo, comecei berrando para o alto algo como “errou, puto!!!”. Mas, como a coisarada durasse duas horas inteiras de água batendo, eu cheguei a ponderar com meus botões se, em algum momento, o [São] Pedro me acertaria a ideia.

Ele errou e cá estou para contar a história. Mas o diabo está chegando cada vez mais perto.

e de novo gente morreu, e de novo árvores caíram, e de novo tudo de novo, uma história velha e com final desagradável para as periferias. E de novo não há governo para dizer o que fazer a curto prazo para minimizar tantas perdas de toda ordem.

Anderson Passos

Museu do Futebol

Por conta da visita de Geraldo Alckmin (PSDB) ao Museu do Futebol, no Estádio Municipal do Pacaembu, em São Paulo, acabei conhecendo o lugar involuntariamente na última segunda-feira (27/9).

E os meus brios futebolísticos, que vez em quando adormecem e só despertam a uma retumbante vitória do meu Fluminense, de repente se ergueram.

Nas paredes, fotos, emblemas e até botões de futebol de mesa me remeteram, de imediato, à infância. Involuntariamente eu me via com os olhos marejados e levando a mão ao peito quando um colega ironizou.

– Vai cantar o hino?

Me recompus e, quase às lágrimas, segui em frente. Adelante, mal entrado na exposição, dei de cara com ícones do meu tricolor: Gerson Canhotinha de Ouro, Roberto Rivellino e o avante Washington – que formou o chamado Casal 20 do Fluzão ao lado do gênio Assis.

A seguir, galgando as escadarias, já no espaço do Canal 100, narrado por Juca Kfouri, assisti a um memorável frango do arqueiro tricolor Castilho. Me benzi e saí correndo dali.

Os cronistas supremos também estavam lá: Nelson Rodrigues e suas narrativas épicas do esporte bretão e o igualmente memorável João Saldanha, comentando sobre o seu time de feras, que consagrou Zagallo em 70.

Não pude chegar na arquibancada do Pacaembu, como desejava. Mas espero, com mais tempo, voltar ao Museu e registrar em imagens e num texto mais ajustado um pouco da emoção e da nostalgia que me varou a alma nesse emocionante reencontro com o universo do futebol.

Anderson Passos